Cinema

Lucro com legendas: Brasil já é o 3º mercado para os EUA

Bilheteria americana cai e abre espaço para mercados internacionais, que hoje já representam dois terços do faturamento total de Hollywood

Carol Nogueira
Cena do filme 'John Carter - Entre Dois Mundos', da Disney, que liderou as bilheterias brasileiras na semana passada

Cena do filme John Carter - Entre Dois Mundos, da Disney, que liderou as bilheterias brasileiras na semana passada (Divulgação/VEJA)

Na semana passada, o filme John Carter – Entre Dois Mundos, a aposta do ano da Disney, fez feio nas bilheterias dos Estados Unidos, onde o estúdio esperava grande sucesso comercial. O longa estreou com arrecadação mais baixa do que qualquer outra adaptação do gênero – apenas 30 milhões de dólares, valor modesto para um mercado com o porte do americano – e ficou pequeno perto da animação infantil O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida, que faturou 70 milhões em sua estreia, uma semana antes. Mas o filme mostrou força nas bilheterias internacionais – surpreendentes 16,5 milhões de dólares na Rússia e, só no Brasil, país com poucas salas de cinema, fez 4 milhões de reais (cerca de 2,4 milhões de dólares). O resultado pegou a Disney de surpresa, mas deve se tornar cada vez mais frequente. Isso porque a bilheteria americana, que teve no ano passado o seu pior desempenho desde 1995, vem perdendo terreno para países como China, Japão e, claro, o Brasil, hoje o 3º mercado fora dos Estados Unidos para os longas americanos. 

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Segundo representantes do setor, a arrecadação obtida pelos filmes americanos fora dos Estados Unidos já representa dois terços de sua receita total. “Há 20 anos, essa participação era de um terço”, afirma Sérgio Sá Leitão, presidente da RioFilme, empresa da prefeitura do Rio que apoia o desenvolvimento do cinema nacional. “O mercado dos EUA não é mais autossuficiente, como no passado.” Neste cenário de festa internacional, o Brasil é o mais novo convidado de honra, diz. “O mercado brasileiro cresceu e se tornou importante para Hollywood. As premières latino-americanas, que aconteciam na Cidade do México, passaram a ser realizadas no Rio. Foram realizadas nove em 2011, contra nenhuma em 2010. O número de produções estrangeiras e coproduções internacionais realizadas no Brasil também cresce.”

De acordo com o site Filme B, responsável por levantar números do setor no Brasil, somente em 2011 o país vendeu mais de 107 milhões de ingressos para filmes americanos, que no período faturaram, juntos, 1,07 bilhão de reais por aqui. As quantias representam, respectivamente, 75% do total de ingressos (141,7 milhões) e 76% receita (1,4 bilhão de reais) computados no Brasil, em um ano de recorde para o setor, graças, em parte, aos ingressos caros dos filmes em 3D. 

Receita - A estabilidade da economia e a ascensão da classe C, além da valorização do real frente ao dólar, são fatores que explicam a boa relação comercial entre Brasil e Hollywood. “O cinema é muito sensível à economia, e, nesse momento de crise mundial, o país sobressai junto às produtoras internacionais”, diz Rodrigo Saturnino, diretor-geral da Sony Pictures no Brasil, de filmes como Os Smurfs e Anjos da Noite. Animado, o executivo faz uma previsão otimista para o mercado brasileiro: ele deve crescer até 15% em 2012, em comparação com o ano passado.

Prova de que o Brasil entrou definitivamente para o circuito mundial de divulgação de filmes é a enxurrada de estrelas internacionais que aportam por aqui. Só neste ano, já vieram Emma Stone (O Espetacular Homem-Aranha), Will Smith (Homens de Preto 3) e Reese Witherspoon (Guerra é Guerra). Entre os próximos visitantes, está parte do elenco estrelado do remake de O Vingador do Futuro, composto por Kate Beckinsale, Jessica Biel e Colin Farrell.

O único problema é onde exibir tantos filmes. Segundo os executivos, o maior obstáculo para o mercado do cinema no Brasil é o seu reduzido número de salas. “O país sofre porque tem uma rede de exibição menor. Enquanto o México tem 4.000 salas, o Brasil tem metade disso. Nós precisaríamos dobrar este número, mas o crescimento é lento”, afirma Márcio Fraccaroli, diretor-geral da distribuidora Paris Filmes, responsável por trazer ao Brasil longas como A Dama de Ferro e as sagas Crepúsculo e Jogos Vorazes.

Do lado de cá – Outro fator que prejudica o crescimento do mercado de cinema no Brasil é o viés da produção nacional. Filmes brasileiros, sem legenda e com histórias e piadas ao gosto do freguês, poderiam atrair mais espectadores – especialmente da hoje toda poderosa classe C – para as salas de exibição, onde esse novo público poderia se interessar por outros cartazes. Mas isto ocorre com baixa frequência. “Não conseguimos fornecer ao mercado mais de dez filmes competitivos por ano, um número irrisório, se comparado aos mais de duzentos filmes em língua inglesa despejados no nosso mercado todos os anos. É igual a jogar o campeonato nacional sem um banco de reservas”, compara Bruno Wainer, diretor da distribuidora Downtown Filmes, de longas como Cilada.com.

O longa estrelado por Bruno Mazzeo no ano passado é, aliás, um exemplo de como o cinema brasileiro pode se beneficiar do foco na classe C. Comédia de costumes, gênero caro ao gosto nacional, Cilada.com foi visto por mais de 3 milhões de espectadores no ano passado. A tese se consolida definitivamente após uma análise dos maiores blockbusters brasileiros dos últimos anos: longas como Tropa de Elite 2 e Dois Filhos de Francisco são talhados para a classe média emergente, tipo de produção que o Brasil não teve em 2011.

Não é, portanto, que o cinema brasileiro vá mal. Ele vive um momento bom: no ano passado, as 98 estreias brasileiras renderam 164 milhões de reais em bilheteria, a segunda melhor renda dos últimos vinte anos – número que só deixa a desejar para os de 2010 e 2003. Para efeito de comparação, em 2001, os filmes nacionais renderam 35,5 milhões de reais. Tudo isso mostra que os filmes brasileiros não são prejudicados pelos rivais americanos, mas pelas deficiências da própria indústria.

“O problema é que encaramos o cinema brasileiro mais como expressão artística do que como indústria. Por isso, o número de filmes de arte ainda é maior do que o de filmes comerciais. Precisamos ter mais filmes capazes de competir com os estrangeiros no mercado interno, em todos os gêneros e nichos”, afirma Sérgio Sá Leitão, da RioFilme, empresa que, aliás, sente na pele a expansão do cinema no Brasil. Só neste ano, deve investir 31 milhões de reais no setor – 30 milhões a mais que em 2008 – e espera, para o mesmo período, receita de 10 milhões de reais.

Os blockbusters americanos no Brasil em 2011

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Rio

Arrecadação: 68.694.564 reais
Público: 6.325.744 espectadores

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