Cinema

José Padilha mostra seu RoboCop a Hollywood

Como o cineasta brasileiro lidou com a pressão dos grandes estúdios americanos, os altos orçamentos e atores de primeira ordem para realizar essa versão de policial do futuro

Isabela Boscov, de Los Angeles
O carioca José Padilha com a armadura usada por Joel Kinnaman em RoboCop: desde a primeira reunião com a MGM, há três anos, na qual tomou a iniciativa de propor o projeto, ele persistiu na atitude de independência e provou, na prática, que no seu set de filmagem era ele quem tinha de dar as cartas

O carioca José Padilha com a armadura usada por Joel Kinnaman em RoboCop: desde a primeira reunião com a MGM, há três anos, na qual tomou a iniciativa de propor o projeto, ele persistiu na atitude de independência e provou, na prática, que no seu set de filmagem era ele quem tinha de dar as carta   (Gilberto Tadday/VEJA)

"Quem achou este filme ruim?"
Ninguém levantou a mão.
"Quem achou este filme bom?"
Nenhuma mão levantada.
"Ótimo? Excelente?"
Todas as mãos no ar.

Nesse dia de 2013, o da primeira exibição de RoboCop para uma plateia-teste, o cineasta brasileiro José Padilha ganhou pelo voto direto o direito de dizer que o filme que estreia nos Estados Unidos em 12 de fevereiro e no Brasil uma semana depois, na sexta-feira 21, é seu do começo ao fim, sem tirar nem pôr. Não é um filme que um estúdio de Hollywood imaginou. Também não é um filme que os produtores tenham guiado. Não é nem sequer um filme no qual essas duas entidades, o estúdio e os produtores, tenham interferido (embora tenham tentado com grande ânimo, claro). RoboCop é Padilha do começo ao fim. Nasceu, de estalo, durante uma reunião genérica do carioca com a direção do estúdio MGM. “Você quer fazer Hércules?”, perguntaram os executivos. Não, Padilha não tinha o menor interesse em fazer Hércules. “E que tal Os Sete Samurais?” Não, obrigado. “Agora, aquilo lá sim eu quero fazer”, arriscou o diretor, apontando para um cartaz de RoboCop na parede da sala de reuniões.

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A máquina humana: O policial Alex Murphy (Kinnaman) desperta, no laboratório de Gary Oldman, de sua transformação em ser cibernético: uma reflexão sobre a relação desigual de força entre homens e máquinas e o potencial totalitário que ela contém, e também um questionamento do que, afinal, faz de um homem um homem — esta uma questão premente para a mulher de Alex, interpretada pela australiana Abbie Cornish (à dir.)

O primeiro RoboCop, que o holandês Paul Verhoeven dirigiu em 1987, é uma das tiradas mais satíricas, audaciosas e contundentes sobre o estado de coisas americano que Hollywood jamais patrocinara: na ultraviolenta Detroit do futuro, com a criminalidade fora de controle, o policial Alex Murphy é assassinado e então revivido como o agente da lei do título, um ser meio humano meio cibernético criado pela corporação OCP e usado como arma implacável pela polícia. Revolucionário a seu tempo e eletrizante ainda hoje, o RoboCop de Verhoeven foi um dos primeiros produtos da cultura pop a anunciar a reversão do ufanismo e do jingoísmo da era Reagan. Mas, como provaram as duas fraquíssimas continuações de 1990 e 1993 (sem a participação de Verhoeven), era uma criatura única e irreplicável. Qual seria a ideia de Padilha, então, para um novo RoboCop, perguntaram os curiosos — e algo céticos — executivos da MGM?

Simples, improvisou o brasileiro: está-se em 2028, e não mais é preciso ter alguém pilotando um drone: os autômatos tomam suas próprias decisões, seja em situações de policiamento, seja em zonas de intervenção militar. Na cena que abre o filme de Padilha, robôs humanoides e os pesadíssimos ED-209 criados por Verhoeven patrulham ostensivamente Teerã. “As-salaam alaikum (a paz esteja convosco) — saiam com as mãos para cima”, ordenam os ciborgues, que revistam homens, mulheres e crianças enquanto uma repórter de TV festeja a maneira como a população local “abraçou” a ocupação. Só o que se vê entre os iranianos, claro, são olhares de ódio — mas o âncora que o ator Samuel L. Jackson calca em figuras exuberantes da direita como Bill O’Reilly e Rush Limbaugh pergunta à audiência: “E por que só aqui não se pode poupar a vida de policiais e de militares dessa forma? Por que a América, afinal, é tão robofóbica?”, encerra ele, triunfalmente. Eis o eixo em torno do qual se desenvolve o enredo de Padilha: os americanos rejeitam a ideia de que um autômato possa decidir sobre a vida de um ser humano, e apenas nos Estados Unidos seu uso é proibido. A OmniCorp, a corporação que os produz, está assim impedida de se expandir no maior mercado do mundo. Mas quem sabe, pensa o CEO da OmniCorp (Michael Keaton, numa excelente personificação de Steve Jobs), a população mude de ideia se dentro do autômato houver um homem? — no caso, o policial Alex Murphy, ferido e mutilado em um atentado.

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Questão de lógica O RoboCop, já com a armadura preta que seus fabricantes consideram mais atraente para o público, entra em ação pela primeira vez: usar autômatos em vez de perder vidas é brilhante, claro — mas o que fazer quando os princípios da ética e da moral começam a ser suprimidos?

Embora Padilha não soubesse disso, reviver RoboCop sempre estivera nos planos da MGM. Quando aquela reunião aconteceu, mais de três anos atrás, o diretor Darren Aronofsky (de Cisne Negro) acabara, na verdade, de desistir de uma refilmagem. Será que Padilha gostaria de aproveitar o roteiro dele? Não, obrigado de novo, declinou o brasileiro, que escolheu como roteirista Joshua Zetumer e trabalhou com ele passo a passo no desenvolvimento de seu argumento. De cara, levou-o para o Rio de Janeiro. “Assim como é importante para o Flamengo jogar no Maracanã, levei-o para o Rio porque era importante para mim desenvolver o filme no meu estádio — a minha produtora. Era importante ele ver de onde eu vim, assistir aos meus filmes, ficar meu amigo, ler os livros de filosofia da mente que eu leio, virar meu cúmplice.”

RoboCop ganhou orçamento de 140 milhões de dólares — cumprido à risca, assim como os prazos. Vez ou outra, para desconcerto dos produtores, a filmagem chegava a terminar mais cedo, lá pelas 3 da tarde, com todas as cenas do dia “na lata”, como se diz. Para não atrasar o cronograma, também, Padilha enfrentou um mês de suplício: decidiu ficar à base de antibióticos e adiar uma cirurgia urgente para remediar uma diverticulite. Só depois de encerrado o trabalho foi ao encontro do bisturi, com o qual deixou um bom pedaço do seu intestino. Ajudou-o, e muito, o fato de que os produtores com que colaborou não lhe foram impostos pelo estúdio, mas escolhidos a dedo por ele mesmo. E ajudou-o mais ainda a companhia de profissionais de muita competência e amizade em postos-chave: Lula Carvalho como diretor de fotografia, Daniel Rezende na montagem (em parceria com Peter McNulty, de O Mestre) e Pedro Bromfman na trilha sonora. “RoboCop não é o meu primeiro filme americano. É o primeiro filme brasileiro de Hollywood”, brinca ele.

Fosse Padilha espanhol, dinamarquês ou mesmo americano, tal controle sobre a equipe seria igualmente incomum. Não se trata de uma questão de proveniência: trata-se de uma questão de cacife. A MGM convidou Padilha para aquele encontro inicial por força da bilheteria de Tropa de Elite 2 — O Inimigo Agora É Outro, que rendeu mais de 63 milhões de dólares mesmo sem quase nada ter ganhado no mercado americano (no qual foi lançado em míseras sete salas). A indústria de cinema vive de olho em números, e esses lhe chamaram a atenção. Fora isso, o que Padilha tinha, objetivamente, era prestígio crítico, por conta do documentário Ônibus 174 e do primeiro Tropa de Elite. Mas tinha também, e isso seus parceiros americanos logo viriam a descobrir, quantidades inesgotáveis de visão, determinação, autoconfiança e obstinação. A contratação de Daniel Rezende nem foi tão difícil, graças ao seu crédito como montador de Cidade de Deus e à indicação ao Oscar que recebeu. Já a de Lula Carvalho foi objeto de hesitação e resistência. Padilha transformou-a em fato consumado ao levar Carvalho para uma reunião e apresentá-lo aos executivos da Sony-MGM como “o seu diretor de fotografia de RoboCop”. “Aí ninguém podia mais dizer que não”, ri Padilha, lembrando da saída atrevida. O estilo de guerrilha do diretor rapidamente conquistou a adesão da equipe e do elenco. Padilha faz todos participarem de tudo e, se fala bastante, ouve em igual medida. “Quando meu agente me falou de RoboCop, recusei. Mas, quando soube que o diretor era o Padilha, voltei atrás na hora. É brincadeira, poder trabalhar com o cara de Ônibus 174 e Tropa de Elite?”, diz Joel Kinnaman, da série The Killing, que entrega uma belíssima atuação como Alex Murphy e acompanhava o trabalho do brasileiro desde quando ainda morava na sua Suécia natal. Padilha fez Kinnaman vestir a armadura de RoboCop na raça, em vez de tê-la digitalmente aplicada. Quando a filmagem começou, no verão tórrido da canadense Toronto, ele perdeu 7 quilos na primeira semana dentro do seu “caveirão” particular. Quando o inverno frígido da cidade chegou, em compensação, ele era a única pessoa mais ou menos confortável no set.

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A outra tropa de elite: Padilha observa uma cena no monitor com um de seus produtores, Marc Abraham. À direita, Michael Keaton como o executivo decalcado de Steve Jobs que bola a ideia de colocar um homem dentro da máquina; e, ao centro, Samuel L. Jackson como o âncora de uma emissora muito parecida com a Fox News nas suas inclinações políticas (leia-se, bastante à direita), que defende a entrada dos autômatos nos Estados Unidos: dos postos mais altos da equipe de produção aos atores, todo mundo escolhido a dedo pelo próprio diretor

Nos anos seguintes ao seu “sim” à Sony-MGM (a mesma composição que produz os filmes de James Bond), Padilha se chocaria inúmeras vezes de frente com o estúdio e os produtores executivos — leia-se, o pessoal do dinheiro. “A tensão é grande mesmo, e está lá o tempo todo. Por um lado, eles querem, com razão, proteger o altíssimo investimento deles. Por outro, eu quero garantir, também com razão, que o filme que eu concebi é o filme que será visto.” Altercações, telefones batidos, rompimentos e reatamentos, trocas de concessões, resistência pacífica e até um tantinho de duplicidade (fingir que aceitou fazer de um jeito e, na hora H, ir lá e seguir o próprio nariz, por exemplo): Padilha usou todo tipo de tática, mas sobretudo manteve a atitude que desde aquela primeira reunião rendera os melhores frutos. Primeiro, a atitude de independência. “Estou em uma posição privilegiada: tenho uma carreira muito ativa no Brasil, e nunca quis fazer um filme nos Estados Unidos só para dizer que fiz. Se eles não quisessem do meu jeito, eu não faria e pronto. Já se eu dependesse deste projeto para seguir carreira... Aí é provável que eu pensasse duas vezes antes de peitar os caras como peitei.”

O “caveirão” do futuro

A armadura do novo RoboCop tem cerca de 1,98 metro de altura: 1,90 do ator Joel Kinnaman e os 8 centímetros restantes acrescentados pelos sapatos e pelo capacete


Feita de borracha e de plástico como o usado em para-choques de automóveis, ela é relativamente leve: pesa cerca de 20 quilos


No primeiro dia, foi preciso quase uma hora para colocar Kinnaman dentro dela. Lá pelo quinto dia, já se chegara à marca de vinte minutos


Kinnaman passava até doze horas por dia dentro da armadura, e saía dolorido por causa da maneira como ela limitava seus movimentos e forçava sua postura


Em dias quentes, era preciso bombear água fria para um colete sob o torso da armadura entre uma cena e outra: na primeira semana, sem essa providência, Kinnaman perdeu 7 quilos de tanto transpirar


Usaram-se várias placas móveis para compor a armadura. Elas foram sendo trocadas à medida que o RoboCop ia sendo alvejado e perfurado por seus inimigos


Na história, o policial Alex Murphy foi dramaticamente amputado para a sua transformação cibernética. Embora Kinnaman seja bastante magro, a circunferência da cintura foi retocada com computação gráfica, para ficar mais fina do que seria possível em um homem com o corpo intacto


Além desta armadura usada por Kinnaman, foram construídas outras duas, mais articuladas e flexíveis, para os dublês de ação


O RoboCop de 2014 é bem mais ágil que o de 1987, mas manteve-se a essência mecânica de seus movimentos — que ainda têm aquele inconfundível ruído hidráulico


Não, a armadura não é preta em homenagem à farda do Bope carioca. “Essa é a cor usada no uniforme da maioria das polícias táticas. Fizemos como provavelmente seria feito no mundo real”, explica Padilha

Contrato assinado, prevaleceu, junto à independência, aquela atitude de “eu sei o que estou fazendo”, que é irresistível nas pessoas que, sim, de fato sabem o que estão fazendo. Padilha forneceu as provas de sua competência voluntariamente, à medida que as tinha em mãos: cada cena que ele filmava, Rezende já tratava de montar e mostrar ao estúdio, para acalmar os ânimos. “E também para o pessoal ir se acostumando com o filme. Senão, iria ser um choque para eles, e a coisa não iria funcionar.” A ideia era mesmo arriscar. “Os filmes de ação americanos estão cada vez mais parecidos entre si e genéricos. A televisão, no entanto, está arrebentando com séries complicadas e difíceis como The Wire ou Breaking Bad, e encontrou uma audiência para elas. Sou contra subestimar a inteligência do público, e não serei eu a fazê-lo.”

Não se trata de retórica. Uma das qualidades de Padilha é que ele é o mesmo — animado, paciente, extremamente disciplinado com suas obrigações — num escritoriozinho da Vila Madalena, falando de Garapa, seu documentário sobre a fome no Nordeste, ou num hotel de Beverly Hills, discorrendo sobre seu RoboCop repleto de ação e de efeitos especiais. Por temperamento ou por princípio, também, ele não reclama nem remói. Quando Tropa de Elite foi visto por 15 milhões de brasileiros em DVDs piratas e o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, enxergou algo de democrático nesse tipo de ilegalidade, Padilha falou objetiva e francamente contra o crime que isso constitui, mas não chorou as pitangas. Em Tropa de Elite 2, no entanto, cortou o mal pela raiz, assumindo controle total do projeto: montou um fundo de investimentos privado para bancar a produção do filme e também sua distribuição — já que, graças às inconsistências legislativas brasileiras, essa é a ponta do negócio que menos risco corre e mais dinheiro ganha. Os rendimentos foram repassados aos investidores via auditoria; nem um fotograma sequer do filme vazou para a pirataria; e Tropa de Elite 2 bateu todos os recordes de bilheteria no país.

Analisar as causas e razões de um problema e atacá-las antes que esse problema ganhe existência é um dos benefícios do raciocínio metódico que Padilha, físico de formação e de espírito, aplica a todas as instâncias de sua atividade profissional. “Os dois fatores determinantes em qualquer filme são o roteiro e o diretor. Entrei em RoboCop pelo roteiro e fiquei pelo diretor”, diz o inglês Gary Oldman — soberbo no papel do cientista que transforma Alex Murphy em máquina. “Padilha é um desses raros cineastas que têm um ponto de vista e algo a dizer. De pronto, debate qualquer questão ética, filosófica ou médica que você tenha — com brilhantismo, e numa língua que não é a dele”, maravilha-se Oldman.

No momento, fiel aos ditames do método científico que tanto preza, Padilha recusa formular qualquer prognóstico sobre a recepção crítica ou popular a RoboCop. As projeções de bilheteria são excelentes. A nota que o filme ganhou naquela primeira exibição-teste foi altíssima: 82 sobre 100. Mas o diretor não quer contar com os ovos antes de eles serem postos, nem traçar panoramas hipotéticos no caso de o filme ir mal ou ir bem. Tem vários projetos em andamento nos Estados Unidos (pelo menos dois longas e uma série que está “quase fechando” com o Netflix). E tem também vários outros em curso no Brasil. Pretende retomar um roteiro sobre o mensalão à luz das guinadas espetaculares do julgamento do ano passado. Quer investigar, em documentário, por que é tão alto o número de pessoas desaparecidas a cada ano no Rio de Janeiro — ou, em outras palavras, quer descobrir que tipos de má conduta essa estatística pode estar maquiando. Pensa montar um fundo privado para produzir e distribuir um pacote de cinco filmes e provar assim que o cinema é uma atividade viável do ponto de vista do lucro do produtor no Brasil, mesmo sem recorrer às leis de incentivo (as quais considera em boa medida necessárias, mas tortas na maneira como estão hoje dispostas). Está em dúvida, portanto (ou diz estar), sobre onde viverá nos próximos anos, se no Brasil ou nos Estados Unidos. “O Brasil é uma barbárie. Na minha última ida, fiquei com a nítida sensação de que estamos num barril de pólvora. Mas amo o Brasil, e não desisto dele”, diz. Por outro lado, admite que há seu charme em viver numa cidade como Los Angeles ou Toronto e mandar o filho de 10 anos à escola sem temor de que algo de ruim possa acontecer a ele. Por isso é cautelosamente evasivo sobre o endereço (“alugado; nunca comprei um imóvel”) em que mora quando está no Rio de Janeiro, ou sobre qual o cachê — excelente, é óbvio — que ganhou por RoboCop: como muitos brasileiros dos quais se suspeita alguma afluência ou notoriedade, já foi alvo de uma tentativa de sequestro. Eis como Padilha contorna o assunto: “O Seu Jorge está morando aqui em Los Angeles, e alguém perguntou a ele se não iria voltar para o Brasil. ‘Pois é, mas aqui tem aquela aguinha filtrada, né?’, respondeu o Seu Jorge”.

Assim como os dois Tropa, o RoboCop de Padilha propõe um raciocínio que, até um certo ponto, faz sentido ou ao menos parece justificável. O Capitão Nascimento de Wagner Moura usa de força excessiva movido pelo desespero legítimo de combater tanto a criminalidade como a corrupção policial, males reais e destrutivos do tecido social. O CEO interpretado por Michael Keaton argumenta, com propriedade, que é moralmente inaceitável desperdiçar vidas que poderiam ser poupadas caso se usassem robôs no lugar de soldados ou de policiais. A questão com que a plateia se tem de ver, nos Tropa e em RoboCop, é a das consequências últimas desses raciocínios: Nascimento acredita que a sua violência é um mal menor em face da violência que quer combater; e a OmniCorp acha aceitável desumanizar progressivamente Alex Murphy/RoboCop para que ele cumpra a função a que se destina. “A história prova vez após vez que a mecanização e a desumanização da violência — essa remoção da consciência dos indivíduos — são as portas pelas quais se entra num cenário potencial de fascismo”, argumenta Padilha. “Essa é, para ficar no exemplo óbvio, a maneira como o nazismo se instalou na Alemanha no século passado.” Há outra faceta ainda dessa questão que interessa ao diretor: a da responsabilidade e culpabilidade. “Por que os americanos tiveram de sair do Vietnã? Em grande parte devido à pressão popular, porque soldados americanos estavam morrendo. O mesmo no Iraque. Mas, se um dos lados da guerra tira da equação os soldados de carne e osso e os substitui por autômatos, o que se tem é um desequilíbrio incontornável de forças. Além disso, pode-se julgar um soldado por uma morte injusta. Mas e se quem a provoca é um robô, a quem se vai atribuir a culpa? Ao software? Ao fabricante? Ao Exército?”

Divulgação/Antonio Scorza/AFP

O Brasil urbano, segundo padilha,... Wagner Moura põe um deputado literalmente a nocaute em Tropa de Elite 2, à esquerda, e uma das cenas de alta voltagem que fizeram Ônibus 174 correr o mundo: começando com o documentário e prosseguindo com os dois Tropa, uma dissecção da violência no Brasil nas esferas da criminalidade, da polícia e da política

 

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...e o seu Brasil profundo: O documentário Segredos da Tribo, acima, analisa a perversão da ciência por meio da relação dos antropólogos com os índios ianomâmis, enquanto Garapa, à esquerda, destrincha os mecanismos da fome e da miséria no Nordeste: como documentarista ou diretor de ficção, sempre uma visão sistêmica das razões pelas quais as mazelas nacionais se perpetuam

Naturalmente, esse conteúdo ostensivamente político e as indagações relativas à filosofia da mente — uma de suas disciplinas favoritas — de que Padilha carregou RoboCop enchiam o estúdio de apreensão. Tendo já usado de todas as artimanhas de que é capaz — e não são poucas — para garantir que filmaria exatamente o que desejava filmar, o diretor e seus montadores concentraram seu poder de fogo na etapa seguinte e decisiva. Conforme as regras da associação americana de diretores (DGA), o cineasta tem o direito a fazer o primeiro corte de seu filme sozinho, e de mostrá-lo então para uma plateia-teste, cujas reações serão tabuladas pelos marqueteiros. “Em Hollywood, é aí que o diretor ganha ou perde o controle do filme”, explica Padilha — que decidiu levar a esse primeiro preview a melhor versão possível de seu filme, e também a mais adequada ao lançamento comercial. Resultado: nem sequer houve um segundo preview. O RoboCop que está indo para os cinemas é aquele que Pa­dilha mostrou para a primeira plateia-teste. No jargão da indústria, diz-se que o diretor ficou com o “corte final” — um privilégio do qual só gente muito graúda costuma usufruir. Duas novas cenas, é verdade, foram rodadas após aquele primeiro preview. Uma, por decisão do próprio Padilha, que achou que havia um je ne sais quoi faltando numa sequência decisiva; e um desfecho diferente do programado pelo estúdio, que concordou que o final proposto pelo diretor ficaria melhor. Ou seja: a exibição-teste deixou RoboCop ainda mais próximo da concepção de seu criador, e não mais distante, como é o habitual. Padilha admite que filmar em Hollywood foi um teste duro. Mas reconhece também que aprendeu muito. E não pediu para sair. Agora, por outro lado, está assim de gente pedindo para entrar na sua tropa de elite.

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