Cinema

Festival do Rio: 'Serra Pelada' é um autêntico faroeste amazônico

Filme conta a história de dois homens no maior garimpo a céu aberto dos tempos modernos, com diálogos e cenas de ação eletrizantes

Flávia Ribeiro, do Rio de Janeiro
Cena do filme 'Serra Pelada'

Cena do filme 'Serra Pelada' (Divulgação/VEJA)

Faroeste caboclo por excelência, Serra Pelada é uma produção de proporções épicas como a história da própria montanha brasileira – que, nos anos 80, se transformou na maior mina de ouro a céu aberto dos tempos modernos, que chegou a ter cerca de cem mil garimpeiros trabalhando ao mesmo tempo e rendeu, oficialmente, 30 toneladas de ouro. Dirigido por Heitor Dhalia (de O Cheiro do Ralo e À Deriva), o filme encerra o Festival do Rio 2013 na noite desta quarta-feira, em sessão para convidados, e entra em circuito no dia 18.

O longa recria o formigueiro humano que se tornou o garimpo do Pará ao contar a história de dois amigos de infância que saem de São Paulo em busca de ouro. Juliano (Juliano Cazarré) é um ex-boxeador amador que não tem nada para deixar para trás. Joaquim (Júlio Andrade), em compensação, é um professor desempregado que abandona a mulher grávida em casa e parte em busca do sonho da riqueza. Fazem um pacto de irmãos ao chegar. Nos quatro anos seguintes, o pacto será quebrado, e valores e princípios, esquecidos. Juliano vira um gângster, envolvido com tráfico de ouro, drogas e armas. Toma conta do garimpo enquanto Joaquim tenta se manter fiel ao que acredita. “Esse lugar tira o pior de nós”, repete Joaquim ao longo do filme.

“Joaquim sofre com a saudade, sofre com a injustiça daquela selva, com o bangue-bangue. Era um professor que quis dar outro futuro para a filha e passa por muita coisa. Mas não se trai, não trai sua ética”, analisa Julio Andrade. Sofre, mas leva quatro anos até decidir ir embora. Pega a “febre de ouro” e tem dificuldade de se curar. Para se manter são, agarra-se às fotos da mulher e da filha que ainda não conheceu. Juliano, apegado à sede de poder e afundado na violência, afasta-se de todos, inclusive de Joaquim e de Tereza (Sophie Charlotte), prostituta transformada em mulher do manda-chuva, a “pepita do garimpo”.

Os dois protagonistas estão perfeitos no papel, que exige virilidade e brutalidade de Juliano Cazarré e um certo olhar sonhador de Júlio Andrade. Sophie Charlotte surpreende e faz o público acreditar que, mesmo com seu rosto de princesa, poderia ser uma prostituta de Serra Pelada. Matheus Nachtergaele e, principalmente, Wagner Moura são coadjuvantes de luxo, interpretando outros gângsteres no faroeste tupiniquim.

A reconstituição de garimpo é tão perfeita que é difícil acreditar que o filme tenha custado 11 milhões de reais. Parece muito mais. Lama, ouro, tiros e música brega tomam conta de cada cena. Personagens periféricos, como o bando das “Marias”, homossexuais do lugar, revelam detalhes sobre Serra Pelada desconhecidos do grande público. Como diz Heitor Dhalia: “É Brasil na veia. E Brasil popular, genuíno. Brasil profundo”.

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