Educação
Vestibular
O desafio da segurança
Uma fraude que veio à luz na semana passada resultou no adiamento do novo Enem, exame do Ministério da Educação que seria aplicado, nesse final de semana, a 4,1 milhões de estudantes. A prova, que deve ser remarcada para daqui a 45 dias, substituirá o tradicional vestibular - do qual é considerado um avanço – em mais de 500 universidades públicas e privadas do país. Não é a primeira vez no Brasil que um concurso desse tipo é alvo de uma fraude. A cada ano, algo como cinco vestibulares têm seus conteúdos violados, pelo menos em parte. Não se tem notícia, porém, de vazamento numa prova com as proporções do Enem.
Manter a segurança num concurso de tal magnitude é certamente mais difícil, ainda que ele siga, grosso modo, o mesmo padrão de vigilância dos outros. Além das dificuldades comuns a todos, nesse caso são milhões de provas que precisam chegar a 10 000 localidades em 1800 cidades, uma logística jamais vista num vestibular. Resume Carlos Alberto Serpa, da Fundação Cesgranrio, à frente de alguns dos maiores concursos no país: "Com uma rede de distribuição tão extensa, mais gente toma contato com a prova - e é preciso redobrar a segurança."
O caso está sendo investigado pela Polícia Federal, que, na semana passada, considerava mais fortemente as hipóteses de a fraude ter ocorrido na gráfica ou durante a distribuição das provas, e não nas dependências do MEC. Isso porque o exemplar que veio a público já estava impresso, e no ministério só havia uma versão digitalizada do exame. Tanto a impressão como a distribuição do Enem estavam a cargo de um consórcio de três empresas privadas, liderado pela Consultec, da Bahia.
Pouco conhecida no mercado, ela na realidade não teve concorrentes no processo de licitação, uma vez que a Cesgranrio, que chegou a ingressar na disputa, acabou desistindo. Avaliou que o tempo para colocar de pé a logística da prova seria curto demais. Foi o que também desanimou outras grandes do setor, como a Fundação Carlos Chagas. O atropelo, aliado à ausência de uma empresa com mais experiência em grandes concursos, são fatores que podem ter atrapalhado. Na última sexta-feira, o MEC estudava a possibilidade de passar a ser responsável pela impressão e a distribuição da nova prova - deixando para a Consultec apenas sua aplicação e correção.
Com o adiamento da prova, grandes universidades, como USP e Unicamp, que adotariam o Enem como parte de seus processos seletivos, já cogitam desistir da ideia, dependendo da nova data do exame. "Não podemos atrasar nosso processo por isso", justifica Renato Pedrosa, coordenador do vestibular da Unicamp. O episódio ainda afeta, diretamente, o cronograma dos estudantes. É possível que o Enem acabe sendo aplicado em data bem próxima da de provas como a da Fuvest e a da própria Unicamp - motivo de angústia para alunos como Flávia Ferreira, 19 anos: "Aumentou o meu estresse." O prejuízo para o governo também não é pequeno: jogar o Enem já pronto no lixo e fazer um novo custará algo como 35 milhões de reais.
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