Educação
Entrevista: Jamil Salmi
O Brasil precisa de universidades do seu tamanho
Coordenador de ensino superior do Banco Mundial, o marroquino desafia as instituições do país a aumentar o diálogo com a comunidade acadêmica internacional e com as empresas para fazer a educação e a nação avançarem
Não faltam números que comprovam a impressão generalizada de que o sistema de ensino no Brasil falhou. E continua falhando, a despeito de avanços. O país está na rabeira – 53ª posição entre 65 nações – do índice Pisa, uma respeitada medição da situação da educação básica pelo mundo. Quando o assunto é ensino superior, as universidades brasileiras não figuram nem entre as duzentas melhores do planeta. O marroquino Jamil Salmi, coordenador de ensino superior do Banco Mundial (Bird), conhece bem as razões do mau desempenho brasileiro: má formação dos professores, desigualdades entre ensino público e privado, relativa escassez de recursos. Mas ele não se prende a elas e desafia as universidades a avançar. "O Brasil precisa colocar suas instituições de ponta em um nível equivalente à posição que o país ocupa do ponto de vista econômico, demográfico e político", diz. Para isso, a universidade brasileira precisa ganhar eficiência e aumentar o diálogo com estudantes, professores e pesquisadores de outros países. E também com as empresas locais: "É pouco provável que o Brasil tivesse se tornado um líder do setor aeronáutico se o ITA não tivesse se engajado no apoio ao trabalho da Embraer." Confira a seguir a entrevista que Salmi concedeu ao site de VEJA.
Jamil Salmi, coordenador de Ensino Superior do Banco Mundial
As universidades brasileiras não figuram nem entre as 200 melhores do mundo em rankings divulgados recentemente, como o Times Higher Education. Na avaliação do senhor, isso se deve à metodologia usada por esses estudos ou as universidades do país estão de fato muito atrás das instituições dos países desenvolvidos? A metodologia usada pelos rankings internacionais privilegia a publicação de pesquisas e, neste quesito, a produção latino-america ainda é muito pequena quando comparada à de universidades norte-americanas, europeias e asiáticas. Apesar de o financiamento ser um obstáculo, as instituições brasileiras estão entre as mais ricas da América Latina. Portanto, o maior desafio é fazer bom uso dos recursos disponíveis, aumentar a eficiência interna e a administração e potencializar a habilidade de atrair os melhores talentos. Outro problema é que os rankings privilegiam publicações em inglês, o que influencia negativamente o desempenho dos países da América Latina, já que poucos acadêmicos desejam ou estão aptos a publicar em inglês. Uma pesquisa recente, conduzida por uma universidade japonesa sobre o grau de internacionalização das universidades de 17 países, incluindo México e Brasil, mostrou o grau de exposição internacional é menor na América Latina do que na Europa e na Ásia.
O corpo de pesquisadores, estudantes e professores das instituições britânicas e americanas é repleto de estrangeiros. Por que esse processo ainda é lento nas universidades brasileiras? Quando a Universidade de São Paulo (USP) foi fundada, no início da década de 1930, ela atraía um grande número de renomados pesquisadores europeus. Essa situação contrasta com o cenário atual, em que se atraem poucos pesquisadores e até a mobilidade dos professores entre as diversas universidades brasileiras é muito pequena. Dito isso, é justo acrescentar que a situação não é assim tão sombria. Conheci muitos professores brasileiros que desenvolvem projetos notáveis em sua área de atuação e que possuem ligação com pesquisas em todas as partes do mundo. A Unicamp é bastante conhecida na área de tecnologia e a USP, em biologia. O desafio é ampliar os esforços para receber a contribuição de pesquisadores e docentes de outras partes, não importa de onde. Isso, porém, vai exigir um domínio generalizado de línguas estrangeiras.
Que medidas o Brasil deveria tomar para se tornar atrativo a estudantes e professores estrangeiros? Sendo um líder no trabalho intelectual e no desenvolvimento científico, professores e estudantes de outros países se sentirão atraídos pelas universidades brasileiras. Outra alternativa é expandir o uso de línguas estrangeiras em estudos e pesquisas. O mais importante, porém, é: o Brasil precisa colocar suas instituições de ponta em um patamar equivalente à posição que o país ocupa do ponto de vista econômico, demográfico e político.
Intensificar o intercâmbio de professores e estudantes ajuda a conquistar reconhecimento e respeito? A cooperação internacional traz inúmeros benefícios para qualquer universidade do mundo. Ela cria oportunidades de aprendizagem mútua e de capacitação, além de abrir novas possibilidades de ensinar, pesquisar e trabalhar com o ambiente regional. Ajuda também a expandir a mobilidade de professores, o intercâmbio de estudantes e transforma o currículo universitário em um currículo globalizado.
O que caracteriza um centro de estudos de excelência? Em meu livro The Challenge of Establishing World-Class Universities, identifiquei três fatores que, juntos, caracterizam uma universidade de ponta: recursos abundantes, concentração de professores e estudantes de talento e estrutura governamental favorável, com liberdade acadêmica, líderes inspiradores, autonomia e cultura de excelência. Universidades assim oferecem conhecimento de alta qualidade e preparam seus alunos para serem reconhecidos no mercado de trabalho, produzem pesquisas de ponta e estão envolvidas na resolução de problemas sociais e econômicos em suas comunidades.
O que faz de Harvard e Cambridge as melhores universidades do mundo? Essas duas instituições têm uma longa tradição científica. Possuem recursos financeiros abundantes e são capazes de atrair os melhores docentes e estudantes. Além disso, Cambridge e MIT (Massachusetts Institute of Technology), por exemplo, são conhecidas por sua estreita relação com as empresas da região onde estão localizadas. Em muitos países em desenvolvimento, estabelecer parcerias com empresas é visto com desconfiança, como se isso fosse um desvirtuamento, fruto de ações que visam somente o lucro. É pouco provável que o Brasil tivesse se tornado um líder do setor aeronáutico se o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) não tivesse se engajado no apoio ao trabalho da Embraer.
A avaliação Pisa, divulgada recentemente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostrou mais uma vez que a educação básica brasileira está entre os piores do mundo. Esse é um obstáculo ao sucesso do ensino superior no país? Em qualquer país é necessário que todos os níveis da educação estejam balanceados, pois são inter-relacionados. Um ensino fundamental ruim acarreta um ensino médio ruim, que, por sua vez, coloca alunos com um nível insuficiente de conhecimento dentro das universidades. Além disso, se as instituições de formação de professores não são boas, prestam um desserviço à educação básica.
Os estudantes brasileiros acabam de enfrentar o vestibular, baseado na seleção de alunos a partir de uma única prova. Nos Estados Unidos e na Europa, o processo considera conhecimentos acadêmicos avaliados ao longo do ensino médio e também habilidades extracurriculares. O sistema de seleção brasileiro prejudica a eficiência do ensino superior? Cada país tem um contexto diferente e processos de seleção são difíceis de administrar, especialmente quando a parcela da população com acesso ao ensino superior cresce. Muitos países aplicam um exame nacional como parte do processo de admissão para evitar que os estudantes precisem fazer uma prova para cada universidade a que querem se candidatar – o que privilegiaria oriundos de famílias mais ricas. Essa é a razão para a criação de um exame unificado no Brasil. Contudo, o consenso entre os especialistas é que uma única prova não é a melhor maneira de medir o potencial de um estudante. Olhar para o histórico escolar do jovem durante os últimos anos de estudos e suas atividades extracurriculares, assim como sua motivação, é importante para prever seu potencial universitário. Uma das mais inovadoras escolas de engenharia dos Estados Unidos, a Franklin W. Olin College of Engineering, não se preocupa muito com exames de admissão e prefere analisar a capacidade de trabalhar em equipe dos candidatos, assim como sua capacidade de inovação.
O governo brasileiro vem adotando de forma crescente cotas para ingresso nas universidades, designadas, por exemplo, a estudantes oriundos da escola pública. Qual a opinião do senhor sobre essa política? Criar o sistema de cotas é um passo positivo, mas insuficiente e deveria ser apenas um passo transitório. A medida mais urgente é eliminar as disparidades no sistema de ensino. O Bolsa Família tem feito um trabalho excelente em assegurar que as crianças tenham o direito de frequentar a escola. Mas uma das características de nações como Finlândia e Coreia do Sul é que existe uma pequena variação entre a qualidade das escolas. Isso sem levar em conta se a escola é da área urbana ou rural, de regiões ricas ou pobres. Nesse quesito, o Brasil tem ainda muito o que conquistar. No ensino superior, seria importante expandir as oportunidades por meio de instituições profissionalizantes de qualidade, deixando claro que existem caminhos acadêmicos tanto nestes como nas universidades.







Comentários
Luis Antonio do Amaral
não se pode dar ênfase a base e esquecer os outros níveis, da mesma forma que não se pode excluí-la e continuar favorecendo esse sitema que privilegia a classe média e afasta a possibilidade de acesso, permanência e qualidade da classe desfavorecida! ademais, os salários pagos são diminutos e todos os níveis, desestimulando (..)
21.08.2011
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Gilson Volpato
A questão é simples e básica. Ou investimos em educação de qualidade, ou nada avançará de forma confiável. Nossas PGs devem formar cientistas e não técnicos especializados!
01.08.2011
Valdir Paschoal Fraga
Numeros e opiniões comprovam o atraso do sistema de ensino no Brasil, e até sabe-se onde está os problemas, então o que falta para resolve-los.
24.01.2011
Simone
Muito boa essa máteria, pena que não está na entrevista da revista essa semana e somente em uma pequena nota fazendo o leitor entrar no site. Realmente a entrevista dessa semana refletr o que o Sr. Jamil Salmi fala de educação no Brasil, pois é muito instrutivo saber da felicidade e opção gay de Ricky Martin, isso de fato co(..)
24.01.2011
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R.Serafim
As universidades brasileiras devem acompanhar as necessidades oriundas da globalização e desta forma capacitar os formandos para o mercado de trabalho nacional e estrangeiro.
24.01.2011
Antonia maria
Se o dinheiro que é indicado p/ setor da educação realmente fosse aplicado nele, certamente não estariamos com ttos problemas na educação brasileira ( não so escolar, como a de berço tbem)
23.01.2011
Valdemar
Essa pesquisa reflete a retrograda mentalidade que impera nos meios academicos brasileiros. Certa feita um ex presidente do Brasil, afirmou que não precisavamos pesquisar e desenvolver novas tecnologias, e sim comprar o que tem fora do pais. Esse ex presidente, é um acâdemico.
23.01.2011
Sandro França.
Eu concordo plenamente com o senhor Jamil Salmi.Eu estudei na universidade estácio de sá no curso de psicologia durante cinco anos,fiz um concurso em 2010 para Força área Brasileira 2010 e fui feliz com o aprendizado,porém com a matéria de conhecimentos básicos eu não consegui ser feliz,logo percebo que fui vítima da exclusã(..)
23.01.2011
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lucas lopes
O principal motivo disso é o péssimo ensino básico do setor público,já que represeta a maioria das escolas do pais,portanto se o estudante de da classe baixa tivesse um ensino de qualidade estaria apto a entrar em uma boa faculdade,consequentemente aumentaria o nivel das universidades brasileiras.
23.01.2011
Tharley Mota
Edição da Veja...conheça a Universidade Federal de Itajubá (sul de Minas)... a terceira universidade de engenharia mais antiga do País, fundada pela fortuna de café herdade por um advogado, filho de barão de café, que previu no início do século passado que mais do que advogados o país precisava era de engenheiros!! .. A Fede(..)
23.01.2011
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Carlos Magno
Pois é! Estamos vivendo a tal era da "internacionalização do ensino". Isso significa que um ótimo trabalho publicado em língua portuguesa vale menos que um trabalho mediano publicado em língua inglesa. Isso está me parecendo colonialismo cultural.
23.01.2011
Publish or Perish
Entrevista decepcionante. Repleta de chavões e de informações sobejamente conhecidas. Tem-se a impressão que o entrevistado não quer falar muito. O problema da Educação no Brasil é um só: INCOMPETÊNCIA GOVERNAMENTAL. Talvez isso explique a maneira cautelosa com que o entrevistado se manifesta.
23.01.2011
caarem
O Sr. jamil Saldi aponta o obvio mas que todos os professores e "otoridades" de ensino no Brasil se recusam a admitir: nossas Universidades Federais sao grandes bancos de empreguismos de pesquisadores ineptos e profissionais frustrados. Nosso sistema de ensino do inicio ao fim é um "faz-de-conta". e Agora com o INEPto não ne(..)
23.01.2011
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Gustavo
Triste constatação; precisa vir um especialista estrangeiro para dizer isto? Vale citar também que pode ser culpa da lei 9.394, bastante permissivas no sentido de dar poder de autonormação aos donos de unipversidades e assim poderem fazer o que bem entendem, cometer toda sorte de abusos contra seus alunos, visando apenas seu(..)
22.01.2011
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Regina
Enquanto não for dada a devida seriedade à formação de professores, refiro-me às licenciaturas e pedagogia - vamos continuar vendo nossas universidade em declínio. como esperar que nossa produção científica melhore em quantidade e sobretudo em qualidade, se os jovens que seriam nossos cientistas(de todas as áreas) chegam ao (..)
22.01.2011
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Laura Gimenez
Considero o sistema de cota uma injustiça para mtos candidatos ao vestibular com capacidade que tiram notas acima da média em todas as matérias e perdem a vaga para os menos preparados por causa das tais cotas.Ao meu ver o ensino público tem que ser melhorado em sua base fundamental para aí sim formar bons profissionais.
22.01.2011
Rodolfo Papaleo
Matéria de Primeira, precisamos despertar nossos jovens a fazer pesquisas cientifícas, no Brasil tudo é burocrático mas depende de cada Jovem Universitário mostrar em dedicação que é capaz de fazer a diferença na sua área de atuação. Vamos nessa meus amigos podemos sim mudar esse quadro, porém devemos agir e agir agora, estu(..)
22.01.2011
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