Tarja para o tema crise do euro
 
01/02/2012 - 09:14
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Europa

Solução para desemprego juvenil na UE não vem tão cedo

Diante da gravidade da crise e da necessidade de melhorar as contas públicas, os líderes europeus devem “empurrar o problema com a barriga”

Beatriz Ferrari e Benedito Sverberi
Milhares de pessoas ocupam a praça Porta do Sol, em Madri, para protestar contra as altas taxas de desemprego

Milhares de pessoas ocupam a praça Porta do Sol, em Madri, para protestar contra as altas taxas de desemprego (Pedro Armestre / AFP)

A zona do euro deve passar por uma recessão neste ano, com queda de 0,5% do PIB, segundo previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Retomar o crescimento é urgente

Quando a francesa Marie-Dominique Lacour, hoje com 25 anos, saiu da faculdade de administração, em 2008, a crise financeira que se seguiu à quebra do banco Lehman Brothers, nos Estados Unidos, acertava a Europa em cheio. Marie passou então a fazer parte de um grupo cada vez mais numeroso: o dos desempregados. Nesta terça-feira, a agência de estatísticas Eurostat divulgou a informação de que a somente a zona do euro – que abrange os 17 países que adotam o euro como moeda comum – contabilizou em dezembro um total de 16,47 milhões de pessoas sem emprego. Trata-se do maior valor em 14 anos.

O problema afeta, sobretudo, os jovens como Marie. Ela, no entanto, não protesta contra as duras medidas que têm sido impostas pelos governos locais para reduzir o altíssimo endividamento público europeu – a principal razão por trás da atual crise. “Nós, franceses, temos direitos sociais demais, mesmo sem poder pagar por isso. Chegou o momento de trabalhar e parar de reclamar”, defende.

Tema em Foco: Entenda melhor o problema de dívida na UE e a crise do euro

Marie é um ponto fora da curva. No ano passado, enquanto os líderes da União Europeia ainda discutiam as saídas da crise, a juventude tomou as ruas das cidades em protesto. Os atos foram especialmente violentos naqueles países em situação econômica mais delicada, como e Grécia e Espanha – também as nações onde o índice de desemprego atinge quase metade dos jovens e a ideia de geração perdida é cada vez mais real.

Focados neste drama, que atinge 5,58 milhões de pessoas abaixo dos 25 anos, os líderes da UE reuniram-se em Bruxelas nesta segunda-feira para discutir como conter a deterioração fiscal, mas com um olhar no desemprego crônico entre os mais jovens. A boa intenção era evidente, mas o progresso foi pífio. Os líderes apenas anunciaram a intenção de criar planos nacionais para criação de postos de trabalho.

“É mais provável que os países empurrem o problema com a barriga. Foi o que aconteceu na América Latina na década de 80. Não é fácil ver como esses líderes conseguirão contornar o dilema de ter de acalmar os mercados hoje, com medidas complexas de redução do déficit fiscal, e ao mesmo se dedicar a políticas de desenvolvimento que ataquem o desemprego”, diz Francisco de Hollanda Guimarães Ferreira, economista-chefe do departamento de pesquisa para o desenvolvimento do Banco Mundial.

Tarefa inglória – O contexto macroeconômico não ajuda. A zona do euro deve passar por uma recessão neste ano, com queda de 0,5% do PIB, segundo previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Retomar o crescimento é urgente, inclusive para ajudar na tarefa de aperfeiçoar as contas públicas, mas medidas de austeridade adotadas pelos governos só fazem contrair ainda mais a atividade.

Além disso, o histórico de rigidez e custos trabalhistas excessivos, pautado por uma cultura de bem-estar social, engessa as contratações. O mercado de trabalho sofre assim um círculo vicioso: em que o desemprego aprofunda a recessão, que gera mais desemprego.

Essas duas questões – crise econômica e rigidez das leis trabalhistas – são determinantes para compreender a dificuldade dos países europeus em reduzir a desocupação entre os jovens. Mas não esgotam o assunto. Algumas evidências tornam sua análise mais complexa. Uma delas é o fato de este tipo de desemprego ter se perpetuado historicamente em patamar elevado em países como Portugal, Espanha, Grécia e Itália.

Mais recentemente, mesmo com a desaceleração econômica atingindo toda a UE, a taxa da Alemanha recuou em janeiro para a mínima histórica de 6,7%. Por fim, se o problema fossem somente os excessivos benefícios sociais, os Estados Unidos, que são bem mais flexíveis com as leis trabalhistas, não estariam enfrentando problema semelhante.

Saídas – Dada a complexidade do assunto e as especificidades de cada país, os especialistas ouvidos pelo site de VEJA são cautelosos ao indicar saídas aos jovens europeus desempregados. Uma das soluções, defendem eles, passa por uma reforma do processo de transição da escola ao mercado de trabalho. O próprio documento final da reunião de cúpula em Bruxelas faz menção a essa proposta de “promover uma primeira experiência profissional para os jovens”. O documento levanta a possibilidade de empregar recursos disponíveis no Fundo Social do Emprego, estimados em 22 milhões de euros, para inclusão de jovens no mercado.

O ideal, de acordo com o professor da Universidade de Brasília (UnB), Carlos Alberto Ramos, especialista em mercado de trabalho, é que os países com taxas de desemprego juvenil historicamente altas, como Espanha, Portugal e Itália, imitem a experiência alemã e austríaca de comunicação entre o sistema escolar e o mercado de trabalho. “Há escolas na Alemanha em que o estudante passa uma parte de seu tempo já no chão de fábrica, conhecendo o empregador e se acostumando à dinâmica do trabalho. Mas em alguns países há uma rejeição a esse modelo por questões culturais”, explica.

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