Economia
Conjuntura
Quando as incertezas não assustam mais
Entenda a curiosa estabilidade da economia mundial diante de um cenário de desastres e turbulências
O primeiro trimestre de 2011 deverá entrar para a história como um dos períodos mais tumultuosos dos últimos tempos para a economia mundial. Cinco países localizados em áreas conflituosas iniciaram ou terminaram revoltas contra seus governos: Tunísia, Egito, Líbia, Costa do Marfim e Barein. Além de darem origem a mudanças sócio-políticas relevantes em suas regiões, alguns influenciam diretamente a oferta de petróleo no mundo. Não bastasse isso, a terceira maior economia do globo, o Japão, sofreu o pior terremoto de sua história, seguido de um tsunami devastador. Na seqüência, o país se envolveu numa crise nuclear de alcance ainda desconhecido que ameaça a Ásia e coloca em xeque uma importante fonte de energia do mundo. Somam-se a estas incertezas o fato de o mundo estar se recuperando de uma grande crise, em batalha acirrada contra a inflação global e, como na Europa, em luta para conseguir preservar sua moeda (veja infográfico).
Em outras épocas, tanta turbulência associada geraria um temor generalizado entre os investidores – principalmente quando um dos pontos sensíveis é a oferta de petróleo. Mas algo mudou na ordem mundial. Mesmo com tantos fatos imprevisíveis, as bolsas seguem relativamente estáveis, os fluxos de capital não apresentam trajetória desesperadora e a liquidez das maiores economias se mantém, inclusive nos Estados Unidos. “A enxurrada de liquidez global ajudou a acalmar os mercados, apesar de os investidores ainda estarem avessos ao risco”, diz o economista Robert Wood, da consultoria Economist Intelligence Unit (EIU). Tamanho fluxo fez com que os principais índices mundiais, como o Dow Jones e o S&P 500 oscilassem, respectivamente, 5,82% e 4,85% em 2011.
A principal explicação para a relativa calmaria, segundo Wood, é que nenhum dos conflitos – políticos ou econômicos – tem origem nos Estados Unidos e, justamente, a lenta (e constante) recuperação americana tem ajudado a estabilizar os mercados, avalia o economista. Além disso, a continuidade do crescimento dos emergentes contribui para a manutenção deste quadro de aparente equilíbrio. “Isso não significa que a economia mundial vai bem. Contudo, em vez de cair abruptamente, estamos andando para o lado, o que, em um cenário como o atual, não é ruim”, afirma o economista Ricardo Denadai, do Santander Asset Management.
Riscos – Apesar do bom comportamento do mercado financeiro, que parece ter aprendido a controlar seus ímpetos após a derrocada de 2008, alguns riscos persistem e não são poucos. Uma questão que “pode virar o jogo” seria uma deterioração do mercado imobiliário nos Estados Unidos. Ao passo que os pedidos de hipoteca têm aumentado (15% apenas em fevereiro), também subiram as solicitações de renegociação de financiamentos hipotecários (o mês fechou com alta de 17%). No entanto, tendo em vista o reaquecimento do mercado de trabalho americano, analistas têm boas perspectivas para o pagamento das hipotecas. “Se levarmos em consideração apenas os indicadores econômicos, o mais provável é que a economia mundial continue em recuperação lenta, mas constante”, afirma Denadai, do Santander.
No caso do petróleo, cujos preços já subiram 20% em 2011, a revolta na Líbia influencia a volatilidade da commodity, mas não chega a afetar seriamente os contratos de longo prazo. A explicação é que o país norte-africano responde por apenas 2% da produção global. No entanto, o mundo pode estremecer, inclusive o Brasil, se a Arábia Saudita for afetada. Responsável por mais de 10% do abastecimento de petróleo dos EUA e por 12% da produção mundial, os sauditas foram autorizados a intervir nos conflitos de seu vizinho, o Barein – justamente para que não tivessem de enfrentar problemas semelhantes em seu território. Este assunto é tão sensível que está sendo estudado pelo próprio Ministério da Fazenda do Brasil. Segundo fontes ouvidas pelo site de VEJA, o governo tenta antecipar ao máximo todos os cenários possíveis para o petróleo – e rugas surgem na testa do ministro Guido Mantega quando a Arábia Saudita é tema.
Problemas internos – Para o Brasil, mais relevantes que a crise do petróleo ou qualquer revolta árabe são as questões internas que mais preocupam. Entre elas estão as dúvidas quanto a capacidade de a equipe econômica conseguir controlar a inflação, cortar gastos e manter uma taxa de crescimento minimamente estável. Até o mundo árabe entrar em colapso, esses eram justamente os obstáculos que preocupavam os investidores nacionais. Também foram essas algumas das razões que fizeram com que o país sofresse uma retirada neste ano de 3,25 bilhões de dólares de ações. “Haverá um momento em que o mercado irá se desapegar do desastre japonês ou da Líbia e vai voltar a olhar para questões como a inflação. O problema não está resolvido”, afirma Ricardo Denadai.


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