08/04/2010 - 12:00
  • compartilharCOMPARTILHAR
  • imprimirIMPRIMIR
 

Inflação

Inflação oficial, medida pelo IPCA, desacelera em março

Benedito Sverberi

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é o indicador oficial de inflação do governo, desacelerou em março. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a alta naquele mês foi de 0,52%, um pouco menor que a de fevereiro (0,78%) e janeiro (0,75%).

Apesar de ter diminuído o ritmo, o resultado ficou acima das projeções de mercado (0,49%) e levaram o índice acumulado no trimestre a 2,06% - o maior nível para o período desde 2003, quando o indicador chegou a 5,13%. "Isso só reforça a percepção de que o governo não conseguirá cumprir a meta de inflação para este ano", afirma o analista Fábio Romão, da LCA Consultores. Em 12 meses, o IPCA acumula alta de 5,17% - acima do centro da meta de inflação, de 4,5%, com margem de tolerância de dois pontos porcentuais para mais ou para menos. 

O comportamento da inflação

A alta dos preços ganhou força no primeiro trimestre

 

 

Bancos e consultorias estimam uma alta mais expressiva dos preços para o fechamento do ano. Meta de inflação corre risco de não ser cumprida.

Fontes: IBGE e Banco Central

 

A desaceleração no IPCA em março deve-se, em grande parte, ao fato de as elevações dos bens e serviços do chamado 'grupo Educação' (material escolar, matrícula, etc) não contaminarem mais os preços. Este segmento mostrou um aumento de apenas 0,54% no mês anterior, enquanto, em fevereiro, foi de 4,53%.

Também favoreceu o resultado de março a queda dos preços dos combustíveis, de 2,51%, puxada principalmente pelo álcool, que ficou 8,87% mais barato - o que também influenciou a gasolina, cujo preço caiu 1,95%.

Expectativa de inflação - Bancos e consultorias ouvidos nas pesquisas do Banco Central (o chamado Boletim Focus) seguem elevando as estimativas para a inflação desde o início de março - são onze elevações seguidas da projeção para 2010. Na última divulgação, de 1º de abril, a estimativa do mercado era de um aumento do IPCA de 5,18%. O próprio Banco Central trabalha com uma alta semelhante, de 5,2%, segundo seu Relatório de Inflação.

A inflação mais elevada no primeiro trimestre do ano deve-se a quedas na produção de alguns setores, aliada a uma demanda interna aquecida. "Houve o que os economistas chamam de choque de oferta. Chuvas em excesso, por exemplo, prejudicaram as lavouras de hortaliças e diminuíram a produtividade da cana-de-açúcar. Nos próximos meses, este quadro já começa a mudar", acrescenta Romão.

O professor da Fundação Getulio Vargas, Evaldo Alves, completa que houve antecipação de consumo diante dos anúncios de que o governo acabaria com as isenções fiscais de alguns produtos, como eletrodomésticos. Por fim, o déficit fiscal brasileiro vem piorando e chegou a 2,02% do Produto Interno Bruto (PIB) em fevereiro. Em outras palavras, o governo federal tem gastado muito, o que alimenta o consumo, que é um dos principais combustíveis da inflação.

Sem pânico - Os economistas são unânimes dizer, no entanto, que não há motivos para pânico. O Brasil não vive o risco de entrar novamente numa espiral inflacionária. "Do ponto de vista histórico, observamos hoje uma pressão muito pequena. Nada comparado com o que se via na década de 80 quando o Brasil jogava no campeonato mundial da hiperinflação", sentencia Alves.

 

A alta mais forte dos preços neste ano não significa retorno à inflação galopante anterior ao Plano Real

 
Fontes: IBGE

 

O elemento que confirmará este quadro de tranqüilidade será a subida da taxa básica de juros, a Selic, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do BC no fim deste mês. Os economistas a consideram inevitável. No final do ano, projetam que estará em 11,25% ao ano (contra os atuais 8,75% ao ano).

Dois mundos muito diferentes

A economia brasileira pode ser dividida em dois momentos muito distintos: antes e depois do Plano Real, de fevereiro de 1994. Entenda como mudou a política econômica e, principalmente, como a vida do brasileiro ficou mais fácil.

 

Antes (1980-1994)

a. Não havia metas para a inflação.
 

b. Somente a expectativa de que os preços iam subir cada vez mais alimentava a inflação.
 

c. As políticas do Banco Central eram pouco transparentes.
 

d. A gastança de municípios, estados e do próprio governo federal era descontrolada. Todo esse consumo estatal estimulava a escalada dos preços.


E a vida dos brasileiros era muito complicada:

a. A inflação funcionava como um imposto que corroia o poder de compra dos brasileiros - principalmente dos mais pobres.
 

b. Para preservar seu valor, o dinheiro não podia ficar parado. As pessoas tinham de ir várias vezes aos bancos para aplicar seus recursos. Outra saída era comprar dólares.
 

c. Realizar estoques de produtos em casa era uma estratégia para tentar se defender da inflação.
 

d. Famílias e empresas tinham dificuldade para ter noção dos preços de bens e serviços, pois estes mudavam a todo momento.
 

e. Moedas tinham de ser trocadas com freqüência, com corte de zeros. De 1970 até o Plano Real, isso ocorreu seis vezes.
 

 

Depois (1994-2010)

a. O sistema de metas, que obriga o Banco Central a perseguir um nível preestabelecido e aceitável para a inflação, foi implantado em 1999. Caso falhe, o BC tem de prestar contas de seus atos ao governo.
 

b. O Banco Central monitora mensalmente as expectativas de inflação de bancos e consultorias. Assim, pode adotar medidas para não deixar que contaminem os preços.
 

c. A cada 45 dias, um grupo de diretores do Banco Central realiza encontros para definir a taxa básica de juros (o principal instrumento de combate à elevação dos preços). São divulgadas todas as atas dessas reuniões - além do relatório de inflação, que contém as projeções do BC para a economia brasileira.
 

d. Foi sancionada em 2000 a Lei de Responsabilidade Fiscal, que estabeleceu limites aos gastos de estados e municípios.


 

A estabilidade tornou mais fácil viver no Brasil

a. A estabilidade econômica preserva o poder de compra dos brasileiros.
 

b. Não há problema em deixar o dinheiro parado na conta corrente. A lógica de se investir é a de obter ganhos financeiros adicionais.
 

c. As famílias não precisam estocar produtos em casa.
 

d. Os agentes econômicos têm noção exata dos custos nas economias e conseguem se programar melhor.
 

e. Moeda não tem de ser trocada. O real completou 16 anos em fevereiro.

 

 

  Tags

Comentários


comentar

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais(e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para aprovação de comentários no site de VEJA
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados