Economia
Contas externas
Déficit nas transações com o exterior em 2010 não preocupa; 2011 é incerteza
Não há motivos para se preocupar com o balanço de pagamentos brasileiro em 2010. Na visão de quatro instituições financeiras ouvidas por VEJA.com, as contas externas do Brasil devem fechar o ano no "azul", com superávit de 5 bilhões a 20 bilhões de dólares.
O resultado deve ser conquistado apesar dos seguidos déficits nas transações correntes, uma das contas que compõem o balanço de pagamentos e que é formada pelo saldo da balança comercial, de serviços, remessas de lucros e dividendos, e transferências unilaterais. O Banco Central prevê um saldo negativo de 49 bilhões de dólares para esta conta neste ano.
Para justificar a expectativa de um saldo positivo no balanço de pagamentos, os analistas acreditam que o rombo nas transações correntes será financiado com folga pela chamada conta capital e financeira, que reflete os fluxos de investimento entre o Brasil e o mundo. Os principais responsáveis pelo cumprimento desta tarefa serão os investimentos diretos estrangeiros (em capacidade produtiva) e em carteira (ações, fundos de investimento, títulos públicos, etc).
O mês de maio já sinalizou que esta expectativa deve se comprovar verdadeira no final do ano. O fluxo de investimentos estrangeiros diretos em maio foi o melhor para o mês desde o início da série histórica, iniciada em 1947. Houve ingresso de 3,534 bilhões de dólares, superando as previsões de analistas - que iam de 1,4 bilhão a 2 bilhões de dólares. Em junho, até o dia 22, o ingresso de IED é de 900 milhões de dólares.
"A piora das contas externas está dentro de limites bastante aceitáveis e com financiamento de qualidade", afirma o economista do Santander Maurício Molan.
2011 - A pergunta que os analistas se fazem hoje, já afastados os temores com 2010, é se o déficit em conta corrente vai ser financiável no futuro.
O superávit da balança comercial brasileira vinha registrando valores cada vez menores por conta de um crescimento das importações em ritmo bem superior ao das exportações, em face de um consumo interno bastante aquecido. Outro motivo de preocupação era a queda dos investimentos estrangeiros diretos e em carteira no país. Ambas as contas melhoraram em maio na comparação com abril, mas ainda é incerta sua trajetória futura.
Soma-se a esses fatores o aumento das remessas de lucros e dividendos ao exterior, resultado da combinação dos faturamentos expressivos das multinacionais instaladas no Brasil com o crescimento pífio de seus países-sede. Para Marco Maciel, economista-chefe do Banco Pine, essa tendência vai se prolongar e o conforto experimentado em 2010 não se repetirá no ano que vem. "A crise na Europa não se resolve rapidamente. Vamos ter mais remessas de lucros ao exterior e a balança comercial vai sofrer um pouco mais", alerta.
Julio Callegari, economista do JP Morgan, concorda que a situação do balanço de pagamentos do país no próximo ano dependerá muito da evolução do ambiente externo. "Em 2011, o financiamento das contas externas começa a ser mais preocupante porque pode ser prejudicado por um mercado de capitais mais avesso a risco em função de qualquer crise ou de uma elevação de juros nas economias centrais", avalia. Ou seja, o financiamento com recursos estrangeiros será mais difícil.
Câmbio - Na eventualidade de uma piora do cenário internacional, o câmbio flutuante é uma vantagem, afirma Molan, porque permite um ajuste automático nas contas externas. "Quando o câmbio deprecia, o ônus fica com o investidor estrangeiro", explica. No passado, o déficit em conta corrente era financiado basicamente por empréstimos, fazendo o saldo devedor do país aumentar em situações de depreciação cambial.
Caso as turbulências no exterior sejam efetivamente superadas em 2011, o departamento econômico do Bradesco acredita que o Brasil é um forte candidato a receber volumes crescentes de recursos estrangeiros, sobretudo investimentos produtivos - o que conferiria maior tranqüilidade ao financiamento do crescimento do país.
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