Economia
Entrevista
Aliança entre Brasil e China não é natural, mas governos devem buscá-la
Michael Pettis, da Universidade de Pequim, acredita que, mesmo com interesses e modelos político-econômicos distintos, Brasil e China podem ser aliados
Michael Pettis: desaceleração chinesa é má notícia para exportadores de commodities
A crise financeira internacional, que tem hoje como epicentro a União Europeia, já deixa rastros na pujante economia chinesa. No quarto trimestre do ano passado, o PIB da China cresceu 8,9%, o que implicou uma queda de 0,2 ponto porcentual ante o valor apurado no trimestre anterior. O dado representou o ritmo mais fraco em dois anos e meio. E a crise das dívidas soberanas da zona do euro e o agravamento do quadro de recessão nos países desenvolvidos devem pesar ainda mais para o país, alerta o professor de mercados financeiros da Universidade de Pequim, Michael Pettis.
Neste cenário, Pettis coloca o Brasil como um parceiro da China na tarefa de encontrar alternativas aos países desenvolvidos no contexto global. Para aprofundar esse pacto, contudo, será preciso discutir questões fundamentais que colocam as nações em extremos opostos: o sistema político, o modelo econômico e as reivindicações por exportações cada vez mais vantajosas de ambas as partes. Não se trata de uma aliança natural, mas Brasília e Pequim deveriam procurá-la. De Pequim, o professor americano falou ao site de VEJA.
O que esperar da economia chinesa neste ano e no próximo?
Não vejo muito espaço para guinadas em 2012 porque este é um ano de transição de liderança em Pequim – e ninguém quer ver uma queda acentuada no crescimento. Se um processo de ajuste for iniciado, é provável que a expansão fique perto de 7%. Se não acontecer, provavelmente ficará em torno de 8%. No entanto, uma desaceleração mais forte do crescimento real deve ocorrer em algum momento de 2013 e 2014.
Como a desaceleração do crescimento afeta a sociedade chinesa?
Em primeiro lugar, devemos ver um aumento das pressões do desemprego. Um ajuste bem feito por Pequim daria conta de progressivamente mudar o atual modelo de crescimento. O ideal seria fazer a transição do sistema capital intensivo – inadequado, portanto, a um país com muitos pobres ainda – para um crescimento que fosse mais trabalho-intensivo – capaz de absorver mais mão de obra. Quanto mais tempo demorar essa transformação, mais difícil será o ajuste até porque eles já esperaram muito tempo.
Mesmo com as pressões internacionais, há preocupação constante em Pequim em não permitir valorização significativa de sua moeda, o yuan. Quanto tempo o mundo vai aguentar os desequilíbrios nos mercados de câmbio?
Esta é realmente uma questão política e depende de como os países reagirão. Em minha opinião, o mundo está cada vez menos dispostos a aceitar déficits comerciais prolongados – e, por isso, deve haver crescente pressão sobre países com superávit comercial elevado. A principal razão porque a China precisa para deixar sua divisa apreciar é a necessidade de abrir espaço para um reequilíbrio interno. Contudo, é claro que os setores de exportação, que são muito fortes no país, opõem-se completamente.
Com a União Europeia (responsável por cerca de 20% das exportações chinesas) em crise, a China vê recuar seus mercados compradores. No atual contexto, é possível compensar embarques perdidos com vendas para outros mercados?
Quase certamente não. Apenas os Estados Unidos são grandes o suficiente para substituir as compras dos europeus, mas também eles estão muito relutantes em continuar a fornecer demanda líquida ao resto do mundo quando seu próprio nível de desemprego é muito alto.
O senhor mencionou a questão da transição política. Como a escolha de novas lideranças chinesas pode afetar a economia?
Ele será determinante na definição do ritmo das reformas e do ajuste na economia. É muito cedo, no entanto, para dizer o que vai acontecer e com que rapidez.
A China é o principal parceiro comercial do Brasil. Como você vê esta dependência da nossa economia?
Eu acho que os países exportadores de commodities, como o Brasil, que dependem de níveis elevados de investimento chinês para manter aquecida a demanda por seus produtos, vão enfrentar anos de dificuldade. Até porque a China terá de dar maior ênfase ao consumo do que ao investimento como fonte de crescimento. Havendo essa mudança de modelo de expansão econômica, a demanda por produtos básicos do país tende a desacelerar, afetando o Brasil e outros fornecedores.
No ano passado, a presidente Dilma Rousseff visitou a China e tentou convencer as autoridades locais sobre a necessidade de diversificação da pauta de exportação brasileira para o mercado chinês. Você acredita que as negociações podem caminhar? Como chegar a um acordo?
Estamos em um ambiente em que todo mundo quer exportar mais e importar menos. Isto é tão verdadeiro para a China quanto é para o Brasil. Em minha opinião, precisamos ser muito céticos sobre as reivindicações feitas por quase todas as nações do mundo de que vão aumentar significativamente as exportações sem tanto acréscimo nas importações. A conta simplesmente não fecha.
Brasil e China tentam "vender" uma imagem de atores globais. Mas há interesses são contraditórios. O Brasil, por exemplo, gostaria de vender produtos agrícolas em todo o planeta, sem barreiras. No entanto, é relutante quando se trata de abrir o próprio mercado aos bens industriais. Brasil e China conseguirão ser aliados reais um dia?
Eles podem ser aliados no sentido de que devem buscar reduzir a influência dos países ricos sobre as instituições e os acordos internacionais. Por outro lado, concordo que seus interesses, seus sistemas políticos e suas economias são radicalmente diferentes. Por isso, é difícil ver muitas possibilidades de acordo. Ainda que alianças não venham naturalmente, Brasília e Pequim deveriam buscá-las.




O Instituto Millenium é uma organização sem fins lucrativos, sem vinculação político-partidária, reconhecida como OSCIP, que promove a democracia, a economia de mercado, o estado de direito e a liberdade.




Comentários