Hotelaria

Apagão de hotéis já é realidade e tende a piorar

Grandes redes hoteleiras enfrentam dificuldade para acompanhar o explosivo crescimento da demanda por hospedagem; especialistas não vem solução no curto e médio prazo

Beatriz Ferrari e Derick Almeida
Recepção do hotel Fasano no Rio de Janeiro

Estadia tranqüila em hotel é realidade cada vez mais distante e cara para o brasileiro (Fernando Lemos)

Para o turista brasileiro em viagem no próprio país, fazer uma pesquisa extensa de hotéis tornou-se obrigatório nos últimos anos. O Rio de Janeiro, por exemplo, já é a décima cidade mais cara para se hospedar no mundo – mas as razões para a pesquisa vão além da necessidade de fugir de tarifas exorbitantes. Se não planeja com antecedência, quem viaja a lazer ou negócios pode simplesmente ficar sem acomodação. É que algumas cidades do Brasil, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, já vivem um ‘apagão de hotéis’ – e o problema fica mais evidente justamente quando recebem grandes eventos corporativos, culturais ou esportivos. O prognóstico para o país – que nos próximos anos receberá uma Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos – tampouco oferece alento. O quadro tende a piorar, já que a demanda cresce em ritmo mais acentuado que a capacidade da rede hoteleira de ofertar novos quartos (veja quadro). Assim, as vagas nos hotéis nas duas maiores capitais se esgotarão mais rapidamente e com maior freqüência; e o ‘apagão de hotéis’ chegará a outros municípios hoje menos afetados.

Os problemas do setor derivam do clássico descompasso entre oferta insuficiente e demanda explosiva. Duas décadas atrás, vagas nos hotéis nas cidades de grande e médio porte não eram algo difícil de encontrar, mas a economia também era outra. Desde a estabilização, o Produto Interno Bruto (PIB) nacional avançou 64%, os negócios se multiplicaram e as viagens a trabalho também. A expansão da economia foi acompanhada por sensível melhoria na distribuição de renda – nada menos que 30 milhões de brasileiros saíram da pobreza e ascenderam à classe média somente entre 2003 e 2009, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Este grupo tem hoje quase 100 milhões de pessoas e responde por mais da metade da população total. As estimativas levam a crer que mais 50 milhões de pessoas poderão ascender à classe C nos próximos dez anos. Com uma ajuda do crédito farto, as famílias começaram a viajar pelo país, muitas pela primeira vez.

O setor hoteleiro, por sua vez, não conseguiu acompanhar a rapidez do aumento do número de turistas e executivos em busca de hospedagem. Estimativas da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) apontam que a taxa de ocupação média em São Paulo está em 70% e no Rio de Janeiro beira os 85%. A recomendação, acrescenta a associação, é que o setor opere com média de até 80%, pois acima disso o mercado passa à condição de saturado – em outras palavras, nestas condições, a rede hoteleira dessas cidades facilmente atinge os 100% de capacidade nas ocasiões em que abriga grandes eventos. “O problema já deixou de ser algo ligado a datas comemorativas ou sazonalidade. O que temos hoje é um setor extremamente aquecido”, afirma José Carlos Pinto, sócio da consultoria Ernst & Young Terco.

Os especialistas ouvidos pelo site de VEJA afirmam que, por mais que seja do interesse dos empresários do setor, não será tarefa fácil ofertar quartos e flats em quantidade suficiente para atender a demanda. Em seu esforço para levantar novos empreendimentos, as redes hoteleiras deparam-se com uma série de dificuldades: escassez de terrenos em bairros com infraestrutura minimamente adequada; preços exorbitantes no setor imobiliário; uma burocracia monumental para obter dezenas de autorizações, licenças ambientais e alvarás de funcionamento; e dificuldade para atrair investidores (veja quadro).

A Ernst & Young Terço, no estudo “A World of Possibilities: Brazil Hotel Investment Opportunities”, estima que serão realizados investimentos de 3,16 bilhões de reais no segmento até 2014. A cifra impressiona, o que não significa que será suficiente. A consultoria estima que, na Copa do Mundo, faltarão cerca de 62 400 quartos de hotel no Brasil.

Obs: Clique nos números, ou nas setas, para obter mais detalhes sobre os problemas que atrapalham a expansão hoteleira no país.

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