Economia
Entrevista
Gestão de Gabrielli tem sido excessivamente política
Para o especialista Adriano Pires, atual presidente recebeu de seu antecessor, em 2005, uma empresa que estava decolando. Em fevereiro, entregará uma Petrobras com desafios a resolver
Sergio Gabrielli: gestão com forte ingerência política (Agência Brasil)
A chegada de Maria das Graças Foster no comando da Petrobras no lugar de José Sergio Gabrielli representará também uma transição entre presidentes com perfis muito diferentes. Para o diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE) e especialista em energia, Adriano Pires, sai de cena um executivo que prejudicou minoritários, fez com que a compahia não conseguisse cumprir suas próprias metas de produção e, principalmente, aprofundou, e muito, a ingerência política na companhia. Entra uma presidente oriunda dos quadros técnicos da empresa – e não alguém com ligações partidárias, o que não ocorria há 20 anos – e que chegou onde chegou por mérito. O saldo, portanto, é positivo.
Como o mercado recebeu a notícia da Graça Foster como a próxima presidente da Petrobras?
Na verdade, não chega a ser uma surpresa para os analistas. O nome dela era cogitado há muito tempo como a próxima presidente. Então, o anúncio apenas confirma as sinalizações anteriores. Como a presidente Dilma Rousseff realizará em breve mudanças em ministérios, faz sentido essa troca na presidência da empresa também. Além disso, é uma tradição o Presidente da República anunciar o presidente da Petrobras. A escolha da Maria das Graças foi boa dentro do contexto que temos. Ela é uma funcionária de carreira que está há mais de 30 anos na companhia e, portanto, conhece a Petrobras como poucos. É uma clara indicação de mérito. Outro ponto importante é que ela pode mudar a forte ingerência política que hoje é muito presente na gestão do José Sergio Gabrielli. Dessa forma, a companhia tende a ser mais técnica. O fato de a diretora ser uma das pessoas de confiança da presidente Dilma também pode auxiliá-la no comando da empresa.
Como o senhor avalia a gestão do Gabrielli?
Os números mostram que a gestão Gabrielli foi ruim para os minoritários, principalmente porque a capitalização feita sem proporcionalidade em 2010 diluiu os poderes dos pequenos acionistas. Além disso, a produção de petróleo não atingiu as metas durante toda a gestão dele. Em 2011, inclusive, produziu-se 1% menos que em 2010 e 3,7% abaixo da meta. Outro ponto negativo foi o preço de gasolina. Ainda que já exista um histórico de fazer com que esse valor fique aquém do que é praticado no mercado internacional, essa política foi aprofundada por Gabrielli. Hoje, a empresa tem de importar para completar sua oferta interna. Como essa gasolina é vendida no país a um preço inferior ao de sua aquisição, surge um grande problema. Nos últimos doze meses, a empresa teve um prejuízo de 465 milhões de reais com essa prática. Se considerarmos toda gasolina vendida no país, e que poderia ter um preço compatível com os do exterior, estima-se que a Petrobras deixa de ganhar uns 7 bilhões de reais.
Qual a empresa que Gabrielli recebeu de seu antecessor, José Eduardo Dutra?
Ele recebeu do antigo presidente José Eduardo Dutra, também ligado ao PT, uma Petrobras que tinha participado de vários leilões de áreas de exploração de petróleo e que estava preste a anunciar descobertas. A interferência política, por sua vez, não era muito grande. Como espelho disso, a gestão de preços tampouco era tão politizada como hoje. A empresa conseguia, desta forma, alcançar com maior precisão suas metas de produção. Em resumo, era uma Petrobras que estava decolando.
E como ele deixa a empresa agora?
Ele deixa a Petrobras com a questão do pré-sal anunciado e em um momento de preços que apontam para o alto – e isso é bom para a gestão de Graça Foster. Mas há o problema das ações, que estão caindo por causa da dificuldade da empresa de cumprir suas próprias metas de produção. A nova presidente também receberá uma Petrobras que se preocupou pouco com o acionista minoritário e que estava habituada a uma intervenção política excessiva – dois desafios a serem trabalhados nessa nova gestão. Contudo, o fato de a Petrobras não ter há 20 anos um presidente de dentro do seu quadro técnico faz com que a indicação de Maria das Graças seja vista como algo muito positivo. É preciso analisar, no entanto, como vão ser as mudanças na diretoria para checar se a ela vai ser mesmo técnica.


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