Tarja para o tema O fim da era dos ônibus espaciais

Espaço

'Nasa vive pior momento de sua história', diz ex-astronauta

Pela primeira vez, não há objetivos claros para estimular desenvolvimento da próxima geração de veículos tripulados, opina o especialista Anthony England

Marco Túlio Pires
Sem uma grande missão para inspirar cientistas, fim dos ônibus espaciais deixa Nasa sem opções para construir a próxima geração de transporte espacial tripulado

Sem uma grande missão para inspirar cientistas, fim dos ônibus espaciais deixa Nasa sem opções para construir a próxima geração de transporte espacial tripulado (Nasa/VEJA)

"O que se vive hoje é uma sensação de incerteza. Não sabemos quando e qual será a próxima grande missão. É frustrante"

Anthony England, ex-astronauta

A exploração do universo por meio de sondas e robôs não vai parar com o fim dos ônibus espaciais. O problema é a exploração espacial humana. Há um clima de incerteza nunca antes percebido na Nasa. Falta um grande objetivo capaz de inspirar os engenheiros da agência para o desenvolvimento da próxima geração de transporte espacial de seres humanos. Até agora, as propostas das empresas privadas e da própria Nasa giram basicamente em torno das cápsulas, sistema utilizado pelo homem há 50 anos. A Nasa está andando para trás. É o que pensa Anthony England, ex-astronauta e professor de engenharia da Universidade de Michigan. O engenheiro entrou para a Nasa em 1967. Aos 29 anos, trabalhou na missão Apollo 16 (o quinto pouso na Lua) a partir do centro de comando terrestre, passando instruções para os astronautas no satélite natural. Além disso, voou no ônibus espacial Challenger em 1985 como especialista senior.

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Tony England: "Falta objetivo e comprometimento na Nasa"

Tony England: "Falta objetivo e comprometimento na Nasa"

England teve o privilégio de acompanhar o nascimento e o fim de um dos programas mais ousados e bem sucedidos da história espacial mundial - o Apollo, que levou o homem à Lua - e fez parte do nascimento de uma nova era de transporte tripulado ao espaço, os ônibus espaciais. England deixou a agência em 1988. Com o pouso final do Atlantis, nesta quinta-feira, vai demorar alguns anos até que uma nave americana tripulada entre na órbita da Terra. Até lá, os americanos terão de engolir seco e fazer algo que não estão acostumados: depender exclusivamente dos russos para chegar à Estação Espacial Internacional. Apesar de estar em uma posição frágil, a Nasa afirma que está tudo bem e que o momento vivido é parecido com o fim do programa Apollo. Mas não é bem assim. Com discurso alarmado, mas ainda assim otimista, England explica ao site de VEJA por que o fim dos ônibus espaciais representa a maior crise vivida pela Nasa desde sua criação - e conta como ela pode dar a volta por cima.

Há quem diga que o hiato criado pelo fim dos ônibus espaciais possa ser comparado com o período que se seguiu ao fim do programa Apollo. O senhor concorda? Depois do último voo da Apollo, passamos um tempo sem colocar pessoas no espaço, mas todo mundo tinha muito o que fazer. Havia um senso de missão, de propósito. Tínhamos de construir os ônibus espaciais. As pessoas trabalhavam 70 horas por semana, era muito intenso. Agora, a indústria privada está desenvolvendo sistemas, mas nem os engenheiros nem os astronautas da Nasa têm envolvimento com a construção dessas naves. Não é algo que estamos controlando diretamente, é algo externo. O que se vive hoje é uma sensação de incerteza. Não sabemos quando e qual será a próxima grande missão. É frustrante. 

Houve algum período mais incerto vivido pela Nasa desde sua criação? Não. Já passamos por momentos difíceis, como antes da missão Apollo, durante a década de 1960. Havia um sentimento de que o programa espacial era inútil. Naquele tempo, nós, astronautas, saíamos para dar palestras divulgando o que fazíamos. Algumas pessoas diziam que o programa espacial era "brinquedo de homem branco". Foram tempos difíceis. No fundo, os ônibus espaciais acabaram pela mesma insatisfação daquele tempo: a cada ano as pessoas se perguntam por que a Nasa gasta tanto dinheiro, e ela precisa prometer mais resultados gastando menos. Mas nunca tínhamos visto um tempo como o atual, em que não está claro de forma alguma o que estamos tentando fazer. É tudo tão vago...

O que significa o fim do programa de ônibus espaciais para os EUA, objetivamente e simbolicamente falando? Acho que é um bom momento para repensar qual é a função da Nasa. Dentre todos os fundamentos que definiram a agência em 1958, o mais marcante é o que dita a efetividade e a eficiência da Nasa. Perdemos essa noção com uma série de decisões erradas que tomamos no passado, como, por exemplo, o programa Constellation, em 2005, que previa levar o homem novamente à Lua, construir uma base lunar e, a partir dela, ir a Marte.

Por que o Constellation foi uma decisão errada? Poderíamos estar desenvolvendo a próxima geração de veículos reutilizáveis agora, se não tivéssemos nos concentrado em fazer algo que já havíamos feito há 50 anos. Poderíamos ter feito parcerias com a indústria privada, assim como os militares fazem para o desenvolvimento de caças, e estar pesquisando formas inovadoras de ir além dos ônibus espaciais. Por causa dessa decisão, perdemos tempo. Agora, estamos discutindo tecnologias de foguete - cápsulas, sistemas de propulsão e assim por diante - que já existem há muito tempo. Em vez de estarmos promovendo um acesso cada vez mais fácil ao espaço, estamos andando para trás, para tecnologias anteriores, que dificultam o acesso de pessoas ao espaço.

Por que essas tecnologias dificultam o acesso ao espaço? A ideia dos ônibus espaciais é muito boa: veículos reutilizáveis e acessíveis para segmentos mais amplos da sociedade. Para voar em um ônibus espacial não é necessário ser um astronauta de carreira. A pessoa precisa de alguns meses de preparo e está pronta para voar. Um sistema de cápsulas que entram na Terra e caem no oceano é bem mais hostil. É necessário que o astronauta passe muito tempo treinando em ambientes extremos, use trajes especiais e esteja em perfeita forma. Isso não é acesso fácil ao espaço.

Como a Nasa deveria estar conduzindo o programa de voos tripulados ao espaço? Temos que começar a responder perguntas básicas sobre o voo espacial tripulado e desenvolver missões que atendam essas necessidades. O que é mais importante no voo espacial tripulado? Certamente não é o lado científico, uma vez que os robôs fazem essa parte muito melhor do que nós. A verdadeira questão se repousa em uma simples pergunta: os seres humanos têm futuro além dos confins da Terra? É a eterna questão de "para onde vamos". Se vamos expandir nossa espécie além do planeta que nos gerou, o que precisamos saber para fazer com que isso aconteça?

Essa é uma boa pergunta... Precisamos saber se os humanos conseguem se adaptar ou se conseguimos diminuir os efeitos da microgravidade em missões de longa duração. Além disso, temos que entender como vamos lidar com ambientes de alta radiação no espaço profundo por muito tempo. A única forma de responder a essas perguntas é criar um desafio que nos obrigue a pesquisar essas coisas - ir a Marte, por exemplo. O objetivo de chegar ao planeta vermelho começa a responder perguntas básicas como: os seres humanos têm propósito além do ambiente terrestre?

O que falta à Nasa neste momento em que o voo espacial tripulado americano entrará em um hiato de, pelo menos, cinco anos? Uma boa ideia e foco. O programa Constellation foi uma tentativa de dar foco, mas foi uma má ideia. Traçou um objetivo já alcançado, utilizando uma tecnologia que desenvolvemos há 50 anos em um prazo exorbitante, incapaz de atrair o compromisso de longo prazo dos governos. Os ônibus espaciais foram uma ótima ideia, mas utilizá-los por 30 anos nos custou caro demais. Todo o dinheiro que a Nasa deveria ter usado para pesquisar e desenvolver a próxima geração de veículos reutilizáveis foi sugado por eles. Ficamos presos a um programa que, a cada ano, precisava de mais dinheiro para fazer a mesma coisa repetidamente, sem qualquer inovação para o sistema de transportes espaciais. Construímos a Estação Espacial Internacional (ISS), mas não há nada de muito novo lá em cima. E a tecnologia dos ônibus espaciais só trouxe realmente três inovações: novos motores, sistema de proteção de calor e o sistema de controle dinâmico de voo. O resto é tecnologia da geração anterior.

A partir de agora, os EUA dependem da Rússia para transportar astronautas até a ISS. O que significa para os americanos ter que contratar o serviço de outro país para colocar pessoas no espaço? Não acho que seja uma alternativa insegura. Os russos têm um programa espacial confiável e já provaram a segurança do sistema Soyuz. Contudo, essa situação de dependência nos dá uma sensação de que nosso papel no programa espacial mundial é fraco. É uma posição frágil. Implica falta de compromisso e planejamento.

É possível colocar a culpa em alguém para esse clima de incerteza? O sistema político americano não é o melhor para configurar objetivos de longo prazo. A maioria no Congresso troca de lado de dois em dois anos, e qualquer coisa que a Nasa planeja dura muito mais do que isso. Precisamos de compromisso para cumprir missões definidas dentro de um orçamento e de garantias de que o dinheiro estará lá quando precisarmos dele. Foi o contrário do que aconteceu com o Constellation: definiu-se um programa que não conseguiríamos pagar e na troca de gestão ele foi cancelado.

A administração Obama agiu corretamente ao cancelar o programa Constellation? Sim. Os primeiros passos foram dados corretamente, ou seja, criou-se o conceito de irmos até asteroides e Marte. O problema é que não saímos disso. Não temos um planejamento de verdade, com metas e orçamento definido, muito menos a concordância de que o orçamento é razoável, de que a agênda é razoável e assim por diante. O presidente Obama agiu corretamente ao cancelar a base lunar, mas não demos o passo seguinte.

A Nasa anunciou que irá reaproveitar o projeto do veículo espacial do programa Constellation - a cápsula Orion - para substituir os ônibus espaciais e levar tripulações ao espaço profundo, como Marte. Não seria um passo seguinte?
Se a ideia é ir até Marte e voltar para a Terra em uma inserção direta, talvez uma cápsula que caia no mar seja uma boa ideia. Contudo, o projeto Orion foi focado em uma base lunar, e isso não é o próximo passo. As peças para a construção de uma cápsula em um projeto para levar o homem à Lua não estão no caminho certo para nos levar à próxima geração de transporte espacial. A conclusão da construção da base lunar estava tão longe no futuro que os cientistas nem tinham que pensar na próxima geração de transportes para chegar até Marte. Como o mesmo sistema poderia ser utilizado para chegar ao planeta vermelho se não foi desenvolvido para isso? Eu não saberia dizer.

A China planeja construir uma estação espacial sozinha. O senhor acha que a iniciativa chinesa vai estimular os americanos a traçarem objetivos mais ousados? Espero que sim. Para ser um líder mundial você tem que jogar nessa arena. Não se pode ficar parado 50 anos esperando que os outros te alcancem. Eu gostaria que as nações conseguissem trabalhar mais unidas nos projetos internacionais. O espaço profundo pede cooperação entre os países.

Os 100 bilhões de dólares utilizados para a construção da Estação Espacial Internacional foram bem gastos? Existe muito potencial ainda a ser explorado na ISS. Alguns experimentos projetados para a estação não foram feitos, como o cultivo de plantas em ambientes de microgravidade, sistemas de centrífugas para a simulação de gravidade no espaço e o sistema para o suporte de vida. Ela ainda não é um posto avançado para o lançamento de naves a partir dela. O dinheiro foi todo consumido na construção. Se ela não tiver nenhuma utilidade, será um péssimo investimento.

Como a Nasa pode superar essa crise? Já passamos por períodos desencorajantes antes. Passamos por altos e baixos e esquecemos a sensação de frustração e o processo de superação. Às vezes é difícil acreditar que teremos outra época em que estaremos em alta, mas somos perfeitamente capazes de dar a volta por cima. Para isso, porém, os governantes precisam decidir qual é o papel do governo, se desejam que os Estados Unidos permaneçam na posição de liderança na pesquisa aeroespacial e se vale a pena investir o dinheiro do contribuinte em projetos que podem trazer benefícios para toda a humanidade.

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