14/10/2011 - 22:12
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Humor

Ciência vira piada no palco do Bright Club

Nascido dentro de uma universidade, clube de comédia britânico faz sucesso levando ao palco cientistas de todas as áreas com apresentações bem-humoradas e didáticas sobre aceleradores de partículas, poesia viking e datação radiométrica, entre outros assuntos 'divertidos'

Marco Túlio Pires
"Além de dar boas risadas, a plateia sai com a sensação de que realmente aprendeu alguma coisa sobre diversos assuntos", diz o idealizador do Bright Club, Steve Cross

"Além de dar boas risadas, a plateia sai com a sensação de que realmente aprendeu alguma coisa sobre diversos assuntos", diz o idealizador do Bright Club, Steve Cross (Junião)

"O barman diz: 'não atendemos neutrinos aqui'. Um neutrino entra no bar e pede uma bebida". Parece difícil de acreditar, mas isso é uma piada. Se você não riu, não se preocupe. Dificilmente uma piada ‘científica’ faria sentido sem uma boa preparação (entenda a piada no quadro abaixo). Este tipo de humor é característico do repertório do Bright Club, um clube de comédia que nasceu em 2009 na University College London, na Inglaterra, e hoje lota pubs e teatros em 13 cidades. No palco, com a mãozinha de humoristas profissionais, acadêmicos de todas as áreas se revezam fazendo piadas sobre o seu próprio trabalho à maneira dos espetáculos de stand-up comedy.

A última do neutrino

Neutrinos são partículas subatômicas ainda pouco conhecidas. No mês passado, cientistas do CERN mediram neutrinos viajando mais rápido que a luz. O feito foi recebido com ceticismo pela comunidade científica. É que ultrapassar a velocidade da luz vai contra um dos pilares da física moderna: a Teoria da Relatividade, de Einstein. Hipoteticamente, se é possível superar a velocidade da luz, então é possível viajar ao passado. Com isso, quebra-se o princípio da causalidade, pelo qual a causa de um fenômeno deve vir antes de seu efeito, nunca o contrário. É isso o que a piada explora: o barman fala ao neutrino antes mesmo de sua chegada ao bar.

Apesar de não ter sido criado com o propósito de fazer ciência, o Bright Club nasceu como a maioria dos projetos científicos — com um problema e várias perguntas. Em 2009, o geneticista inglês Steve Cross, da University College London (UCL), recebeu a missão de encontrar formas de aproximar a universidade de um público leigo.

"Nós já conseguíamos conversar muito bem com menores de 18 anos, que estão prestes a entrar para o mundo acadêmico, e com maiores de 40 anos, por meio de TV, rádio e internet", explica Cross, em entrevista ao site de VEJA. "A questão era: como nos aproximar das pessoas entre 20 e 40 anos?".

A solução que Cross encontrou foi se unir a Miriam Miller, uma produtora de shows de comédia na Inglaterra. A ela, fez outra pergunta: "O que aconteceria se colocássemos no mesmo palco um comediante profissional, uma banda e seis acadêmicos fazendo piadas sobre o próprio trabalho?"

O resultado é uma versão de stand-up que começou timidamente em um pequena sala da UCL, para 80 pessoas, cresceu e virou atração até do tradicional teatro Bloomsbury, em Londres, uma das casas de comédia mais famosas do país, com capacidade para mais de 500 pessoas. Há planos para inaugurar uma "filial" do Bright Club em Sydney, Austrália, a partir de 2012.

O show acontece mensalmente e cada apresentação aborda um tema diferente. Pelo palco do Bright Club já passaram acadêmicos de toda sorte: economistas, historiadores, físicos, filósofos, arquitetos, cineastas. Além das apresentações, Cross mantém um podcast semanal em que conduz uma conversa descontraída com os pesquisadores. O áudio pode ser acessado gratuitamente na internet.

A fórmula do Bright Club

Aquecimento Um comediante entra em cena para 'aquecer' o público
Humor Três pesquisadores fazem apresentações de oito minutos cada
Música Em seguida, uma banda anima o público
Intervalo 20 minutos de intervalo
2º bloco A rotina se repete, e a apresentação se encerra

Preparação Entre os acadêmicos, a ideia de se apresentar em público para fazer graça não parece, de início, muito tentadora. Para engajá-los, Cross apela a um sentimento típico da academia: a competitividade. "Quando eu digo aos pesquisadores que colegas da mesma área já se apresentaram e foram muito bem, a maioria acaba aceitando o desafio", diz. Só em Londres, cerca de 100 pesquisadores da UCL já passaram pelo Bright Club.

Quem participa do Bright Club recebe um ‘treinamento relâmpago': algumas dicas e sugestões de leitura sobre a arte dos grandes comediantes. "Muitos acadêmicos começam dizendo que jamais fariam parte do Bright Club." Contudo, semanas após a apresentação, os pesquisadores querem logo voltar para o palco. "Mal posso esperar pela próxima vez", afirma a neurocientista Sophie Scott, que já fez algumas apresentações no clube (continue lendo a matéria)

 

Humor

O clube das piadas brilhantes

No Bright Club, cientistas, comediantes e músicos dividem o palco em um show de variedades bem-humorado sobre pesquisas científicas

Sucesso — Para Cross, uma das razões do sucesso do Bright Club é que seu formato diverte e também ensina. "Além de boas risadas", afirma, "as pessoas saem com a sensação de que realmente aprenderam algo sobre diversos assuntos". Outra razão é buscar um público  — a maioria entre 28 e 35 anos — avesso a baixarias gratuitas. "Você não vê pessoas gritando ou falando baixarias gratuitas em nosso show. Mesmo quando o pesquisador não é a pessoa mais engraçada do mundo, a plateia está disposta a se divertir e aproveitar o momento para aprender algo novo”

Circuito brilhante

O Bright Club surgiu em Londres, espalhou-se pelo Reino Unido e em 2012 chega à Austrália

Cross acredita que o Bright Club pega carona no caminho aberto por grandes sucessos da televisão, como The Big Bang Theory, sitcom sobre a rotina de um grupo de nerds, e Mythbusters, série que desfaz de maneira descontraída vários mitos do dito popular. "É uma plateia que gosta de aprender coisas, mas que também quer relaxar", diz o arqueólogo Joe Flatman, que já se apresentou duas vezes. "O Bright Club mistura tudo isso de uma maneira nova e bem-humorada."

Rir e aprender — Flatman acredita que superar o desafio de se apresentar no Bright Club foi ainda mais complicado que apresentar sua tese de doutorado. A chefe do departamento de estudos sobre a Escandinávia da UCL, a doutora Claire Thomson, concorda: "O que poderia ser mais difícil do que estar diante de 500 pessoas tentando fazê-las rir e aprender algo ao mesmo tempo?"

Comentários


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TonyMercier

Que tal a Band dar férias coletivas para o CQC e inscrever os seus "banqueiros" para um curso neste clube aí. Dinheiro não deve faltar. Faltam neurônios!

22.10.2011

Maria Eduarda

Se fosse no Brasil iam criticar. Brincar com coisa séria? Processos iam render ainda mais!

21.10.2011

carlosvamosospumas

Interessante, porém acho difícil me reir com uma de gens ou eletróns, prefiro uma de argentino..

21.10.2011

Luiz das Chagas Apolônio

Essa idéia é boa porque é educativa e estimulativa para se obter conhecimento científico. O brincar é salutar, se com respeito se acompanhar. Parabéns, participantes.

17.10.2011

Jonas Paulo Negreiros

Nem tudo é piada na Ciência. É interessante notar Einstein não teve grandes dificuldades ao apresentar a Relatividade Restrita à comunidade científica. Acontece que o momento era propício. Havia um cenário convergente, pois muitos colegas contemporâneos estavam à caminho de chegar as mesmas conclusões do brilhante cientista(..)

15.10.2011

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