Meteorologia

A troposfera também está aquecendo, diz estudo

Cientistas concluíram que a camada da atmosfera mais próxima à Terra está aquecendo por causa da interferência do homem

Marco Túlio Pires
Sol

(Sydney James/VEJA)

O objetivo da pesquisa era acabar com a controvérsia iniciada há 20 anos quando um relatório científico baseado em observações de satélite contestou o aquecimento da troposfera mesmo com o aumento das temperaturas da Terra. 

A troposfera - camada mais baixa da atmosfera, onde os eventos climáticos ocorrem, como chuva, neve e furacões - está se aquecendo junto com a superfície da Terra por causa do aumento da emissão dos gases do efeito estufa. A conclusão é de cientistas britânicos e americanos. O estudo foi publicada no periódico Wiley Interdisciplinary Reviews.

Thomaz Pinheiro

troposfera

 


Há muito tempo simulações do clima feitas pelos cientistas dizem que a troposfera deveria estar se esquentando tão rápido quando a superfície da Terra. Mas desde a década de 1970, medições feitas por balões meteorológicos mostraram que a troposfera possuía uma temperatura constante, não acompanhando o aquecimento da superfície. Por mais que as simulações previssem que a temperatura da troposfera aumentaria junto com a superfície da Terra, na prática, as medições mostravam que não era bem assim — a temperatura era constante.

O estudo publicado analisou 195 artigos científicos, resultados de modelos climáticos e dados atmosféricos reunidos nos últimos 40 anos. A equipe de cientistas da Universidade Estadual de San Jose (EUA) e da Universidade de Reading (Inglaterra) não encontrou nenhuma diferença entre as simulações e o que realmente aconteceu na troposfera - o aquecimento da camada por causa da interferência do homem.

Medir a temperatura da troposfera não é tarefa fácil. Na década de 1950, cientistas enviavam instrumentos de medição em grandes balões que enviavam os dados via rádio para as bases terrestres. De acordo com os autores da pesquisa, essas medições não eram exatas. Na superfície, por outro lado, o registro das temperaturas é melhor por causa da proximidade das bases terrestres com a área de medição. "A discrepância entre os modelos e a medição dos satélites e balões atmosféricos estava relacionada com a forma como essas observações eram feitas", disse Dian Seidel, pesquisadora da agência americana de meteorologia.

De acordo com a pesquisadora, as medições não eram precisas. Os balões atmosféricos sofriam interferência da luz do sol e os resultados de satélites podem ser influenciados pela estratosfera. Os autores da pesquisa concluem que a falta de precisão dessas medições fez com que os cientistas fossem levados a acreditar que o clima na troposfera não estava sendo alterado pelo aquecimento da superfície.

Controvérsia - O estudo é um dos muitos já publicados em 2010 com o intuito de contrapor aqueles que duvidam que o homem exerce algum papel na mudança do clima. O climatologista da USP, Ricardo Felicio, é um dos que não acreditam que a humanidade é capaz de provocar mudanças no clima.

Felicio explicou que os últimos 40 anos não podem servir como base para uma avaliação de mudança do clima. "Se tivessem analisado um tempo maior, teriam visto que o clima não está mudando". O clima, segundo o pesquisador, não é gerido por dezenas de anos, mas milhares. Analisando todo o século 20 e o início do século 21, "a década mais quente foi a de 1930, muito antes do vigor industrial que temos hoje", afirmou Felicio. 

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