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Qualidade de vida

Em São Paulo, poluição mata mais que trânsito

30/06/2008 19:29

Por Andréa Bordinhão

Nos dias de maior poluição na cidade de São Paulo, de cada dez pessoas infartadas, uma sofre o ataque por causa da má qualidade do ar. A cada cem casos de câncer de pulmão na capital paulista, oito são por causa da poluição. Os dados foram apresentados pelo médico patologista do Hospital das Clínicas de São Paulo, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade, Paulo Hilário Saldiva. As estatísticas foram colhidas ao longo de anos de pesquisas desenvolvidas pelos profissionais do laboratório e publicadas em revistas especializadas. 
 
Segundo o especialista, a poluição em São Paulo diminui, em média, em dois anos a expectativa de vida da população. "É a reprodução em pequena escala do que o cigarro faz em larga escala", compara. Os dados não se restringem à capital paulista. Saldiva comenta que o Brasil tem poucas leis de controle da poluição e as que existem determinam índices superiores aos estipulados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
 
O médico, que anda somente de bicicleta pelas ruas da cidade há mais de 30 anos, falou sobre como os paulistanos podem enfrentar o problema.
 
VEJA.com - Com a proximidade do inverno, é comum a alta incidência de problemas respiratórios. Em que medida a poluição piora esse quadro?
 
Paulo Hilário Saldiva - Nos dias de maior poluição a pressão arterial aumenta, a qualidade do sono fica prejudicada e em um exame de sangue é possível notar maiores taxas de glóbulos brancos (mecanismo de defesa do organismo). Para boa parte das pessoas tudo isso só leva ao desconforto. Mas aqueles que sofrem de asma ou quem têm pressão alta, por exemplo, vão sofrer mais, e certamente terão usar mais remédios. Além destes, um grupo de pessoas vai precisar de consultas médicas, outro menor vai precisar ser hospitalizado e outro menor ainda vai morrer.
 
VEJA.com - As doenças decorrentes da poluição podem se agravar no inverno?
Saldiva - Sim, porque as condições de dispersão dos poluentes pioram. Não tem estação de tratamento de ar. Então, é preciso depender da dispersão natural. No inverno o ar tende a ficar mais seco deixando a fuligem em suspensão mais tempo na atmosfera. Quando o clima está seco, uma partícula atmosférica que duraria horas passa a durar dias no ar. E o sistema respiratório está sobrecarregado no inverno. As vias aéreas têm uma demanda funcional maior que as tornam mais vulneráveis.
 
VEJA.com - Poluição pode levar à morte?
Saldiva - Nos dias de maior poluição na capital paulista uma em cada cinco consultas nos prontos-socorros é por causa de problemas ligados à péssima qualidade do ar. Um em cada dez infartos acontece pelo mesmo motivo. Estes são os efeitos agudos. Mas existem aqueles que são de longa duração. É a mesma coisa que o cigarro, que tem efeito agudo, mas o real impacto ocorre depois de décadas. Estima-se que na cidade se São Paulo de cada cem casos de câncer de pulmão, oito são por causa da poluição atmosférica. Outro efeito é o envelhecimento pulmonar. As pessoas que moram em regiões poluídas, principalmente próximas a corredores de tráfego intenso, têm este envelhecimento acelerado. E, do mesmo jeito que o cigarro causa riscos para os fetos, a poluição faz com que gestantes, principalmente aquelas que passam muito tempo na rua, sintam os efeitos. Elas têm risco de parto prematuro, mais chances de sofrer um aborto nos primeiros três meses e o feto vai ter menos peso.
 
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Quais as doenças mais graves causadas pela poluição?
Saldiva - Cardíacas e respiratórias. As doenças de pele podem ser mais freqüentes, mas não levam a um comprometimento de redução de expectativa de vida. Estima-se que o nível de poluição atmosférica em São Paulo reduz, em média, a expectativa de vida da população em dois anos. Os mais suscetíveis vão morrer antes e vão puxar esta média. Por ano, a poluição leva 4.000 pessoas à morte. O que é mais que o trânsito (em 2007, segundo a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, aconteceram 1.641 mortes no trânsito).
 
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Quais as pessoas mais suscetíveis a problemas por causa da poluição?
Saldiva - É uma questão de tendência genética. Algumas pessoas, por exemplo, só de conviver com fumantes adquirem câncer. Além disso, tem o efeito sócio-econômico. A poluição do ar afeta com mais intensidade o segmento de menor renda. Eles são mais frágeis por causa de condições nutricionais, se ficam doentes têm menos dinheiro para comprar remédios e estão mais expostos. Para quem mora numa favela a diferença entre ar externo e interno é menor.
 
VEJA.com - Como as pessoas podem se prevenir desses males?
Saldiva - Esta é a pergunta mais frustrante para um médico. Existem medidas individuais que podem ser adotadas, como ir para o trabalho fora do pico de tráfego - isso diminui o tempo de exposição ao ar poluído do trânsito. O ar-condicionado do carro também ajuda a diminuir a dose de poluição - mas se a pessoa está em um ônibus, com a janela aberta, não há o que fazer. Uma dieta saudável ajuda também. Comer verduras e frutas atenua os efeitos. Mas é difícil falar como é possível prevenir as doenças num país onde a maioria não tem condições de fazer muito.
 
VEJA.com - Quais são os piores poluentes e os perigos de cada um?
Saldiva - Em São Paulo são dois tipos: a fuligem fina, aquela que não se enxerga, mas quando passa o lenço na pele aparece. Ela passa pelo filtro nasal e se deposita nos alvéolos pulmonares. A fuligem é uma espécie de carvão temperado por metais pesados e algumas substâncias que se agregam a ela. Quando esta fuligem se deposita no pulmão não sai. É como um "pacote" que leva coisas que não deveriam ser inaladas e que ficam em contato com as membranas dos pulmões. Está relacionada ao câncer, asma e doenças cardiorrespiratórias. O outro poluente é o ozônio, relacionado ao agravamento de crises de asma e ao infarto do miocárdio. E a solução para eliminá-los em São Paulo seria somente a redução do tráfego de veículos.
 
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A poluição pode ser considerada um problema de saúde pública?
Saldiva - Sim, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que no final de 1986 lançou padrões de poluição do ar, em estudo intitulado Poluição e Saúde Humana, devem morrer no mundo cerca de 2 milhões de pessoas por ano por causa da poluição, quase tanto quanto o HIV - em 2007, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), morreram cerca de 2,1 milhões de pessoas no mundo por causa da aids - e quase o mesmo que a tuberculose. Na maior parte dos países não existe política de meio ambiente ligada à saúde, porque ainda não se deram conta de quanto isso custa aos cofres do país. Os EUA pegaram pesado no controle dos poluentes do diesel porque fizeram a conta que para cada dólar investido na redução de emissão de poluentes do diesel economizavam oito dólares no gasto com saúde.
 
VEJA.com - Área verde é sinônimo de menos poluição?
Saldiva - Área verde funciona como barreira porque modifica a umidade relativa do meio ambiente. Mas numa cidade como São Paulo pode-se plantar a quantidade de árvores que for que não resolve.
 
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Caminhar em local arborizado faz diferença? 
Saldiva - Sim. Quem anda no Parque Trianon, por exemplo, pode sentir que ao sair na Av. Paulista a diferença de temperatura chega a dois graus acima. E a quantidade de poluentes numa avenida de tráfego intenso é cerca de 30% maior que a média da cidade. Do ponto de vista prático ninguém deveria morar a menos de 100 metros de distância de uma avenida, mas infelizmente isso não acontece. O Parque do Ibirapuera está numa região com grande concentração de ozônio. Escapando do horário de pico deste poluente, entre 10 horas e 16 horas por causa do sol, é um local melhor para andar.