Celebridades
Crítica
U2 em SP: nem tão quente, nem tem frio, apenas OK
Em noite pouco inspirada, banda de Bono Vox desfila repertório de sucessos de modo mecânico - como o trambolho que serviu de cenário
Lagom é uma palavra que existe apenas no vernáculo sueco. Ao pé da letra, ela quer dizer “de acordo com a lei”, mas os suecos a usam para definir algo mais que morno - nem tão quente, não tem frio, apenas OK. Pois a apresentação do quarteto irlandês U2 no estádio Morumbi, neste sábado, foi “lagom”. Não que o grupo tenha esquecido de tocar seus hits. Apesar de ter privilegiado a produção dos últimos 20 anos (I Will Follow foi uma das poucas faixas tiradas dos quatro primeiros discos da banda), o que se viu e ouviu foi um repertório respeitável, que ia das animadas Even Better than the Real Thing e Vertigo a faixas mais messiânicas como One e Moment of Surrender. Tampouco faltou empolgação à platéia, que foi responsável pelos melhores momento do espetáculo - quando cantaram mais alto que Bono em I Still Haven’t Found What I’m Looking For. O grupo era o grupo, que não estava num noite inspirada. Ou, pior, mostra que não soube como envelhecer.
O U2 é um produto do punk, onde os conceitos e a força de vontade dos instrumentistas é mais importante que a destreza musical. Ele se apóia numa seção rítmica correta (o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen Jr.), nos riffs de um guitarrista criativo (The Edge) e, acima de tudo, na empolgação e messianismo do vocalista Bono. Este último, apesar de ter um carisma natural para empolgar platéias, está longe de ser um entertainer. Não tem aquela mistura de sexualidade e perversidade de um Mick Jagger, muito menos nasceu para ser um showman como Freddie Mercury. Resta a Bono os vocais gritados (e muito bem gritados, diga-se) e a habilidade de pular e comungar com seu público. Na noite de sábado, no entanto, os vocais falharam - e muito. O cansaço de Bono era visível, bem como a barriguinha saliente sob sua blusa preta. O vocalista abaixou - e muito! - o tom de músicas como Till the End of the World, se mostrou sem fôlego e entrou errado no hit With or Without You. Por outro lado, ele finalmente ele podou o messianismo - e o utiliza em momentos importantes, como a música em homenagem às vítimas da chacina no Rio de Janeiro - e não se ajoelha mais à frente de uma moçoila, escolhida em meio ao público. A única que ele trouxe, no máximo, leu os versos de Carinhoso, de Pixinguinha e Braguinha. Bono, no entanto, revelou-se um ótimo piadista ao comparar o trio inglês Muse a grupos históricos e relevantes como Cream e Jimi Hendrix Experience.
Os 90 000 espectadores que estiveram presentes no Morumbi não deram bola às falhas na voz de Bono e na falta de paixão dos músicos que tocavam no palco. O U2 entrou ao som de Trem das Onze, de Adoniram Barbosa, seguido de Space Oddity, de David Bowie. O palco fica dentro de uma espécie de “aranha mecânica” e o grupo usa pontes móveis para se aproximar do público. Em meio a uma canção e outra, Bono se definiu como uma “pizza de Petroni” (o crítico aqui acrescentaria “com muitas cervejas Guinness de acompanhamento”), pediu parabéns para você a Julian Lennon, filho do ex-Beatle John Lennon e fez citações às canções Two Tribes, de Frankie Goes do Hollywood (em I’ll Go Crazy IF I Don’t Go Crazy Tonight) e Help antes de Where the Streets Have no Name. Os momentos mais politizados foram a homenagem à líder política de Burma, Aung San Suu Ky Met, que ficou quase duas décadas encarcerada e a aparição do religioso sul-africano Desmond Tutu em One. Bono disse ao público que havia se encontrado com a presidente Dilma Rousseff e esta lhe contou que sua prioridade no governo seria o combate à pobreza. O U2, por seu turno, esqueceu sua maior prioridade: fazer uma apresentação de encher olhos e ouvidos e fazer com que o público garantisse que havia presenciado um dos melhores momentos de suas vidas. O que se viu, porém, foi uma banda desfilando um repertório de sucessos de modo mecânico e tão frio como o trambolho que usaram como cenário.






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