17/02/2010 - 16:29
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Exclusivo VEJA.com | Cinema

Super 8: capacidade de reinvenção e sobrevida

Branca Nunes
As câmeras Super 8 pararam de ser fabricadas, mas é possível comprar alguns modelos usados

As câmeras Super 8 pararam de ser fabricadas, mas é possível comprar alguns modelos usados

Embora as câmeras Super 8 não sejam mais fabricadas desde o fim do século XX, sites como o Mercado Livre colocam à venda dezenas de modelos usados. Os filmes não são raros e a variedade que existe hoje no mercado, surpreendentemente, é maior do que em qualquer outra época. O grande problema enfrentado pelos superoitistas é a etapa da revelação. No Brasil, menos de meia dúzia de laboratórios fazem este serviço. Outro entrave é a projeção. Como o Super 8 é uma película, para assisti-lo é necessário um projetor, ou é preciso digitalizá-lo.

"Antes eu comprava um filme numa loja em Pinheiros, fazia a gravação na Paulista e revelava no Brooklin, ou vice-versa", conta Marcos Bertoni, um dos maiores superoitistas brasileiros, com mais de 26 curtas. "Em uma hora estava com o filme na mão pronto para ser projetado". Modelista de publicidade e TV - entre outros trabalhos, ostenta no currículo o passarinho da cueca Zorba, o ratinho da Folha de S. Paulo e os Dedinhos do Castelo Rá-Tim-Bum -, Bertoni aproveitou tal dificuldade para reinventar a sua sétima arte.

Inspirado pelo homônimo dinamarquês, Bertoni criou há sete anos o movimento Dogma 2003, que resume em três palavras o principal mandamento: "É proibido filmar". Com "um ou dois seguidores", o Dogma brasileiro prega a reciclagem. Bertoni usa trechos de filmes antigos clássicos - que antes do VHS eram distribuídos também na versão Super 8 - ou restos de filmes próprios não utilizados para dar vida a uma nova história.

"Em O 24 horas, de 2004, o quinto da série Dogma, uma detetive (Janet Leigh, em uma participação não autorizada e surrupiada do filme Psicose, de Alfred Hitchcock) está atrás do vilão, o Mosquito 24 horas", descreve o jornalista Rafael Urban, também superoitista, numa reportagem sobre Bertoni. "Quando chega ao banheiro do motel em busca de pistas, é assassinada. A cena no chuveiro é a clássica, porém não mostra a faca: escuta-se apenas um zumbido, seguido de um trecho de Branca de Neve no qual um inseto se ensaboa".

Segundo Leandro Bossy, idealizador do Curta 8 - Festival Internacional de Cinema de Super 8 de Curitiba, esta vocação para reinventar-se é o que garantirá vida longa aos amantes dessa arte. Uma das propostas do festival é incentivar a criação em "tomada única".

Nela, os cineastas têm um cartucho (cerca de 3 minutos de gravação) para fazer o filme. Não pode haver pós-edição: a história tem que ser filmada de uma só vez (sem cortes) ou com a chamada "edição no gatilho" (usando somente o "stop" e o "play" da própria câmera). Os cartuchos são enviados à organização do festival, que cuida de revelá-los. O resultado final só será visto, tanto pelo público, quanto pelo próprio diretor, no dia da exibição. Como não existem mais filmes sonoros de Super 8, a trilha musical dessas produções é feita ao vivo - tanto a música, quanto a dublagem, quando há.

"É uma maneira de agregar outras funções ao Super 8", acredita Bossy. "Um experimentalismo que pode ou não dar certo, mas que sempre surpreende". Neste ano, o Curta 8 também pretende desafiar cineastas consagrados desabituados à bitola a criarem filmes em tomada única. Walter Salles já foi sondado para participar da empreitada.
 

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