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Moda
O "it" blog de Garance Doré
Blogueira de moda mais famosa da Internet conta como deixou a vida pacata na Córsega para se tornar referência de estilo
A blogueira francesa Garance Doré é autora do blog de moda mais famoso da Internet (Ana Clara Costa)
A francesa Garance Doré, 36 anos, tem a vida que toda mulher apaixonada pelo mundo fashion poderia sonhar: é prestigiada nas principais semanas de moda, fotografa e produz ilustrações para marcas de luxo, é amiga das poderosas editoras de moda de Paris e Nova York e namora o fotógrafo Scott Schuman, mais conhecido como autor do blog de fotos The Sartorialist. Não bastasse tudo isso, Garance é a autora de um dos blogs de moda mais bem sucedidos da Internet, que leva seu nome e é conhecido entre os fashionistas como "it blog", justamente por sua influência. No Brasil, é reverenciada por patricinhas, estilistas e habitués de bastidores de desfiles como ícone de elegância e estilo. Dessa vida de glamour, Garance guarda uma avaliação quase filosófica. “O mundo da moda é muito criticado pelo excesso de ego, mas me atrai porque é um meio que aceita muita gente que não encontraria lugar em outro tipo de ambiente”, diz a blogueira, que recebeu o site de VEJA no Hotel Fasano, durante sua primeira visita a São Paulo.
Criada na Córsega (ilha francesa localizada no Mar Mediterrâneo), filha de pai italiano e mãe de origem argelina e marroquina, ela conta que jamais imaginou saltar de um local isolado para o topo do mundo da moda. “Para mim, pensar em viver em Paris já era algo inimaginável. Não sabia nem mesmo se conheceria Paris um dia”, diz. Garance começou a carreira como ilustradora em Marselha, no sul do país, onde morava quando criou seu blog, em junho de 2006. “Precisava desenhar de forma mais rápida para conseguir mais clientes. Alimentar um blog com ilustrações me forçava a isso. Se levasse uma semana para desenhar uma ilustração toda detalhada, como costumava fazer, não teria dinheiro nem para comer”, diz a blogueira, cuja família possuía um restaurante em Ajaccio, a capital córsica. “Tínhamos uma vida muito confortável. Meus pais são educados e inteligentes. Mas eu morava numa ilha longínqua. Pensava que jamais iria trabalhar com moda ou numa grande revista”, confessa.
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A cena mudou quando, a partir da publicação de suas ilustrações na internet, a blogueira, então com 30 anos, começou a ser convidada a desenhar para clientes parisienses. Dali até sua mudança definitiva para a capital francesa foi um passo. “Não dizia no meu blog que morava em Marselha. Na França, se você não mora em Paris, as pessoas não se interessam. E é ainda pior se você mora no sul”, diz. Quando instalou-se na nova cidade, começaram a pipocar convites para eventos de alta-costura – e a ilustradora blogueira transformou-se em testemunha ocular de bastidores dos desfiles e do caos que acomete o mundo da moda a cada troca de estação. Desse contato direto com a efervescência das passarelas, surgiu a vontade de fotografar. “A ilustração estava muito longe do que eu estava vivendo naquele momento, da minha nova vida em Paris e tudo o que eu descobria”, conta.
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Da paixão pela fotografia nasceu um amor na vida real. Foi fotografando a Semana de Moda de Paris que Garance conheceu seu namorado, com quem vive em Nova York desde 2008. “Ele me disse que eu poderia me tornar uma grande fotógrafa. Mas eu não acreditei. Não tinha confiança no meu trabalho”, relembra. Garance e Schuman foram eleitos o casal mais ‘cool’ pela revista Grazia UK e pelo jornal The Guardian e figuram, individualmente, nas listas das pessoas mais influentes do mundo da moda na Europa e nos Estados Unidos. Ambos não são estilistas, nem criarão a próxima “it bag” – bolsa com design único que vira sonho de consumo das endinheiradas – da estação, mas seu olhar profundo sobre a moda é um ativo que os mantém no auge enquanto muitos oscilam entre a superexposição e o rápido ostracismo. “O que me inspira, na realidade, são pessoas que preenchem antes o interior que o exterior – e que têm muito a compartilhar com o outro. Se a pessoa é apenas um envelope, uma roupa e nada dentro, me canso rápido. E é isso que tento mostrar no meu blog”, conclui.
Confira algumas reflexões da blogueira
Moda brasileira
"Quando penso em Brasil, muitas coisas me vêm à cabeça. É evidente que trajes de praia são muito mais associados ao país. Mas o Brasil é muito mais que isso. Há São Paulo, onde a moda tem muito a ver com trabalho e há uma infinidade de referências. Conheci um jovem estilista chamado Vitorino Campos, da Bahia, que faz coisas interessantíssimas: vestidos pretos clássicos com um toque moderno. E tem também o Alexandre Birman, que me impressionou com seus sapatos. Eles são muito bem feitos, bonitos, trabalhados, com um design único. Não se parece com nada que é feito por aí. E isso é importante porque o Brasil precisa de identidade na moda."
Febres da moda, “it bags” e outras efemeridades
"Os produtos “it” existem desde sempre, mas eu, particularmente, não gosto de usar porque não gosto de pertencer a um momento de moda. As pessoas que compram querem estar conectadas com seu tempo, com a modernidade. Elas desejam ter um produto que as faça sentir parte de um período. Por exemplo, quando a marca Céline chegou, todas as meninas queriam ter uma bolsa Céline porque isso significava ser uma garota moderna, não gostar de exagero e prezar o trabalho. Nos anos 1990, todas as mulheres tinham ou queriam uma bolsa modelo baguette, da Fendi. Por outro lado, quando se entra nessa onda com exagero, aparenta que uma determinada pessoa está querendo mostrar status. Mas eu não julgo. É algo importante para muita gente. Há uma história por trás dessa vontade que cada um tem em adquirir um objeto de luxo, quer seja atual, quer seja clássico."
Dinheiro
"Inicialmente, o blog começou a me dar dinheiro porque era uma vitrine do meu trabalho. As pessoas viam o que eu fazia e me ligavam. Isso aumentava meu número de clientes em ilustrações. Depois vieram as fotos para editoriais de moda e marcas. Há dois anos, comecei a aceitar anúncios no blog. Busco equilibrar essas três fontes de renda para não ficar dependente de nenhuma. Não vou citar uma marca no meu blog só porque ela está anunciando. Se ela disser que não vai anunciar se eu não cita-la, tenho toda a liberdade de dizer não porque não preciso dela. Só assim consigo manter uma mídia em que as pessoas confiam."
Leitura
"Não leio blogs de moda. Só o blog do meu namorado, o The Sartorialist. Atualmente, o que mais vejo são 'tumblrs' de pessoas anônimas. Ah, também estou lendo Guerra dos Tronos. Estou amando! É genial!"
Família
"Meu pai é descendente de italianos e minha mãe, de argelinos e marroquinos. Essa mistura influencia totalmente meu trabalho porque, dificilmente, me sinto em casa em algum lugar. Essa falta de raízes me traz uma sensação de não pertencimento que acho que guardarei para sempre e, de alguma forma, reflete-se em meu olhar. Quando você é filho de imigrantes, você sempre tem algo a provar aos outros."
Projetos
"Não sei se sempre vou continuar no mundo da moda. Gostaria muito de dirigir um filme, algo no limite entre realidade e ficção. Tenho outros projetos que não posso comentar porque sou supersticiosa, mas, no momento, vou continuar com meu trabalho e minha série de vídeos para internet chamada Pardon my French."
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