Casamento real
Por que tudo deve permanecer igual na terra dos Windsor
Professor de história da UnB contraria a tese de que o casamento de William e Kate funcionará como sopro de renovação da monarquia britânica
Príncipe William e Kate Middleton: nova geração, velhos costumes de polidez (Chris Jackson/Getty Images)
Embora alimente previsões otimistas sobre o futuro da monarquia britânica, o casamento de William e Kate, marcado para esta sexta-feira, pode não simbolizar uma nova era como se proclama por aí. O regime monárquico no Reino Unido segue ao longo dos séculos como sólida instituição de estado, sem grande oposição, e inflexível ao frágil carisma de seus monarcas. Mesmo atos de extrema impopularidade, como o silêncio e a distância da rainha Elizabeth II diante da morte trágica da princesa Diana, em 1997, têm lá a sua justificativa.
Para o professor de história contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), Estevão Martins, é normal que membros da família real administrem sentimentos e aparências de modo a preservá-los do público. Normal e correto. Ao contrário de presidentes e primeiros-ministros que, no geral, só são notícia quando estão no poder, os membros da família real ficam em evidência de seu nascimento à morte. "A coroa britânica lida há centenas de anos com uma blindagem afetiva para uso externo. Isso pode parecer frieza, e por vezes é mesmo, mas decorre de um longo treino de separação entre interesse privado e interesse público, o que obviamente é difícil quando se vive dia e noite sob o escrutínio de todos."
Quanto ao carisma, é natural que uns provoquem mais comoção que outros, mas isto não quer dizer que a monarquia esteja em baixa ou que um jovem e belo casal seja capaz de abrir as portas do século XXI para uma instituição de costumes tão arcaicos. Pelo menos, não de maneira escancarada – nem mesmo com a utilização maciça de tecnologia, como vem acontecendo desde o anúncio do casamento real.
Aos que vêem o uso das redes sociais como indicativo de modernização da monarquia, um cético Martins afirma que o investimento em comunicação não passa de uma atitude empresarial. "É preciso lembrar que a família de Windsor é também, em seus diversos ramos, um conglomerado de empresas. Lançar mão de marqueteiros e de conselheiros de publicidade faz parte do negócio."
Nos três últimos reinados, aliás, não se abriu mão da tradição. No século XIX, ao longo de 63 anos, a rainha Vitória empreendeu uma cruzada moralista que despertou a ira dos súditos e a admiração da classe média. O casal George VI – aquele do filme O Discurso do Rei, vencedor do Oscar deste ano – e Elizabeth, a Rainha Mãe, se transformou em símbolo da resistência nazista durante a II Guerra Mundial, fato que, embora questionado, lhe rendeu grande popularidade. Já a filha deles, Elizabeth II, mundialmente respeitada, é também conhecida por ações autoritárias e conservadoras – por muitas décadas, ela se negou a reconhecer o relacionamento do filho Charles com Camilla Parker Bowles.
Já o especialista em monarquia britânica da universidade americana de Marquette, Steven Frieder, vê um cenário positivo para as próximas gerações. "William e Kate trazem a juventude e uma aparência do século XXI à monarquia. A rainha Elizabeth II tinha apenas 26 anos quando ascendeu ao trono, após a morte do pai. O príncipe William tem 28 anos e Kate, 29. Ambos foram criados de maneira mais 'normal' do que o príncipe Charles. Eu acredito que eles podem levar modernidade e pensamentos abertos à monarquia", afirma. Isso só deve acontecer, no entanto, com a morte ou a renúncia da rainha Elizabeth II e do príncipe Charles, o primeiro na linha de sucessão do trono.
Sucessão – E é justamente a modernidade que está a favor do príncipe de Gales, Charles. O professor da UnB e o especialista em monarquia britânica concordam que, apesar de divorciado – ele e Diana se separaram antes da morte dela –, o príncipe não estaria moralmente impedido de subir ao trono por sua relação conturbada com Camilla Parker Bowles. Outros tempos, estes em que o divórcio é tão trivial. Quem assistiu ao filme ganhador do Oscar deste ano, O Discurso do Rei, lembra que Edward VIII (tio-avô de Charles) abdicou do trono porque a igreja anglicana e o partido conservador não admitiam o casamento do rei com uma cidadã estrangeira e divorciada.
A modernidade também torna mais fácil a vida real de Kate Middleton. A menina de família emergente será a primeira plebeia a entrar para a árvore genealógica da família real em mais de 350 anos. Tal proeza foi realizada apenas por Anne Hyde, que se casou com o duque de York, James II, em 1660. Apesar de rumores de que a rainha Elizabeth estaria insatisfeita com o status inferior da noiva do neto, ela já concedeu a benção para o casamento.
"Ser plebeu ou plebeia deixou de ser um estigma. Ao contrário, enseja uma aproximação mais 'fashion', popular. Veja o que ocorre em Mônaco, onde Alberto II se casa aos 53 anos, em julho, com uma nadadora originária do Zimbábue", diz o professor Estevão Martins, da UnB.






Comentários
Prado
Classe media não é súditos ?
29.04.2011
ana
o casamento deve ser tratado,com mais carinho por ambas as partes.
28.04.2011
fernanda.danielewsky jaragua do sul
hum.
28.04.2011
Cláudio
Em uma época onde o casamento é dito como uma instituição falida é bom ver dois jovens subindo ao altar.
28.04.2011