14/07/2009 - 19:40
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Exclusivo VEJA.com | Literatura digital

Microcontos se espalham por celulares, internet e livros

Pode-se discutir amplamente a qualidade da literatura feita ou adaptada para o Twitter. Mas é inquestionável o fato de que ela traz consigo a marca de seu tempo. Outras iniciativas que também contam com os textos curtos inundam os celulares e internet - e atingem até o papel. Há casos de microcontos, que se esgotam em si próprios, e também de romances longos, publicados aos pequenos pedaços.

No Brasil, Samir Mesquita é exemplo de escritor que navega nesssa onda. Ele é autor do livro Dois Palitos, que reúne 50 microcontos de até 50 caracteres, presentes também no site homônimo. O interesse nos textos curtos surgiu quando ele participou de uma oficina literária comandada por outro praticante do gênero, o escritor Marcelino Freire, organizador de Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século. Em abril deste ano, Mesquita publicou seu segundo volume, chamado 18:30, também formado por micronarrativas, desta vez sobre possíveis pensamentos das pessoas enquanto enfrentam um engarrafamento.

Abaixo, exemplo de texto de Dois Palitos

O próximo projeto é um romance que terá um de seus capítulos acessível pelo celular. "Todo mundo tem um celular no bolso hoje, o que torna cada um apto a ser um leitor", opina. "Os microcontos podem ajudar a diminuir a distância que existe entre as pessoas e os textos literários, mostrando o quanto a leitura pode ser prazerosa."

As micronarrativas não têm critérios editoriais rigorosos, mas há quem as caracterize como nanocontos, se possuem até 50 letras; microcontos, quando têm até 150 toques; e minicontos, com 300 palavras ou 600 caracteres. A grande inspiração talvez esteja em uma manifestação literária nada recente. "O haicai é um exemplo secular de narrativa curta com bagagem e técnica relevantes. Em 17 sílabas se conta o mundo", lembra Monica Martinez, pós-doutoranda da Faculdade de Comunicação da Universidade Metodista de São Paulo.

Origens - O uso de histórias contadas em pílulas com auxílio da tecnologia tem sua origem em uma experiência ocorrida no Japão, em 2000. O romance Deep Love (Amor profundo), de Yoshi, foi lido por milhões de pessoas nas telinhas dos celulares. O texto foi enviado em capítulos aos usuários que acessavam um site de conteúdo especialmente destinado a aparelhos móveis.

Curiosos a respeito da história de uma prostituta adolescente em Tóquio, os usuários se tornaram leitores assíduos, colaborando também na divulgação boca-a-boca do conteúdo - cujo pagamento era voluntário. O sucesso foi tamanho que o romance logo se transformou em livro, mangá (história em quadrinho típica do país), série de TV e filme, abrindo portas para outras obras. A partir de então, o fenômeno keitai shosetsu (em japonês), ou "literatura para celular", ganhou o mundo.

(Cecília Araújo)

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