Celebridades
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Com menos sexo do que nos quadrinhos, Aline estreia na Globo
Os protagonistas: Pedro (Pedro Neschling), Aline (Maria Flor) e Otto (Bernardo Marinho) (Divulgação)
Aline é uma mulher apaixonada. Mora com dois homens, ama os dois e é amada por eles. Este triângulo amoroso, originalmente desenhado pelo gaúcho Adão Iturrusgarai para os quadrinhos, estreia como série na Rede Globo no dia 1o de outubro. Além de levar para as telas uma história concebida para outro formato, o programa Aline tem o desafio de falar ao grande público sobre uma relação a três. Não é a primeira vez que o assunto é tratado em rede nacional - basta lembrar Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 1998. Isso não significa, porém, que a polêmica esteja esvaziada.
Se nas tirinhas os termos libertina e ninfomaníaca caem tão bem na personagem quanto sua infalível minissaia, a versão televisiva deverá ser menos carregada nas tintas. Aline, interpretada pela atriz Maria Flor, será mais romântica e menos ávida por sexo do que no original - ela também não usará sempre a mesma roupa. "Não dava para colocar na televisão uma mulher tão livre como é a Aline dos quadrinhos", diz Mauro Wilson, roteirista do programa. Wilson trabalha na Rede Globo há 25 anos. Escreveu programas como Sai de Baixo e a A Grande Família. Nesta entrevista a VEJA.com, ele fala da difícil tarefa de transportar para a televisão a jovem modernete criada para o papel em 1996.
Como surgiu a ideia de adaptar as tirinhas para a TV?
Eu sempre tive vontade de adaptar Aline para a televisão, tanto pela personagem ter dois namorados, quanto pelo seu humor irônico, cínico, mas também romântico. Como sou amigo pessoal do Adão - nós trabalhamos juntos na TV Colosso [programa infantil da Rede Globo que foi ao ar de 1993 a 1997] -, conversamos e ele deixou que eu apresentasse um piloto à Rede Globo. O projeto foi aceito, a princípio, para ser um especial de fim de ano [transmitido em 2008]. Depois, como o programa teve uma boa audiência e foi considerado moderno e rápido pela cúpula criativa da emissora, decidiu-se por fazer os sete episódios que vão ao ar agora.
A rapidez de Aline é uma tentativa de reproduzir o efeito dos quadrinhos?
Sim. Para ter uma ideia, A Grande Família tem de 20 a 22 cenas por episódio. Aline, de 45 a 50. Também fizemos cenas que se fecham, situações que se resolvem, como numa tirinha.
O que mais vocês transpuseram da HQ para o programa?
Os personagens. Eles serem "underdog", perdedores, terem um parafuso a menos e se preocuparem apenas em arranjar dinheiro para pagar o aluguel e a noitada é algo que veio dos quadrinhos e que considero uma novidade na programação da Globo. E eles tinham que existir em São Paulo, não poderiam viver no Rio de Janeiro - eles não vão à praia, não são bronzeados e preferem viver a noite ao dia.
E como foi a adaptação dos diálogos? Vocês os reproduziram ipsis litteris?
No primeiro episódio, sim. Nos quadrinhos, os personagens não têm muita profundidade - porque não é necessário. Mas, quando você os transpõe para a televisão, os personagens deixam de ser desenhos e viram pessoas, então é preciso torná-los mais verdadeiros. É por isso que no programa a Aline tem um emprego, não usa sempre a mesma roupa e sua família ganhou mais destaque.
Você disse que o Adão já trabalhou com você na TV Globo. Por que não o chamaram para escrever o seriado?
Quando o projeto começou a andar, ele morava no Rio e até pensou em trabalhar com a gente, mas depois desistiu. E agora ele mora na Patagônia

Mas você conversou com ele enquanto escrevia o roteiro?
Não. Ele leu o projeto inicial e dali em diante deixou tudo na minha mão. Eu criei novos personagens e redirecionei outros. Os pais da Aline, por exemplo, ganharam muita força no programa e se tornaram uma história paralela: começam juntos, separam-se e depois ficam juntos de novo.
O Adão impôs alguma condição à adaptação?
Ele fez comentários. Mas eu digo que é como ver a filha sair de casa com outro homem: você fica apreensivo com o que pode acontecer - e o Adão, num determinado momento, ficou. O que é totalmente compreensível. Mas, quando ele soube quem dirigiria o programa e quem seria o elenco, ficou mais tranquilo. Ele também gostou do especial.
Como foi adaptar o lado mais polêmico da Aline?
Quando pensei em Aline para televisão, eu não imaginei uma comédia sobre o sexo, sobre uma mulher ninfomaníaca que tem dois homens. Eu imaginei uma comédia romântica, porque a Aline não só vive com dois homens, ela ama dois homens. E esses dois homens amam a mesma mulher e conseguem conviver com isso sem ciúme, sem briguinhas, sem joguinhos. A relação deles é muito verdadeira. Não dava para colocar na televisão uma mulher tão livre como é a Aline dos quadrinhos. No especial, eles nem se beijavam, mas no seriado vai ter beijo.
Beijo a três?
Não. Numa hora ela beija o Pedro e em outra o Otto.

Mas a graça da Aline, de ser alheia ao que é socialmente aceito, não vai se perder?
Não, não vai não. Ela vai continuar sendo uma mulher que é dona de sua vida, que tem uma personalidade forte, agressiva e dominadora. O que diminuímos foi a quantidade de sexo.
O que mudou do especial para o seriado?
O especial foi a apresentação da história: mostrou como o triângulo foi montado, como ele funcionava, como as pessoas o viam. Já o seriado vai contar histórias. Na primeira delas, a Aline lança um diário. Na segunda, ela acha que é perseguida por um vizinho que é um serial killer. Na terceira, ela acha que está gorda. Na quarta, ela tem uma crise enorme de TPM. Numa outra, os três passam um final de semana no Rio de Janeiro.
Nos quadrinhos, a Aline transa com outros homens sem ser o Pedro e o Otto. E no seriado?
Não.
Em Armação Ilimitada [seriado da Globo que foi ao ar nos anos 80], a protagonista Zelda (Andrea Beltrão) amava dois homens, o Juba (Kadu Moliterno) e o Lula (André de Biase). Vocês se inspiraram nesses personagens para fazer Aline?
Aline tem um quê de Armação. Mas Armação era uma comédia romântica de aventura e Aline é uma comédia romântica social. Os filmes sobre triângulos amorosos que vimos foram Jules e Jim (François Truffaut), Bande À Part (Jean-Luc Godard) e Os Sonhadores (Bernardo Bertolucci).
Você acha que a Aline é espelho de um grupo ou de uma geração?
Os personagens são meio hippies e há um clima de anos 60 e 70, quando as coisas eram mais livres e as pessoas tinham uma cabeça mais aberta. Num dos episódios, por exemplo, descobre-se que a mãe da Aline casou com o vestido de noiva da Rita Lee. Aliás, a Aline, se fosse cantora, poderia ser a Rita Lee.
Você acha que o seriado vai gerar polêmica?
Acho que sim. O que pode amenizar essa polêmica é o fato do Otto saber da existência do Pedro - e vice-versa - e os personagens serem inocentes e encararem a relação a três quase como uma brincadeira. Essa foi a forma que encontramos de conquistar as pessoas que podem achar que ali tem alguma coisa errada.
No final da série os três vão ficar juntos?
No último episódio, Aline Partida, eles vão reavaliar se é isso o que eles querem... Mas acabam juntos, sim. Até porque, se a série der certo, ela vai continuar e não teria sentido isso acontecer sem um deles.


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