08/10/2009 - 14:34
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Irvin Yalom

Leia trecho de Vou Chamar a Polícia

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(Reid Yalom)

VOU CHAMAR A POLÍCIA - Uma história de recalque e recuperação
(Do livro Vou Chamar a Polícia, editora Ediouro, 264 páginas, 49,90 reais)
 

Irvin D. Yalom e Robert L. Berger
(tradução: Lucia Ribeiro da Silva e Mauro Pinheiro)

Ao final do jantar do qüinquagésimo aniversário de nossa formatura em medicina, meu velho amigo Bob Berger, o único que me restou dos tempos de faculdade, fez sinal para conversarmos. Apesar de havermos seguido caminhos profissionais diferentes - ele na cirurgia cardíaca, eu na cura pela fala para corações partidos -, tínhamos estabelecido um vínculo estreito, que ambos sabíamos que duraria a vida inteira. Quando Bob me segurou pelo braço e me puxou para o lado, tive certeza de que viria algo de importante. Ele raramente me tocava. Nós, os "psis", costumamos reparar nesse tipo de coisa. Bob se aproximou de meu ouvido e disse, com sua voz áspera:

- Está acontecendo uma coisa séria... o passado entrou em erupção... minhas duas vidas, a noturna e a diurna, estão se juntando. Preciso conversar.

Entendi. Desde a infância, passada na Hungria durante o Holocausto, Bob levava duas vidas: uma diurna, na qual era um cirurgião cardíaco afável, dedicado e incansável; e uma noturna, em que fragmentos de lembranças pavorosas freqüentavam seus sonhos. Eu sabia tudo de sua vida diurna, mas, em nossos cinqüenta anos de amizade, ele nunca me revelara nada dessa vida noturna. E eu também nunca ouvira um pedido explícito de ajuda: Bob era reservado, misterioso, enigmático. O homem que cochichou no meu ouvido era um Bob diferente. Fiz que sim com a cabeça. Fiquei preocupado. E curioso.

Era estranho termos feito amizade na faculdade de medicina. Berger começa com "B" e Yalom, com "Y", o que já teria sido suficiente para nos manter afastados. Comumente, os alunos de medicina escolhiam os companheiros que estavam próximos pelo alfabeto: a dissecação de cadáveres, a parceria nos laboratórios e os ciclos clínicos costumavam ser distribuídos em ordem alfabética, e eu passava a maior parte do tempo com o grupo de S a Z - Schelling, Siderius, Werner, Wong e Zuckerman.

Talvez tivesse sido a aparência inusitada de Bob. Desde o começo, o azul vívido de seus olhos me atraiu. Eu nunca tinha visto um olhar tão trágico e distante, um olhar que chamava, flertava com o meu, mas nunca chegava propriamente a me encarar. Seu rosto, nada comum, era cubista, cheio de ângulos por toda parte, nariz e queixo afilados, e até as orelhas eram angulosas. A pele escanhoada era pálida. Faltava sol, pensava eu. Nada de cenouras nem de exercícios.

Sua roupa era amarrotada e de um marrom-acinzentado indefinível (nunca o vi usar uma cor viva). Mesmo assim, Bob me atraía. Tempos depois, eu ouviria algumas mulheres dizerem que, apesar de sem atrativos, ele era irresistível. Irresistível era meio forte, mas sedutor, talvez. Sim, eu estava fascinado por ele: no colégio e na faculdade, na minha provinciana Washington D. C., eu nunca conheci alguém remotamente parecido com Bob.

Nosso primeiro encontro? Lembro bem como foi. Eu estava estudando na biblioteca da faculdade de medicina, onde ele passava as noites fazendo pesquisas bibliográficas para o manual de patologia do professor Robbins (um texto que teria um futuro brilhante, um texto que instruiu, e ainda instrui gerações de médicos de todo o mundo). Uma noite, na biblioteca, Bob aproximou- se e me informou que eu já havia estudado o bastante para a prova de nefrologia do dia seguinte.

- Quer ganhar uma grana? - perguntou.- Robbins me deu trabalho demais e estou precisando de ajuda.

Aceitei prontamente a oferta. Fora uns trocados que eu conseguia vendendo meu sangue e meu esperma - a fonte tradicional de dinheiro rápido para os alunos de medicina -, eu era inteiramente sustentado pela receita da mercearia de meus pais.

- Por que eu? - perguntei.

- Andei observando você.

- E daí?

- Daí que você talvez tenha potencial.

Em pouco tempo, começamos a passar três ou quatro noites por semana na biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, trabalhando para o dr. Robbins, ou no meu apartamento, batendo papo ou estudando. Basicamente, era eu quem estudava - Bob parecia não precisar fazê-lo. Além disso, jogava paciência horas a fio, às vezes, ele dizia, para o campeonato da Nova Inglaterra, às vezes para o campeonato mundial.

Não demorei a ficar sabendo que ele era refugiado de guerra, que tinha sobrevivido ao Holocausto e, como exilado, chegou sozinho a Boston aos 17 anos.

Pensei em mim mesmo nessa idade — cercado por amigos, abraçado pela família, preocupado com gravatas largas, com meu jeito canhestro de dançar e com a política do grêmio estudantil. Senti-me ingênuo, mole e frouxo.

- Como você conseguiu, Bob? Quem ajudou? Você falava inglês?

- Nem uma palavra. Com o equivalente a uma formação no nono ano, entrei para o Boston Latin High School e, um ano depois, já era calouro em Harvard; e, então, ingressei na faculdade de medicina.

- Como? Tenho certeza de que, se tivesse me candidatado, eu não teria conseguido entrar em Harvard. E onde você morava? Com quem? Com padrinhos? Parentes?

- Quantas perguntas! Eu consegui sozinho, a resposta é essa.

Na nossa cerimônia de formatura, lembro que meus pais e minha mulher, com nosso bebê no colo, ficaram perto de mim, e vi Bob ao longe, parado sozinho num canto, balançando-se de leve sobre os calcanhares, agarrado ao diploma. Uma vez formado, ele fez o internato em clínica geral e residência em cirurgia geral, seguida pela residência em cirurgia geral, seguida pela residência em cirurgias torácica e cardíaca. Um dia depois de terminar o treinamento, ofereceram-lhe o cargo de chefe de cirurgia cardíaca num hospital universitário de Boston, e cinco anos mais tarde ele era professor titular de cirurgia e chefe do departamento de cirurgia cardiotorácica da Universidade de Boston. Publicou vários livros, lecionou e operou incansavelmente. Foi o primeiro cirurgião do mundo a fazer um implante parcial de coração artificial com sobrevivência de longo prazo. E tudo isso completamente sozinho no mundo no mundo - havia perdido todos no Holocausto.

Mas Bob não dizia nada sobre o passado. Eu morria de curiosidade, pois nunca havia conhecido alguém que tivesse enfrentado diretamente o horror dos campos de concentração, mas ele rechaçava minhas perguntas, repreendendo-me pelo voyeurismo.

- Talvez - provocava -, se você se comportar, eu lhe conte mais alguma coisa.

Eu me comportei, mas os anos se passaram sem que Bob se dispusesse a responder a perguntas sobre a guerra. Ao entrarmos na casa dos 60 anos, notei uma mudança. Primeiro, ele me pareceu mais receptivo e disposto a falar, e em seguida, com o passar dos anos, foi ficando quase ansioso para me contar de horrores passados.

Mas, será que eu estava pronto para ouvir? Algum dia estive preparado para isso? Só depois que comecei a estudar psiquiatria, a fazer minha própria análise e a dominar algumas sutilezas da comunicação interpessoal foi que captei uma coisa essencial no meu relacionamento com Bob. Não era apenas ele que se calava sobre seu passado: eu também não fazia questão de saber. Nós éramos cúmplices nesse longo silêncio.

Quando adolescente, lembro-me de ter ficado paralisado, horrorizado, nauseado com os noticiários do pós-guerra que documentavam a libertação dos campos de concentração. Eu queria olhar, achava que devia olhar. Aquelas pessoas eram o meu povo - eu tinha que olhar. Mas, toda vez que o fazia, ficava abalado até a alma, e ainda hoje não consigo bloquear a invasão daquelas imagens brutas - o arame farpado, os fornos fumegantes, os poucos sobreviventes esqueléticos com seus farrapos listrados. Eu tive sorte: poderia ter sido um daqueles esqueletos, se meus pais não houvessem emigrado antes de os nazistas assumirem o poder. E o pior de tudo eram as imagens das escavadeiras removendo aquelas vastas montanhas de corpos. Alguns daqueles cadáveres pertenciam à minha família: a irmã de meu pai fora assassinada na Polônia, assim como a mulher e os três filhos de meu tio Abe. Ele veio para os Estados Unidos em 1937, com a intenção de trazer a família, mas não houve tempo.
 

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