Celebridades
Artes
Jogos que prendem o espectador
No New Museum, na sexta-feira passada, a artista Rivane Neuenschwander estava de joelhos, fatiando o carpete numa galeria do terceiro andar quando procurou por microfones escondidos no assoalho e nas paredes. A equipe de segurança e vigilância havia escondido os aparelhos lá a pedido dela, sem que Rivane soubesse onde estavam. Agora os microfones estavam gravando sua procura, em preparação para uma apresentação.
A exibição de Rivane, "uma pesquisa de meio de carreira", da artista de 42 anos que abre na quarta-feira é chamada Um dia como os outros, mas definitivamente é algo fora do comum. "Não sei como vai funcionar", disse ela. "Talvez tenha que quebrar as paredes."
A pesquisa meticulosa foi parte de um novo trabalho, A Conversação, inspirado no filme de Francis Ford Coppola de 1974, no qual um especialista em escutas acredita que ele mesmo está sendo observado. "Lembre da maravilhosa última cena, quando Gene Hackman destroi seu apartamento procurando um microfone?", diz ela. "Esse tipo de paranoia me interessa e esse trabalho é uma mistura de acaso e controle. Não é pré-configurado, é como um jogo que termina quando eu encontro os microfones, que serão substituídos por alto-falantes para reproduzir o som da minha destruição deste espaço."
A figura do jogo aparece muito na arte de Rivane, especialmente quando pedem a participação do espectador. Ela é brasileira e parte de uma tradição de confundir a distinção entre criador e espectador presente em artistas modernos do país como Lygia Clark e Helio Oiticica.
"Acho que ela é completamente diferente de seus predecessores, mas eles são essenciais para compreender o trabalho de Rivane", disse Richard Flood, o curador do New Museum em Bowery, Nova York. "A noção de agente social é extremamente importante, e talvez o que ela e eles compartilhem seja o mais importante: a crença na arte como algo participativo".
Rivane também chama a atenção para a rica tradição popular do Brasil. Um de seus trabalhos mais conhecidos, I Wish Your Wish, apresentado em 2003, é derivado dos peregrinos da Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, na Bahia, que amarram fitas nos pulsos ou nos portões da igreja na crença de que quando caiam ou se desintegrem os desejos serão alcançados.
Nas variações de arte conceitual de Rivane, cada fita colorida é estampada com um dos sessenta pedidos deixados por espectadores. Os visitantes poderão pegar uma fita num dos 10 296 pequenos buracos na parede depois de escreverem novos pedidos num pedaço de papel de jogarem dentro do buraco. "No começo da carreira, estava muito interessada no efêmero, em materiais cotidianos que desaparecem ou são sujeitos à entropia, quando minha obra ficou presa ao rótulo de materialismo etéreo", explicou.
Em seu vocabulário artístico "sempre existe a presença do outro", disse o curador carioca Ricardo Sardenberg, crítico e editor de livros de arte que conhece a artista há muitos anos. "Ela começou trabalhando com coisas que são tipicamente brasileiras", disse ele. "Comida e objetos encontrados em feiras e ruas do país. Mas quando começou a viajar para fora do Brasil recolheu elementos da vida cotidiana de vários lugares para transformá-los esteticamente."
Outra obra, chamada Esculturas Involuntárias realizado em 2001 (mas como muitos de seus trabalhos, constantemente atualizados) tirou o título e inspiração das fotografias de Brassai de 1933. Ela vasculha bares procurando coisas tridimensionais que os clientes fazem enquanto bebem e conversam usando clipes, papel e plástico, que ela transforma em "obras de arte" ao montá-las em pedestais.
Além do lado brincalhão de seu trabalho, diz Rivane, "muitas vezes se enconde um lado mais sombrio e sério. Os brasileiros têm a reputação de serem alegres e divertidos, mas essa não é uma atitude ou temperamento que ela costuma dividir. Gosto do senso de humor, mas eu mesma normalmente sou mais melancólica que engraçada, diz. Acho que sou medrosa, que faço as coisas mal, e que a brincadeira que você vê é uma forma de escapar de minha timidez."
Por exemplo, disse ela, a esperançosa I Wish Your Wish é na verdade uma forma de permitir aos espectadores que articulem suas ansiedades mais primárias. "Se você pede saúde para você e sua família é porque tem medo de uma doença", disse. "Se você diz 'quero que Obama seja reeleito' é porque você teme um retorno da era Bush."
Nascida em 1967 em Belo Horizonte, a quarta maior cidade do Brasil, Rivane é uma descendente de suíços, portugueses e índios. Ele vem do que chama de "família de boêmios" e cresceu "feliz mas um pouco sem direção" - e às vezes solitária - numa casa modernista com um monte de esconderijos", disse ela.
"Sempre sou quieta e às vezes tenho dificuldade de comunicação, o que talvez explique porque procurei um caminho para me expressar", disse Rivane. "Primeiro tentei a música, violão e flauta, mas não consegui ir adiante por falta de talento, então tentei as ciências sociais, para me tornar antropóloga. Mas não tive paciência para estudar sociologia e economia e então desisti."
Depois de estudar artes em Minas Gerais, continua, "perdi um tempão tentando ganhar dinheiro e sobreviver". Mas trabalhou em seus próprios projetos e, em 1996, ganhou uma bolsa para estudar no Royal College of Art de Londres e uma galeria mostrou interesse nela. Ela ficou um tempo na Itália, Alemanha e Suécia antes de retornar ao país, onde vive com o marido alemão Jochen Volz, diretor do Centro Inhotim de Arte Contemporânea em Brumadinho, e com os
dois filhos.
As pessoas se surpreendem com ela no exterior porque tem um sobrenome alemão, cabelo claro e olhos verdes, diz o crítico e curador brasileiro Ivo Mesquita, ex-diretor da Bienal de São Paulo. Mas seu passaporte é brasileiro, ela tem sotaque mineiro quando fala português e sua linhagem artística é primariamente, mas não exclusivamente, brasileira.
Muito da influência estrangeira vem de filmes, livros e música. Por exemplo, Primeiro Amor, uma obra de 2005, é inspirada num romance de Samuel Beckett. O trabalho de Rivane é muito diversificado, e ela tem uma cabeça que trabalha sem parar, disse Sergio Bessa, do Museu de Arte do Bronx, que foi curador da exposição Tropicalismo Brasileiro em 2006, que incluiu uma obra de Rivane (baseada em quadrinhos de Zé Carioca, o personagem de Walt Disney, no qual o espectador era convidado a preencher os balões de texto dos personagens).


Mais informações







Comentários
marcele
aie e legal
19.07.2010