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Hollywood se rende à China

Ao conquistar o posto de segunda maior bilheteria do mundo, a China se tornou o mercado preferido da indústria de cinema americana, que tem feito de tudo para emplacar seus filmes no país, até mesmo o jogo da censura chinesa

Raquel Carneiro
  • Leonardo DiCaprio em 'Django Livre'. O filme de Quentin Tarantino passou por diversas alterações para ser aceito nos cinemas da China

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  • 'Os Vingadores' fechou 2012 como a maior bilheteria do ano, com 1,5 bilhões de dólares arrecadados. Do total, a China foi a segunda maior bilheteria do filme, atrás apenas dos Estados Unidos

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  • '007 - Operação Skyfall' arrecadou mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria em todo o mundo. A China foi o terceiro país que mais contribuiu para este total, e ficou atrás apenas dos EUA e Inglaterra

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  • 'Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge' entrou para a lista de filmes bilionários da história, com 1,1 bilhão de dólares em bilheteria. Os países que mais viram o filme foram EUA, Inglaterra, Alemanha, França e China

    Ron Phillips/Warner Bros/Divulgação

  • O filme 'O Hobbit' só conseguiu alcançar a marca de 1 bilhão de dólares depois de estrear na China, que fechou a conta no começo de 2013

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Um grupo de executivos americanos se encontra com autoridades chinesas. Os asiáticos sacam canetas vermelhas para riscar cenas de nudez, falas políticas inadequadas e filosofias que vão contra os ideais comunistas. Os americanos baixam a cabeça e voltam para casa com a mala cheia de trabalho. A cena, que poderia fazer parte de uma ficção sobre um mundo dominado por um governo totalitário, é realidade justamente na maior indústria do cinema mundial. Hollywood vem entrando no jogo e nas regras impostas pela China para abocanhar uma fatia do mercado local, que no ano passado se tornou o segundo em bilheteria, atrás apenas da dobradinha Estados Unidos e Canadá.

A China vendeu, em 2012, o equivalente a 2,75 bilhões de dólares em entradas para o cinema, 30% a mais que no ano anterior, em parte graças à mudança na lei que limita a entrada de filmes estrangeiros: a cota foi ampliada de 20 para 34. O mercado contribuiu de maneira decisiva para a marca alcançada por Hollywood em 2012, quando, pela primeira vez,  quatro filmes ultrapassaram a barreira de 1 bilhão de dólares em bilheteria. O empurrãozinho chinês levou para além dessa fronteira os blockbusters Os Vingadores, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e 007 - Operação Skyfall.

Qualquer transação com a China é sujeita a bruscas mudanças nas regras do jogo. Depois de aumentar a cota de filmes americanos no ano passado, o país criou novas regras tributárias que reduzem drasticamente o montante da bilheteria destinado aos produtores estrangeiros. Segundo reportagem do The Wall Street Journal, "o método de tributação está causando consternação em Hollywood, onde é visto como o último numa série de esforços que buscam limitar a capacidade dos estúdios americanos de obter lucros na China."

Ainda assim, as perspectivas são boas. Segundo uma estimativa da consultoria Ernst & Young, até 2020 a China pode superar a dupla EUA e Canadá, que arrecadou no ano passado 10,8 bilhões de dólares.

“No cinema, a questão financeira pesa. Os filmes são caros e a China é um aliado que Hollywood não vai ignorar”, diz Fernão Ramos, professor de cinema da Unicamp.

Proibições – É por somas como essas que os estúdios disputam as poucas vagas do circuito comercial chinês. O Brasil, particularmente, conseguiu poucas até agora. “Os dois únicos filmes brasileiros que chegaram aos cinemas aqui foram Na Estrada da Vida, na década de 1980, e Tropa de Elite 2, em 2011”, diz Anamaria Boschi, curadora do Festival Internacional de Cinema de Shanghai, radicada em Pequim desde 2009. Segundo ela, dentro da cota imposta pela China, há espaço para apenas 14 filmes em 3D – os vinte restantes são 2D. Vale lembrar que no Brasil a regra é de certo modo invertida: o governo impôs uma cota mínima para a produção nacional, de acordo com a qual cada cinema deve exibir longas brasileiros por pelo menos 28 dias no ano e grandes complexos com vinte salas precisam ter 11 filmes nacionais diferentes em cartaz ao longo de 644 dias. 

Para ficar entre os selecionados pelas autoridades chinesas, os longas devem ser submetidos ao órgão regulamentador do Partido Comunista, o Sarft (sigla para State Administration of Radio, Film, and Television). “A lista de temas de tabus inclui sexo, homossexualidade, violência, religião, superstição, abuso de droga e álcool e atividades criminais. Ficções com fantasmas e viagens no tempo também costumam ser vetadas, assim como qualquer tipo de crítica ao Partido Comunista”, explica Robert Cain, produtor e consultor de cinema americano, em seu site China Film Biz. “A ideia da censura é evitar que um filme incite ações contrárias ao sistema”, explica Severino Cabral, professor e diretor do Instituto Brasileiro de Estudos de China e Ásia-Pacifico (Ibecap).

E, mesmo passando por todo o processo de adaptação, o perigo de ser recusado permanece. Como ocorreu com o americano Django Livre no dia 11 de abril. Quentin Tarantino, diretor da produção, aceitou se adequar às exigências e alterou diversas partes do filme, que chegou a entrar em cartaz, mas, no dia da estreia, foi exibido por apenas alguns minutos e logo cortado. Novas alterações depois, em 26 de abril a China finalmente anunciou a liberação do longa, vencedor de dois Oscar este ano, de roteiro original e ator coadjuvante. Django estreia no circuito chinês em 7 de maio.

Para chinês ver

Confira filmes que foram alterados por Hollywood para agradar a censura chinesa.

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Homem de Ferro 3 (2013)

O novo filme da franquia Homem de Ferro, dirigido por Shane Black e produzido por Hollywood em parceria com a empresa chinesa DMG Entertainment, chegará aos cinemas da China com cenas adicionais sobre a cultura do país, filmadas em Pequim. Além disso, será inclusa uma sequência com Fan Bingbing, uma das mais importantes atrizes chinesas, que ficou de fora da versão destinada ao resto do mundo. 

Amizade colorida – Alterar um filme já pronto não é o único caminho seguido por Hollywood para obter a aceitação do restrito mercado chinês. O interesse de entrar no circuito é tão grande que a indústria americana vem até submetendo roteiros à aprovação prévia da Sarft, além de fazer versões exclusivas de longas para a China, prática que tende a se intensificar. Em texto publicado na última quarta-feira no site do jornal americano Huffington Post, o jornalista Peter Enav mostrou desconforto ao analisar como a intervenção chinesa pode alterar o conteúdo do que será produzido pelos americanos. “Em breve, em cartaz, no cinema mais perto de você: o Partido Comunista da China”, disse o jornalista.

Ainda é cedo para bater o martelo sobre a veemência do receio de Enav, mas as evidências de que as coisas estão mudando são muitas. Como, por exemplo, o próximo filme do ator Keanu Reeves, Man of Tai Chi, que foi filmado quase por completo no país oriental, e mistura inglês, cantonês e mandarim em seus diálogos. Nesta produção, ainda sem data de estreia, acontece a maior inversão de papeis até o momento: Reeves é o vilão, e o protagonista e mocinho será o ator chinês Tiger Hu Chen. Até pouco tempo, devido ao imaginário atrelado à Guerra Fria, a China era a vilã perante os EUA.

Como se vê, os americanos jogam duro para dobrar os chineses. “É difícil negociar com a China. Quando lançam um filme, os chineses decidem tudo: o mês de estreia, como vão divulgar, se vão exibir dois grandes filmes ao mesmo tempo, fazendo um competir com o outro”, diz Ramos, da Unicamp. 

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Na tentativa de abrir portas na China, em janeiro a Paramount Pictures assinou um contrato com a Shanghai Media Group, produtora estatal de filmes e conteúdo para TV, entre outros, de acordo com agência de notícia Xinhua. Duas bases da distribuidora serão montadas em Pequim para a produção do quarto filme da franquia Transformers. A parceria contará com a ajuda chinesa para a divulgação do longa que, por sua vez, oferecerá papeis para atores nativos, cenários locais e roteiro previamente aprovado pelo Sarft. 

No mesmo caminho, a DreamWorks anunciou em 2012 que produzirá o filme Kung Fu Panda 3 com investimento de empresas chinesas – e, é claro, com todo o processo de produção acompanhado por censores locais. E em agosto do ano passado o cineasta James Cameron abriu uma filial da sua empresa de efeitos especiais, a CPG, na China, em parceria com a estatal Tianjin North Film Group. Segundo o site da revista The Hollywood Reporter, o diretor de Titanic pensa até em inserir um alienígena chinês na sequência do sucesso de bilheteria Avatar, previsto para 2015. O dinheiro é mesmo um grande muso inspirador.

Confira o trailer do filme Man of Tai Chi, com Keanu Reeves

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