Celebridades
Entrevista: Fabien Gaffez
Franceses preferem até cinema chileno a brasileiro
Gaffez, 'olheiro' de Cannes: faltam estrelas ao cinema brasileiro, diz crítico (Alexandre C. Mota / Divulgação)
Convidado a participar da 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada no último sábado, o crítico Fabien Gaffez - da tradicional revista francesa Positif - foi a Minas Gerais como um garimpador: procurava filmes de novos diretores nacionais para levá-los à Semana da Crítica do Festival de Cannes. Ele gostou do que viu: "Tenho visto curtas e longas-metragens muito interessantes, principalmente documentários", diz. Também em Minas, Gaffez participou de mesa-redonda cujo objetivo era discutir a imagem do cinema brasileiro na Europa. Na entrevista a seguir, ele retoma o assunto e sentencia: atualmente, a produção do Brasil - que só levou uma Palma de Ouro, prêmio máximo de Cannes, há quase 50 anos - desperta menos interesse nos franceses do que a de alguns de seus vizinhos latino-americanos, caso de Argentina, México e até Chile.
Como os filmes brasileiros são vistos pelos estrangeiros?
É recorrente o pensamento de que a maioria dos filmes distribuídos no exterior fala do exotismo do Brasil, do carnaval e outros clichês. Claro que existe um interesse dos estrangeiros em descobrir as peculiaridades de um país de que pouco se conhece, ainda mais quando seu povo é tão diverso, como é o caso brasileiro. Mas essa curiosidade pelo "exótico" acontece mesmo entre habitantes de um mesmo país. Na França, por exemplo, povos do norte podem ter esse mesmo olhar estrangeiro ao descobrirem o sul em uma obra cinematográfica.
Qual produção brasileira recente o senhor citaria como relevante internacionalmente?
O filme que teve mais sucesso nas salas francesas nos últimos anos foi Central do Brasil (1998), de Walter Salles. Ele permaneceu por um bom tempo em cartaz, mesmo que em salas menores. Mesmo que Salles agora realize filmes internacionais, ele permitiu que se renovasse o nosso olhar sobre o cinema brasileiro. Outro exemplo é o longa A Via Láctea (2007), da cineasta brasileira Lina Chamie, que participou da Semana da Crítica em Cannes recentemente e acabou ganhando o público nas salas de cinema. Dos realizadores mais antigos, além de Glauber Rocha, claro, gosto muito de Carlos Reichenbach (diretor de Lilian M., Relatório Confidencial, de 1974), homenageado do próximo Festival dAmiens, na França. Ele pode não ser muito conhecido pelo grande público, mas difundiu o cinema brasileiro de forma muito interessante, na minha opinião.
Só um filme brasileiro ganhou o prêmio máximo do Festival de Cannes, a Palma de Ouro: O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, em 1962. Isso significa falta de importância do cinema brasileiro na França?
De fato, os filmes brasileiros encontram problemas para ganhar espaço no mercado europeu. É difícil para as produções estrangeiras em geral na verdade, todas aquelas que não são francesas ou americanas conquistar uma vaga nas salas de cinema. Para dar alguns números sobre a França: 45% dos filmes distribuídos são franceses, outros 45% são americanos, sobrando 10% para as demais nacionalidades.
Considerando-se a situação de outros países, a participação de filmes locais na França surpreende.
A França resistiu bem ao monopólio do cinema americano, quando comparada a outros países, praticamente invadidos pela sua produção. Os Estados Unidos continuarão sempre sendo mais fortes, de certa maneira. A questão que se coloca é: como fazer com que os outros filmes tenham espaço e fiquem mais tempo em cartaz? O papel dos festivais e da Semana da Crítica é exatamente esta: levar filmes desconhecidos para fora de seu país para que, graças à visibilidade que ganham na imprensa, possam ser beneficiados pelas distribuidoras ou comprados por outros países. Então, uma forma de lutar contra o monopólio americano nas salas é apostar nos festivais.
Quais países da América Latina estão à frente do Brasil na produção cinematográfica?
Houve uma época em que os filmes asiáticos, principalmente da Coreia do Sul, eram bastante consumidos na Europa. Há cerca de dois ou três anos, começou uma onda de filmes da América Latina, que se mostraram cada vez mais interessantes e numerosos. Os países mais importantes no momento são a Argentina, o Chile e o México. Mas tenho a impressão de que esse quadro pode mudar a qualquer hora, e há uma grande chance de a vitalidade do cinema brasileiro ser reconhecida em breve. Tenho visto curtas e longas-metragens muito interessantes, principalmente documentários, que encontraram uma renovação nos últimos anos.
Apesar disso, o Brasil está longe de chegar à Palma de Ouro novamente?
Para chegar à Palma de Ouro, o filme precisa estar na competição oficial, que não reflete necessariamente a realidade das coisas. Geralmente ganham diretores conhecidos, já consagrados. Por isso existem as competições paralelas, para que outros realizadores possam se tornar conhecidos e, quem sabe, chegar à seleção oficial. Outros prêmios, como Un Certain Regard [que premiou o brasileiro Heitor Dhalia pelo longa À Deriva], têm grande importância nesse sentido.
Durante o festival em Tiradentes, algum filme chamou sua atenção?
Assisti a dois documentários durante o Festival que me chamaram bastante a atenção: Terras (de Maya Da-rin) e Morro do Céu (de Gustavo Spolidoro). Ambos tratam de assuntos ligados a fronteiras e colônias estrangeiras. Apesar de retratarem uma realidade completamente diferente da nossa, tendo como cenário uma parte muito particular e precisa do mundo, reflete ao mesmo tempo questões bastante contemporâneas que geram identificação em públicos distintos. Foram filmes que me tocaram bastante e que, acredito, podem interessar o público francês.
O senhor acredita que essas produções irão de fato chegar ao público francês, ou ficarão restritas aos festivais?
Para o cinema brasileiro e da América Latina de uma forma geral, o primeiro ponto que chama a atenção do público - e, portanto, das distribuidoras - é a presença de "estrelas". É muito mais fácil distribuir um filme mexicano com o Gael García Bernal (ator de Amores Brutos, de 2000), por exemplo. O Brasil talvez não tenha estrelas como essa, mas as produções que chegam ao Festival de Cannes acabam ganhando o interesse de inúmeros cinéfilos na França. Temos um circuito de salas onde se pode assistir aos filmes que não são grandes produções. Eles não vão render milhões de euros em entradas, mas têm um público fiel, de uma forma ou de outra, e alguns autores acabam por ter seus filmes projetados.


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