21/10/2009 - 18:13
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Exclusivo VEJA.com | Cinema

Filme ajuda a entender o crime organizado no Rio, diz diretor

Maria Carolina Maia
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(Divulgação)

O filme 400 Contra 1 - Uma História do Comando Vermelho, do paulista Caco Souza, não se propõe a ser apenas o relato do nascimento de um dos principais grupos criminosos do país. Segundo seu diretor, é uma narrativa sobre a gênese do crime organizado no Brasil. Com estreia prevista para maio, a produção tem como base o livro homônimo de William da Silva Lima, único sobrevivente da primeira geração de líderes do Comando Vermelho. Assaltante de banco, Lima hoje está foragido. Nesta entrevista, Souza diz que, de certa forma, a história contada no filme ajuda a entender a atual situação do Rio de Janeiro.

Como a história do filme se relaciona com a violência atual do Rio de Janeiro?
O filme mostra como a Falange Jacaré, que teoricamente é a origem do atual Terceiro Comando, foi derrotada pelo Comando Vermelho, que surgia na mesma época [anos 1970], no presídio da Ilha Grande [RJ]. A Falange Jacaré era um grupo mais ligado a pequenos furtos, pequeno tráfico dentro da cadeia, venda de proteção. O filme trata do momento anterior ao confronto entre os dois grupos, desde a formação da Falange da Lei de Segurança Nacional [nome original do Comando Vermelho], sua ida para as ruas e o retorno aos assaltos a banco - quando o grupo passa a ser a quadrilha mais temida do Rio de Janeiro. O longa mostra ainda como, sistematicamente, os primeiros líderes do Comando Vermelho foram mortos pela polícia, exceto William. Com isso, saíram de circulação pessoas com as quais ainda se podia ter algum tipo de diálogo. Elas foram substituídas por outras, mais jovens e mais violentas. Quando você vê uma ação como essa agora, no Rio, você vê muita molecada, que não tem nada a perder, que não tem uma história, que não entende o mundo com outra visão que não a da violência pela violência. Acho que mudou o perfil do crime organizado não só pela chegada do tráfico de drogas, mas também porque mudou o perfil da liderança desse crime.

É uma dessas perseguições à liderança inicial do Comando Vermelho que dá Divulgaçãotítulo ao livro e ao filme?
Isso. O filme se chama 400 Contra 1 porque um desses líderes, o Zé Bigode, que no filme se chama Cavanha (o ator Fabrício Bolivera), se vê em uma situação diante de 400 policiais. Ele estava entocado em um apartamento na Ilha do Governador, de onde trocou tiros com a polícia por uma tarde e uma noite inteiras. Só na manhã seguinte conseguiram tirá-lo de lá, morto.

O filme Quase Dois Irmãos, da Lucia Murat, também enfoca esse momento de formação do Comando Vermelho. Como fazer algo diferente?
A diferença é que a gente conta a história pelo olhar do preso comum. Os presos políticos [com que os presos comuns conviveram e que serviram de ângulo para Lucia Murat] hoje são o poder, eles têm todo o poder de se colocar, de contar suas histórias, sejam elas verdadeiras ou não, estão aí gozando do prestígio desse passado não muito gostoso, mas que os acaba credenciando para determinados cargos. Os comuns, não. Eles foram morrendo ao longo dos anos, esquecidos e largados. E deu no que deu. No Rio de Janeiro, hoje, você tem de pedir permissão para entrar em alguns lugares, como em São Paulo.

Você já havia filmado um documentário de curta-metragem com William, o Senhora Liberdade, disponível no Youtube. Por que resolveu fazer um filme ao estilo ficcional em vez de um documentário de maior fôlego?
Na verdade, desde que eu li o livro, em 2002, a ideia era fazer ficção. O documentário surgiu como um modo de registrar as conversas que tive com o William ao longo dos anos de pesquisa. Mas o filme vai ter muito de realidade. Acho que 70% do filme será baseado na vida do William, que narrará a história em off.

Além do Fabrício Bolivera, que você citou, o elenco conta com o Daniel de Oliveira, como William, e a Daniela Escobar, namorada de William. É verdade que Teresa é uma psicopata?
A Teresa tem esse perfil de querer se dar bem e não medir esforços para isso. Mas essa parte é ficcional. A Teresa não existiu. Ou melhor, existiram algumas Teresas. Ela representa os casos amorosos do William nessa fase.

DivulgaçãoO Daniel de Oliveira passou por alguma preparação para viver William?
Todo mundo se preparou. A gente rodou as cenas internas de prisão no presídio do Ahú, em Curitiba, e conseguiu autorização do governo paranaense para a participação de uma colônia penal local nas filmagens, por um mês. Os presos fariam figuração, mas alguns acabaram fazendo cenas mais importantes que as previstas. A preparação dos atores foi feita dentro dessa colônia. Eles passavam o dia com os presos, faziam exercícios junto com eles - eram todos atores se preparando para o filme. Como parte da preparação, o elenco recebeu o roteiro sem diálogos, eu só entregava as falas na noite anterior à filmagem da cena. A minha ideia era que cada um soubesse o que ia acontecer, mas que não soubesse o que ia dizer, para que pudesse improvisar. Era para a gente ter um frescor, para não ter o cacoete da coisa decorada. Foi muito legal.

Seu próximo filme será uma cinebiografia da prostituta Gabriela Leite, criadora da grife Daspu. Histórias com um pé na realidade o atraem mais?
Eu acho que sim. A gente tem excelentes histórias para contar e às vezes fica correndo atrás de uma história original que não tem tanto significado. A história da Gabriela Leite é sensacional.
 

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