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"Desço ao jardim para conversar com as plantas que estão crescendo"
Para colher o depoimento de José Saramago que marcaria o documentário Janela da Alma, lançado em 2002, os diretores João Jardim e Walter Carvalho abriram mão de entrevistá-lo no Brasil, num período em que o escritor dava uma série de entrevista no país. Preferiram esperar o tempo em que, longe de compromissos, ele estivesse à vontade para falar sem pressa, em sua própria casa, sobre um tema recorrente em sua obra: a visão e a maneira como a humanidade, por vezes, parece estar cega.O resultado foi compensador. "Lembro de um momento em que ele fala, muito à vontade, sobre seu hábito de cuidar e frequentar o jardim da casa em Lanzarote, nas Ilhas Canárias: 'Já estou com certa idade. Desço ao jardim para conversar com as plantas que estão crescendo'", lembra João Jardim, que descreve o autor como alguém afável e de uma impressionante clareza ao expressar suas ideias.
O diretor teve a oportunidade de conversar com o escritor em seu escritório, no segundo andar da casa em Lanzarote, conheceu o jardim com plantas da região árida do arquipélago e pode testemunhar a maneira afetuosa com que Saramago lidava com a mulher, Pilar. "Ela o chamava sempre de José e demonstrava grande proximidade com o trabalho, com o pensamento dele", lembra.
Apesar de rápido, o encontro, de não mais que cinco horas, permitiu à equipe do filme entrar na intimidade do escritor. Encerrada a entrevista, os diretores pediram a Saramago uma indicação de restaurante em Lanzarote. "A comida na região é de baixa qualidade, há poucas opções. Ele, então, quis nos levar para almoçar e conduziu o motorista a um lugar simples, mas com ótimos pratos típicos", descreve Jardim.
Janela da Alma reuniu depoimentos de 19 pessoas com algum grau de deficiência visual - entre eles o músico Hermeto Paschoal, o cineasta Wim Wenders, o fotógrafo cego franco-esloveno Evgen Bavcar, o neurologista Oliver Sacks, a atriz Marieta Severo e o vereador cego Arnaldo Godoy. "Saramago sempre manifestou uma impaciência muito grande com a cegueira da nossa sociedade. Isso foi sensacional para o filme", diz Jardim.
O filme de 73 minutos tem, na versão em DVD, depoimentos extras. Entre eles, há 20 minutos adicionais das conversas com o escritor.
Em um dos trechos do filme, Saramago relativiza a acuidade visual com a maneira como interpretamos a realidade: "Vivemos dentro de uma possibilidade de ver que é a nossa. Não vê nem de menos nem demais. Se o Romeu da história tivesse os olhos de um falcão, provavelmente não se apaixonaria por Julieta. Os olhos dele veriam uma pele que provavelmente não seria agradável de ver. A acuidade visual do falcão não mostraria a pele humana tal como nós a vemos."

Documentário gravado à beira do Tejo
Quando o diretor Vítor Lopes teve a ideia de fazer um documentário sobre a língua portuguesa, José Saramago foi o primeiro nome que pensou entrevistar. Lopes, que é moçambicano naturalizado português e vive no Brasil há 30 anos, já conhecia o escritor, com quem tinha amigos em comum no Rio de Janeiro. Mas preparou-se para enfrentar uma barreira de agentes e assessores até conseguir uma entrevista. Nada disso. O mais complicado foi a agenda da produção do filme, porque Língua, Vidas em Português, de 2001, foi feito em seis países - Brasil, Moçambique, Índia, Portugal, França e Japão. Saramago foi um dos convidados que mais rapidamente aderiu ao projeto.
Lopes lembra que o escritor adorou o cenário para seu depoimento, que casualmente havia freqüentado na juventude. Era uma localidade à beira do Tejo, em frente a Lisboa, conhecida como Ginjal por ter sido no passado ocupada por grandes plantações de ginja, fruta utilizada na fabricação de um tradicional destilado português. Daí por diante, sempre que se encontrava com Lopes, Saramago lembrava "daquele fim de tarde que passamos no Ginjal".
Apesar da solicitude com que o convite foi aceito, a conversa não fluiu de imediato. Na hora de gravar a entrevista, Saramago estava mais formal do que de costume. "Ele tinha uma certa secura, bem lusitana, que escondia um ser afável. Nem sempre era fácil romper essa barreira", diz Lopes.
Nessa filmagem, quem conseguiu amolecer o escritor foi a jovem Júlia Moraes, que trabalhava na produção. Lopes notou que Saramago simpatizara com a moça e fez a apresentação: "Sabe que Júlia é neta de Vinicius de Moraes?". Foi o que bastou para fazer o homem afável voltar à cena.
Em seu depoimento, Saramago faz uma crítica bem-humorada ao número cada vez mais reduzido de palavras usadas na fala cotidiana. Diz que, algum dia, o homem vai grunhir ao invés de falar. E acaba por grunhir para a câmera.


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