30/07/2009 - 11:14
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Exclusivo VEJA.com | Entrevista

O cinema da favela desce o morro

Cecília Araújo
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(Divulgação)

Em 1961, cinco jovens universitários de classe média fizeram um filme em que o tema central eram as favelas do Rio. Marco do cinema novo, Cinco Vezes Favela tinha cinco episódios, e um deles, Escola de Samba Alegria de Viver, do alagoano Carlos Diegues, tinha como personagem central um presidente de um grêmio recreativo da favela que lutava contra as imposições comerciais do Carnaval.

Há três anos, Cacá Diegues, de 69 anos, decidiu gravar um novo filme: Cinco Vezes Favela, Agora Por Nós Mesmos. A ideia era trazer de volta a essência daquele de 1961 - cinco episódios tendo a favela como tema comum -, só que desta vez, eles seriam totalmente realizados por jovens cineastas dos morros cariocas. Desde o início do ano, mais de 200 jovens participaram de oficinas de preparação técnica, com professores como Fernando Meirelles, Walter e João Moreira Salles, Daniel Filho, entre outros, e começaram a escrever argumentos e a desenvolver coletivamente os roteiros - 84 foram selecionados para trabalhar nas gravações.

As filmagens começaram no dia 29 de junho e terminam até o próximo domingo. A fita está programada para estrear no primeiro semestre do ano que vem, e, apesar da dificuldade em conseguir o dinheiro para a produção - inicialmente 4 milhões de reais -, Diegues diz não abrir mão da qualidade técnica e artística, como conta nesta entrevista.
 

Em Cinco Vezes Favela, de 1961, os diretores eram jovens universitários de classe média. Como foi falar de uma realidade completamente diferente das suas?
Na época, o cinema brasileiro ainda estava engatinhando. Fizemos o filme dentro do Centro Popular de Cultura da UNE, onde os universitários se reuniam. Por sugestão do cineasta Leon Hirszman, criamos esse formato de cinco histórias, em cinco favelas, divididas entre os cinco diretores. Cada um escolheu um tema, e eu fiquei com o Carnaval. Sempre tive muito interesse no assunto, pois acho que o Carnaval é o teatro de rua mais importante da cultura ocidental. Para gravar o Escola de Samba Alegria de Viver, morei uns cinco dias no Morro do Cabuçu, de onde era a escola de samba (Unidos do Cabuçu); apenas o suficiente para conhecer as pessoas de lá. A favela era totalmente diferente em 1961: era quase rural, tinha criação de cabrito, porco, coelho, etc. - não era esse caos arquitetônico e habitacional que é hoje. E nós éramos cinco cineastas moradores do asfalto, generosamente decididos a levantar uma questão social.

Por que retomar o filme depois de 48 anos?
De uns 15 anos para cá, comecei a ter contato com organizações culturais de favelas do Rio e a perceber que existia um movimento cinematográfico interessante ali. Vi que faziam filmes digitais precários tecnicamente, mas cheios de talentos e novidades. Então, meu contato com a favela foi crescendo, usei muitos moradores como atores e técnicos em meus filmes - como em Veja Esta Canção, Orfeu e O Maior Amor do Mundo -, até que me deu um estalo há uns três anos: por que não fazer o Cinco vezes Favela, Agora por Nós Mesmos? Um filme não mais dirigido por jovens universitários de classe média, mas por jovens cineastas moradores dessas favelas? Assim nasceu o projeto.

Quando e como ele começou a ser colocado em prática?
Comecei a correr atrás de recursos, o que não foi fácil, pois as pessoas não acreditavam na possibilidade do sucesso do projeto. Não levavam muito a sério o fato de que havia verdadeiros cineastas nas favelas, como eu sabia que tinha. Até que, no final do ano passado, conseguimos o apoio da Globo Filmes, do BNDES, da Rio Filmes, e aí fomos tocando o projeto. No início de 2009, organizamos sete semanas de oficinas técnicas preparatórias, em direção, produção, arte, fotografia, som, edição, interpretação. E escolhemos os 84 jovens que estão fazendo o filme agora, dos quais sete são diretores, todos moradores de favelas. Eles foram escolhidos por critérios de aproveitamento nas oficinas e currículo. Todos já tinham feito pelo menos um curta em DV ou mini DV, com essas câmeras domésticas.

No novo Cinco Vezes Favela, foi preciso algum acordo com traficantes para conseguir filmar?
Meu contrato foi com os moradores locais, as associações e as ONGs com as quais estou trabalhando. Nunca fui incomodado por ninguém, mesmo porque, quem está fazendo os filmes são os próprios moradores dessas comunidades. Não há interesse em perturbar a vida deles. Então, eu não paguei nada a ninguém, nem fiz acordo com traficantes. E o clima das gravações é não só pacífico como de alta colaboração. Agora mesmo estou vindo das filmagens do último episódio e presenciei uma cena emocionante: os moradores pedindo silêncio para não perturbar a gravação.

Qual é a importância de levar o cinema à favela?
Eu não levei o cinema à favela; eles já faziam filmes quando cheguei lá. Apenas estou dando a eles condições iguais às que eu tenho para fazer meus filmes. O cinema deles é marginalizado; seus filmes só passam entre eles mesmos. O meu papel é o de derrubar esse muro e fazer com que se manifestem dentro da corrente principal do cinema brasileiro, dentro disso que a gente entende por economia formal do cinema. Eu uso sempre esta metáfora para explicar melhor: é uma espécie de trem que sai de uma estação e deixa o produto em todas as plataformas: salas de exibição, televisão, DVD, etc.
 

Os diretores ainda são iniciantes. Isso não compromete a qualidade técnica?
Este não é um filme piedoso, uma obra social, nada disso. É um filme profissional, para dar dinheiro, para ser um grande sucesso de público, para ganhar prêmios nos festivais. É com esse intuito que a gente está fazendo o filme. Desde o primeiro momento em que começamos com as oficinas de roteiro, sempre falo: nós não temos de correr atrás de elogio porque somos pobres, mas pela qualidade do que a gente faz. Estamos lutando para que o filme seja técnica e artisticamente perfeito.

De que forma você está tornando isso possível?
Há uma coordenação bastante presente. Os jovens estão o tempo todo rodeados por profissionais - gente com experiência na economia formal de cinema -, como fotógrafo, editor, diretor de som, produtor etc. Cada equipe tem de 15 a 20 deles, dependendo do episódio. Eles têm os mesmos recursos que eu tenho para fazer meus filmes, um orçamento muito semelhante ao que eu tenho também. Não há desculpa para os filmes não serem bons. A minha meta é capacitar essa mão-de-obra jovem e nova no mercado formal de trabalho do cinema e fazer com que se tornem porta-vozes de si mesmos. Quero mostrar que eles podem contribuir de algum modo e de modo decisivo para a evolução do cinema brasileiro, trazendo novas ideias, novos temas e novos modos de fazer.

E eles estão dando conta do recado?
O resultado tem sido surpreendente, pois os filmes deles não se parecem em nada com aqueles que nós, cineastas da classe média, fazemos nas favelas. Não que eu tenha algo contra cineastas da classe média que fazem filmes nas favelas. Eu mesmo já fiz vários, e até voltaria a fazer se fosse o caso. Também adoro Cidade de Deus, gosto muito de Tropa de Elite. Mas os filmes feitos pelos próprios moradores são diferentes: têm outro humor, outra atmosfera, outra esperança. São filmes sobre educação, ética, amor. Não me lembro de nenhum filme que seja parecido com os deles. Não estou dizendo que seja melhor ou pior; não me cabe dizer isso. Mas posso garantir que têm uma singularidade no enredo, no modo de abordar e narrar as histórias. É como se fossem parte da construção de uma identidade. Como se os jovens estivessem dizendo através dos filmes: "Nós somos assim", ou "nós queremos ser assim". Não estão presentes os estereótipos que a sociedade tem das favelas, e isso certamente vai surpreender o público.
 

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daniely ferreira santos da silva

eu adorei esse filme e muito legal eu ja assisti

21.07.2010

 

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