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Evento em São Paulo discute a body art
Suspensão (Divulgação - Vinicius Leone)
O paulistano Luciano Iritsu é piercer, um profissional especializado na colocação de piercings em quem deseja aplicar uma pequena jóia no nariz, por exemplo, ou em alguma outra parte do corpo. O piercing, assim como a tatuagem, é uma das manifestações da chamada body art ou body modification - intervenção no corpo como forma de expressão pessoal ou artística e tema de um evento que ocorre neste sábado, dia 17, em São Paulo. Ao lado do artista e historiador T. Angel, Iritsu comandará a abertura da Frrrkcon, a maior convenção de praticantes e profissionais da arte de modificar o corpo do país.
Dividido em duas partes, o evento terá, das 13h às 18h, palestras e performances que acontecerão no entorno do estúdio de Iritsu Piercer, localizado na Rua Cardeal Arcoverde, no bairro de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, e nas ruas do entorno. A partir das 23h, a Frrrkcon será transferida para o Inferno Club, casa noturna sediada na Rua Augusta, região central de São Paulo.
A madrugada será embalada por bandas de música, exposição de fotografias, pinturas de telas ao vivo e freak shows - espetáculos que incluem camas de espetos de ferro e suspensões: ganchos colocados diretamente na pele para que as pessoas sejam erguidas vários centímetros do chão. "Ao colocarmos parte do evento nas ruas pretendemos desmitificar a modificação do corpo", afirma Iritsu, um entusiasta da body modification.
Sua primeira experiência nesse universo aconteceu em 1997, com a colocação de um piercing. Depois, vieram as tatuagens. Em seguida, os alargadores da orelha e do septo nasal e as duas scars (figuras feitas com cortes que se transformam em cicatrizes). Um skin diving - placa de metal presa diretamente na pele - foi colocado no pescoço. Para finalizar, três implantes (peças de um material semelhante ao silicone), tornaram muito mais convincentes as ondulações da cauda de um dragão desenhado no braço.
No Egito, perfurar o umbigo era privilégio dos nobres - "As modificações corporais existem há quase 5 000 anos", conta Ronaldo Sampaio Snoopy, vice-presidente do Sindicato dos Estúdios de Tatuagens e Body Peircing do Estado de São Paulo (Setap). "O que é feito hoje nada mais é do que a evolução dessas perfurações primitivas". No Egito, perfurar o umbigo era privilégio dos nobres. Os japoneses mediam a sabedoria pelo alargamento dos lóbulos das orelhas e, nas tribos africanas, estética e intervenções corporais andam de mãos dadas até hoje. No Brasil, as modificações chegaram de forma mais intensa em 2001 pelas mãos de André Fernandes. Depois de ler uma revista sobre diferentes formas de colocação de piercings, o brasileiro viajou para a França, a Venezuela, a Finlândia e os Estados Unidos para se aperfeiçoar antes de trazer as novidades para o país.
Riscos e cuidados - Na Frrrkcon, Fernandes participará de uma mesa redonda que discutirá a body art no mundo. "O principal problema no Brasil é a falta de experiência de muitos profissionais", acredita o artista, que se especializou em todos os procedimentos existentes, exceto na amputação (algumas formas de modificação incluem a retirada de membros do corpo, principalmente dedos)."No exterior são necessários anos de treinamento para que uma pessoa esteja apta a trabalhar com isso". O aviso é endossado por Snoopy. Dos 200 000 estúdios existentes no Brasil, apenas 30% são legais e seguem todas as leis e normas de higiene.
"Uma interveção mal feita pode causar uma infecção grave e até mesmo a necrose do local", explica Snoopy. O profissional precisa ter conhecimento técnico em enfermagem e cursos de biossegurança, esterilização, controle de infecções, entre outros. Antes de qualquer procedimento, os interessados assinam um termo de compromisso autorizando qualquer tipo de modificação. Se agir sem os cuidados necessários, o profissional pode ser acusado de prática ilegal da medicina.
Em seu site (www.sindicatodostatuadores.com.br) o Setap disponibiliza uma lista de estúdios capacitados. Nesses locais, um piercing custa a partir de 60 reais, dependendo da joia escolhida. O microdermal, uma placa de metal pouco maior que a do skin diving, 150 reais. O valor mínimo das scars e tatuagens é 120 reais. No caso de desenhos muito complexos, que precisam de vários dias para ser finalizados, é cobrado 350 reais por sessão. Para procedimentos mais complexos, é possível que o preço tenha de ser combinado diretamente com os especialistas.
É difícil não se assustar com esse universo num primeiro momento, mas ao contrário do que muitos imaginam, ele está longe de ser composto por excêntricos mal encarados que enxergam a dor como forma de autoflagelação. As protuberâncias na pele lembram chifres demoníacos, os alargadores abrem rombos até na lateral do nariz, as cicatrizes brotam em qualquer espaço de pele livre e as tatuagens não são mais contadas por unidades, mas por membros ("um braço", "duas pernas", "o pescoço"). Há intervenções ainda mais ousadas. Apesar disso, os adeptos da modificação do corpo são, no geral, pessoas calmas e sensíveis.
"O estranhamento acontece porque essa forma de estética corporal se afasta do modelo aceito pela sociedade", afirma a antropóloga Claudia Machado de Souza, que prepara a tese de mestrado sobre o tema e conduzirá a palestra Perspectivas Antropológicas do Corpo e da Body Modification durante a Frrrkcon. 'Essas pessoas não formam uma tribo homogênea. Alguns encaram a arte de modificar o corpo como algo estético, outros, espiritual. Há também as tendências artísticas e lúdicas. No fundo, é a expressão da subjetividade de cada um".


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