Coleira de Ouro, premiação para "atores" de quatro patas, que tem sua primeira edição nesta segunda-feira, mostra como os cachorros vêm roubando a cena na indústria do cinema – e na sociedade americana
Carol Nogueira
O cão Uggie, do filme O Artista, no tapete vermelho do Globo de Ouro
(Getty Images)
O Artista
(The Artist, França, 2011)
Direção: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman
Sinopse: Em 1927, George Valentin (Jean Dujardin) é dos grandes nomes do cinema mudo em Hollywood, mas sua vida se transforma radicalmente com a chegada dos filmes falados. Acreditando que esta é apenas uma moda passageira, ele se recusa a aderir à nova técnica. Ao tentar produzir seu próprio filme mudo, em pleno crash da bolsa de 1929, se endivida e cai no anonimato. Ao mesmo tempo, ele conhece a dançarina Peppy Miller (Bérénice Bejo), que está prestes a se tornar uma grande estrela do cinema, agora falado. A transição vivida pelo personagem homenageia a própria história do cinema, e de forma emocionante.
Prêmios: Três Globos de Ouro (melhor filme, melhor trilha sonora e melhor ator para Dujardin); concorre a dez categorias no Oscar
Um novo prêmio tem movimentado o cinema americano. Martin Scorsese já pediu a inclusão de seu novo filme, A Invenção de Hugo Cabret, na lista de indicados. O ator Antonio Banderas ficou enciumado e sugeriu que se criasse uma categoria diferente só para que Gato de Botas, animação em que pôs a voz, também entrasse no páreo. E até o renomado produtor Harvey Weinstein – chamado de “Deus” por Meryl Streep no Globo de Ouro – já deu seu aval à novidade. Mas este não é um prêmio de cinema convencional. Ao invés de atores, suas estrelas são cães. E, no lugar de troféus, são entregues coleiras douradas -- pode parecer brincadeira, mas Hollywood está levando muito a sério o prêmio Coleira de Ouro, cuja primeira edição acontece nesta segunda-feira.
Tudo por causa do cãozinho Uggie, revelação do filme O Artista, que estreou na última sexta-feira no Brasil. Este Jack Russell Terrier de 10 anos de idade é apenas um coadjuvante na história do protagonista George Valentin (Jean Dujardin), mas rouba a cena no longa sem esforço. E tem feito o mesmo em todas as premiações pelas quais passou, como o Festival de Cannes, onde venceu a Palma Canina – prêmio concedido há 11 anos pela imprensa internacional em paralelo à programação oficial –, e o Globo de Ouro, onde até desfilou pelo tapete vermelho e tirou uma foto, com uma das patas sobre um troféu, que correu o mundo. Para o Oscar, ele já está ensaiando um esquete ao lado do apresentador, o ator Billy Crystal.
Como se vê em muitas cenas de O Artista, Uggie imita bem gestos humanos: cobre os olhos com as mãos (no caso, as patas) quando está envergonhado e cai no chão após levar um tiro (de mentirinha, claro). No longa de Michel Hazanavicius, ele não só é o cãozinho inseparável de Valentin, uma estrela do cinema mudo, como também atua nos filmes ao lado do dono. Tem, ainda, um papel fundamental para o desfecho da história -- que não figura aqui para não estragar o fim.
E Uggie não está sozinho na carreira de cão coadjuvante -- não se contam aqui casos como os de Lassie e Rin Tin Tin, estrelas absolutas de suas produções, e outros filmes "pipoca". Em vários dos melhores longas de 2011, cães têm papéis de destaque (veja abaixo os que concorrem à Coleira de Ouro e relembre alguns outros cães coadjuvantes memoráveis).
Para Alan Siskind, criador do prêmio e diretor da Dog News Daily, empresa contratada pelos estúdios de cinema para divulgar os cães “atores” dos filmes, o destaque dos cachorros no cinema é crescente e acompanha a mudança do cão na sociedade. “Os cães têm hoje um papel mais importante na família americana. Como a maioria das casas é formada por pais cujos filhos já foram para a faculdade, ou jovens solteiros, o animal é visto como um membro da família. É por isso que o mercado de produtos para cães aumenta a cada ano”, afirma. E deve crescer ainda mais assim que o Coleira de Ouro passar a ser transmitido pela televisão americana, o que deve acontecer já no ano que vem, segundo Siskind. Mas, por enquanto, quem quiser assistir à entrega do prêmio na segunda terá de se contentar em sintonizar o streaming ao vivo oferecido pelo site da revista The Hollywood Reporter.
Treinamento – Muita gente duvida dos truques realizados pelos cães nos filmes. O diretor Martin Scorsese, por exemplo, teve de ir ao programa de televisão de Ellen DeGeneres na última terça-feira explicar que as expressões faciais feitas pela doberman Blackie em A Invenção de Hugo Cabret (que tem onze indicações ao Oscar) não ganharam nenhuma ajudinha da computação. De acordo com Scorsese, a cachorra fez tudo sozinha e motivada por um quitute bem incomum: uma pasta de anchovas.
Adestradores consultados pelo site de VEJA garantem que é possível treinar qualquer cão para ser um ator de cinema, mas há particularidades entre eles. “Cada cachorro tem o seu talento. Algumas raças são mais indicadas para certas atividades do que outras. Se precisamos de um cão feliz, que tope tudo, escolhemos o labrador ou o golden retriever. Esses cães são símbolos de sucesso da família de classe média”, explica o adestrador André Barreto. Ele mesmo é dono de uma cadela “atriz”, a border collie Bisteca, que no ano passado interpretou a cadela Bibi no filme Meu País, de André Ristum, ao lado de Rodrigo Santoro.
O trabalho com cães “atores” pode ser um negócio lucrativo, conforme conta outro adestrador, Glauco Lima. “Para o cão fazer apenas figuração, só ficar quietinho no set de filmagens, cobramos pelo menos 2.000 reais. Algumas coisas variam, como o tipo e o tempo de treinamento – que pode levar de três dias a três meses – e a quantidade de cães. Geralmente, são treinados dois ou três. E, dependendo da quantidade de dublês que eu tiver de levar, além do tipo de treinamento a que devo submetê-los, o valor pode chegar a 50.000”, conta Glauco, que chefia uma equipe de outros sete profissionais.
“Não é um trabalho muito fácil. Há coisas que você só aprende com o tempo, como algumas lições de enquadramento. Aprendi, por exemplo, que o coração de um filme é o fotógrafo e o diretor. Então, tento ficar perto deles para descobrir qual é o limite da minha aproximação com o cão no set”, afirma Glauco. André diz que as técnicas de plano e contra-plano, em que a câmera filma primeiro o ator e depois o cão, são muito usadas, e que o animal tem grande facilidade de adaptação. Um dos mais adaptáveis é justamente o Jack Russell Terrier, mesma raça dos favoritos Uggie e Cosmo (o último interpreta o cão Arthur no filme Toda Forma de Amor). “Além de simpáticos, são inteligentes e cheios de energia. Como se parecem muito com os vira-latas, as pessoas acabam se identificando”, diz André.
E ainda resta alguma dúvida de qual cão vai levar o prêmio?
Cães em Hollywood
Relembre alguns dos principais papéis destes atores de quatro patas
1 de 7
Cosmo, o Arthur de Toda Forma de Amor
Assim como Uggie, Cosmo é um Jack Russel Terrier. No filme, ele interpreta Arthur, o cão de Hal (Christopher Plummer). Quando seu dono morre, ele vai morar com o filho de Hal, Oliver (Ewan McGregor), e acaba ajudando o rapaz a lidar com a morte do pai. É entre Oliver e Arthur que acontecem alguns dos principais diálogos do filme -- os do cão aparecem em formato de legenda. Um dos melhores é quando Oliver se apaixona por uma garota, e Arthur pergunta: “Já estamos casados?”. Em muitas dessas cenas, ele funciona como a voz da consciência do dono. Está concorrendo ao Coleira de Ouro.
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Cosmo, o Arthur de Toda Forma de Amor
Assim como Uggie, Cosmo é um Jack Russel Terrier. No filme, ele interpreta Arthur, o cão de Hal (Christopher Plummer). Quando seu dono morre, ele vai morar com o filho de Hal, Oliver (Ewan McGregor), e acaba ajudando o rapaz a lidar com a morte do pai. É entre Oliver e Arthur que acontecem alguns dos principais diálogos do filme -- os do cão aparecem em formato de legenda. Um dos melhores é quando Oliver se apaixona por uma garota, e Arthur pergunta: “Já estamos casados?”. Em muitas dessas cenas, ele funciona como a voz da consciência do dono. Está concorrendo ao Coleira de Ouro.
2 de 7
Denver, o Skeletor de 50%
Denver é um cão da raça greyhound, famosa pela altura de suas patas. No filme, seu papel é o de um cão de corrida aposentado que é adotado por Rachel (Bryce Dallas Howard) para ajudar o namorado, Adam (Joseph Gordon-Levitt), no processo de cura de um câncer. O cão está sempre ao lado de Adam no filme, mas não gera empatia no público como Uggie e Cosmo. Também concorre ao Coleira de Ouro.
3 de 7
Hummer, a Dolce de Jovens Adultos
É um lulu da pomerânia branco que vive na bolsa da dona, Mavis (Charlize Theron), assim como o chihuahua Bruiser dos filmes Legalmente Loira. Venceria fácil o prêmio “cachorro fofinho do cinema” desta temporada. E, aliás, concorre ao Coleira de Ouro. O filme estreia no dia 2 de março no Brasil.
4 de 7
Maximiliam, a Blackie de A Invenção de Hugo Cabret
Esta doberman é a candidata controversa da primeira edição do prêmio Coleira de Ouro, do qual só se tornou concorrente após uma forte campanha do diretor Martin Scorsese. Blackie é tão boa atriz que especula-se que tenha havido ajuda de computadores para dar uma forcinha em suas expressões faciais. Scorsese nega e diz que toda a motivação de Blackie veio de um quitute incomum: pasta de anchovas. Ele seria o estímulo para a atuação da cachorra em Hugo.O filme estreia dia 17 no Brasil.
5 de 7
Jill, o Verdel de Melhor É Impossível
Com este personagem do filme de 1997, Verdel virou o griffon de Bruxelas mais famoso da história. No longa, ele derrete o coração de Melvin Udall (Jack Nicholson), um escritor chauvinista que tem horror ao vizinho gay, Simon (Greg Kinnear), mas se vê obrigado a cuidar do cão quando o vizinho vai parar no hospital. O cão acaba lhe ajudando a "ver o melhor lado da vida", como a letra da música que ele canta nesta cena. E a ganhar a simpatia do público.
6 de 7
Max, o Milo de O Máskara
Max é um cão da raça -- adivinhe só -- Jack Russell Terrier. Ele é o cãozinho inseparável de Stanley Ipkiss (Jim Carrey), um bancário que se torna o personagem-título após encontrar uma máscara mitológica caída em um rio. Na cena, o cão usa a máscara, em uma das cenas mais célebres do filme.
7 de 7
Mushu, o Frank de Homens de Preto
Embora se pareça com um cão normal da raça pug, Frank na verdade é um extraterrestre. Se destacou por ser, de todos os cães da lista, o único que “fala” (a voz é do ator Tim Blaney). E porque a cena em que Will Smith o pega cantando a música Who Let the Dogs out dentro do carro é bem engraçada.