Fotografia
'As mulheres atiram melhor que os homens', diz fotógrafa americana que pesquisou atiradoras
Lindsay McCrum reuniu em livro fotos de atiradoras que conheceu entre 2007 e 2010, nos EUA
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A íntima relação entre as mulheres e as armas
Trabalho da fotógrafa Lindsay McCrum reúne retratos de atiradoras de diferentes partes dos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, 20 milhões de mulheres possuem armas. O número estrondoso chamou a atenção da fotógrafa americana Lindsay McCrum, que cruzou o país, entre 2007 e 2010, atrás de histórias de atiradoras. Ela quis humanizar uma relação polêmica e geralmente estereotipada. “A história dessas mulheres nunca foi contada sob um ponto de vista individual e humano. Elas são sempre taxadas de masculinizadas e sanguinárias e seu universo nunca é conhecido de verdade.” O resultado das pesquisas de Lindsay foi o livro Chicks with Guns (Moças Armadas, em tradução livre para o português), que reúne 280 retratos de atiradoras. Nenhuma delas lembra Angelina Jolie no filme Tomb Rider. Ou Uma Turman em Kill Bill.
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A observação acurada da relação entre mulheres e armas fez de Lindsay uma entusiasta do gatilho feminino. “Elas têm consciência de que a arma deve proteger pessoas e não ameaçá-las”, diz. “E mais: alguns instrutores de tiro me disseram que as mulheres são melhores atiradoras do que os homens.” Confira abaixo a entrevista de Lindsay McCrum.
Como você teve a ideia de fotografar mulheres com suas armas? A ideia surgiu ao ler um artigo numa revista de economia. O texto era sobre caça e armas, atividades que representam um negócio enorme nos Estados Unidos. Na época, eu estava envolvida com alguns ensaios, um deles sobre crianças fantasiadas. Fotografei meninos com roupas militares e armas de brinquedo e também garotinhas em vestidos de festa. Foi aí que percebi que o sexo é como uma prisão, define muitas coisas sobre nós. Tive a ideia de fotografar mulheres com armas para mexer com esses limites.
Como você chegou às mulheres fotografadas? Foi tudo no boca a boca. Eu comecei a fotografar algumas atiradoras e elas ficaram tão empolgadas que me recomendavam amigas e parentes. Assim, o projeto cresceu. Esse frisson se deveu ao desejo delas de serem retratadas de maneira realista e respeitosa. Há um estereótipo que as taxam de mulheres masculinizadas e sanguinárias.
Como essas mulheres se aproximaram das armas? Muitas aprenderam a atirar com os pais, outras veem a arma como uma espécie de legado de família. Numa das fotos, uma mulher segura a espingarda e seu bebê no colo ao mesmo tempo. Ela conta que aprendeu a atirar com o pai, que, por sua vez, foi treinado por seu pai, e ela espera um dia poder ensinar a seu filho, também. Para ela, caçar é algo ligado à família, a memórias de infância, não tem nada a ver com matar animais. Algumas mulheres realmente veem a arma como um instrumento de defesa, mas essa é a minoria. Eu fotografei caçadoras, competidoras de tiro ao alvo, delegadas, policiais, uma patrulheira rodoviária e também mulheres que colecionam armas como obras de arte.
Elas se sentem excluídas por gostar de armas? Nos EUA, cerca de 20 milhões de mulheres possuem armas. Acho que esse livro revela algo sobre a cultura americana. Essas mulheres sempre existiram e foram estereotipadas de várias maneiras. Suas histórias nunca foram contadas sob um ponto de vista individual e humano. É um universo que simplesmente não é visto por quem está do lado de fora.
Por que a arma é algo tão presente na cultura americana? Eu não faço a menor ideia. Eu sou apenas uma fotógrafa que viajou pelos EUA para fazer esse projeto. O que eu aprendi é que armas são muito presentes na vida das pessoas. Na costa oeste, por exemplo, todo mundo tem arma, que funciona como uma ferramenta. Uma das mulheres retratadas no livro é de Montana e seu pai era rancheiro. Ela conta que sua casa sempre foi afastada da cidade e a família nunca teve muito dinheiro, então, ela tinha que caçar para comer.
Há diferença na forma como as mulheres e os homens utilizam a arma? Alguns instrutores de tiro me disseram que as mulheres são melhores atiradoras do que os homens. Elas são mais pacientes, se propõem a ouvir instruções e não chegam ao curso com hábitos arraigados. Um amigo meu me disse que sua mãe é a melhor atiradora da família.
Há uma característica singular a essas mulheres? Eu diria que é o cuidado com a manipulação da arma. Algo que me impressionou foi o comprometimento delas com as leis armamentistas. Elas são muito conscientes da enorme responsabilidade que vem com a posse de uma arma. Uma característica comum é que elas são confiantes e tem autoestima em alta.
A arma lhes dá algum tipo de poder sobre os homens? Elas têm uma espécie de confiança velada, impõem poder sem precisar provar nada. Elas passam a impressão de que são capazes de dar conta de tudo. Mas as coisas são mais complicadas do que aparentam. No livro, há a história de uma paraplégica que passou por um treinamento tático durante um ano. Eu perguntei a ela: “O que você faria se alguém invadisse sua casa?” E ela disse: “Eu prefiro morrer me defendendo a ser uma vítima.” A arma lhe dá a sensação de que pode se defender sozinha.











Comentários
Airton
Meus parabéns a revista pela matéria muito interessante.
07.02.2012