Celebridades
Repercussão
Amigos brasileiros lembram da convivência com o escritor português
José Saramago tinha muitos amigos no Brasil, onde esteve inúmeras vezes desde 1982, quando lançou Memorial do Convento. Entre os que conviveram de perto com o escritor estão Luiz Schwarcz, seu editor no Brasil desde 1986, o escritor Rubem Fonseca, o arquiteto Oscar Niemeyer, o fotógrafo Sebastião Salgado (para quem fez a introdução do livro Terra, em 1997). Na Academia Brasileira de Letras, Saramago aceitou o convite para ser sócio-correspondente, mas não chegou a tomar posse.
Ali, seu amigo mais próximo era o poeta e diplomata Alberto da Costa e Silva. Os dois se conheceram em Brasília, no início da década de 1980, apresentados por Isabel da Nóbrega, então mulher de Saramago e amiga de Costa e Silva. Aproximaram-se a partir de 1985, quando o diplomata assumiu a embaixada do Brasil em Portugal. Costumavam se encontrar em livrarias, na casa de amigos e nos jantares mensais com escritores portugueses amigos, no hotel York House, em Lisboa.
O prazer da polêmica - "Saramago era uma pessoa curiosa. Gostava de polemizar e era mesmo polêmico, embora fosse também muito amável e descontraído", diz Costa e Silva, de 79 anos, titular da cadeira 9 da Academia Brasileira de Letras. "Lembro que meu filho, então com 16 ou 17 anos, disse a ele que não tinha gostado de Jangada de Pedra e os dois travaram uma discussão acalorada. Acho que ele gostou daquela ousadia."
Antes de conhecer o ficcionista, Costa e Silva lia as poesias de Saramago. "O primeiro livro que li de sua autoria foi Levantado do Chão. Minhas obras preferidas são O Ano da Morte de Ricardo Reis e a peça In Nomine Dei. Após ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo, eu disse a ele que ali estava um ateu escrevendo um livro antirreligioso na aparência, mas que era um livro sobre a fé. Ele gostou. Saramago não era o pessimista que gostava de dizer. Ele acreditava muito no ser humano", conta. "E, mesmo em conversas com amigos como eu, gostava mais de falar sobre temas que sobre pessoas."
O conquistador de leitores - O jornalista, poeta e crítico literário Ivan Junqueira, 75 anos, da Academia Brasileira de Letras, esteve com Saramago no ano passado, quando o escritor português veio ao Brasil para lançar o livro A Viagem do Elefante, na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio. Saramago participou do chá com os imortais, que durou cerca de uma hora, antes do início do evento, no salão nobre. "Foi sempre afável e simpático e, nesse dia, não falou sobre política, apesar de suas convicções públicas serem muito rigorosas."
Os livros preferidos de Junqueira são Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento e As Intermitências da Morte. "Esse último, aliás, é inundado de um sentido poético da vida extraordinário. Apesar de sua visão de mundo de esquerda radicalíssima, tem uma percepção poética do mundo, diz o escritor. "É intrigante que um escritor de linguagem tão áspera tenha se tornado um best-seller. Mas a sua abordagem é universal e cativa os leitores. Pelo menos cativou a mim como leitor."
Um debate com Gullar - O escritor e poeta Ferreira Gullar deixou-se cativar como leitor por Saramago logo ao primeiro contato, com Memorial do Convento. "Foi a primeira obra dele que li e me parece ser, até hoje, a mais fascinante, a mais rica. Justamente por isso, minha preferida." Gullar não teve convivência muito estreita com Saramago - com quem, aliás, tinha afinidade política, embora seu colega português fosse bem mais radical em suas posições. É esse o mote de uma das lembranças de Gullar sobre um dos dois encontros que teve com Saramago. Ele lembra, entre risos, de uma discordância entre eles, durante um debate na Faculdade de Letras da UFRJ, no Rio. Saramago dizia acreditar que os cartões de crédito tinham sido criados pelo capitalismo com o intuito principal de vigiar as pessoas. "Eu disse a ele que não, que era um exagero pensar assim. O capitalismo pode ter muitos defeitos, mas que esta não era uma maneira de controlar o ser humano", lembra o poeta.
Como descreve Gullar, Saramago demonstrava publicamente ser uma pessoa fechada. "A impressão que tive é de que não era amistoso o tempo todo, aberto, simpático", afirma.
A leitora militante - A atriz Letícia Sabatella deixou-se cativar por Saramago tanto como leitora quanto como militante de esquerda. Ela conheceu o escritor em 1997, no lançamento de Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado, com introdução de Saramago, com renda destinada ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. "Foi um dia marcante", lembra.
Anos depois, em 2003, encenou Memorial do Convento. "Para mim, é o melhor de todos. Fala das dúvidas e inquietações do ser humano em relação à morte, ao amor, ao pecado e à existência de Deus. Mas O Evangelho segundo Jesus Cristo também é uma obra-prima. Ele escrevia com muita sagacidade, ironia e uma consciência profunda." Para Paulo Betti, a coerência era uma grande virtude de Saramago. "Ele sempre foi fiel às suas convicções políticas, tanto na literatura quanto no seu modo de se portar no mundo." Seu livro favorito é O Evangelho Segundo Jesus Cristo. "Ele era um ateu convicto, mas escrevia com maestria e crítica contundente sobre assuntos ligados à religião."
Convite para a ilha Aos 102 anos, Oscar Niemeyer lamenta não ter ido visitar Saramago e Pilar na ilha de Lanzarote, onde o casal vivia desde 1993. "Ficamos amigos, trocávamos correspondência. Estive com ele no meu escritório diversas vezes. Conversávamos sobre literatura, arquitetura, sobre o papel do homem nesse universo. Fomos convidados para visitá-lo na ilha e eu pensava em um dia aparecer por lá. Mas não deu tempo", disse Niemeyer, que se lembra de Saramago como "muito simpático e gentil" e admirava a coerência do escritor que, como ele próprio, era um dos últimos comunistas sobre a face da Terra. "Gostava muito dos livros dele. O último que li foi o A Viagem do Elefante (de 2008)."


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Comentários
Agnaldo
SARAMAGO não é para o Brasil, assim como o Brasil não é para SARAMAGO. Ele está muito além do Brasil. Para o Brasil SARAMAGO é para poucos, raros, uma relíquia de homens lindos, porque para o Brasil o importante é Pelé, Xuxa, Faustão, Ivete Sangalo, Datena...
14.02.2011