Rio de Janeiro

A tropa da elite sobe o morro

Em uma quadra do Dona Marta, jovens do asfalto criam uma vez por mês sua embaixada na favela: a moda do verão não tem nada a ver com integração

Cecília Ritto
Festa no Dona Marta: evento no morro para quem mora no asfalto

Festa no Dona Marta: evento no morro para quem mora no asfalto (Cecília Ritto/VEJA)

Em comum com o lado de fora, apenas o calor. Não há ar-condicionado na quadra e a ventilação é precária. Com quase mil pessoas, o suor reforça a lembrança: transpire, você está na favela

A moda dos bem nascidos da zona sul carioca já foi subir o morro para se aventurar nos bailes funk. Como verdadeiros turistas em sua terra natal, eram movidos principalmente pela experiência ‘antropológica’, embalada pelo ritmo da favela. Nos últimos três anos, o cenário nas encostas da zona sul passou por mudanças, e com a polícia no comando, em vez de traficantes, as festas deixaram de acontecer em um ambiente “underground”, onde se misturavam bandidos, moradores do morro e aventureiros vindos dos condomínios do asfalto.

O primeiro morro a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em 2008, foi o Dona Marta, em Botafogo. E a ladeira agora é caminho para um dos ‘points’ do momento,uma quadra na parte baixa da favela, onde acontecem as festas ‘dos bacanas’. Contada no asfalto, a história da festa poderia se confundir como uma celebração de dois universos – morro e asfalto unidos nas noites de sábado. Mas a subida até a bilheteria não deixa dúvida: a confraternização no morro é reservada a quem vem de fora, e o estrangeiro agora é o próprio morador.

A festa é livre, é bom lembrar. Mas nem todo mundo tem liberdade para gastar 100 reais no ingresso - valor do último lote, para quem compra na bilheteria. O evento no Dona Marta acontece uma vez por mês. O último foi no sábado, 25 de fevereiro. Coincidentemente, na ocasião um bloco de carnaval acontecia na favela. As duas festas, ao mesmo tempo, eram universos paralelos. Quem mora no Dona Marta costuma não gostar dos eventos na quadra por não poder frequentar. Quem chega do asfalto se assusta com o que, no fim das contas, é a favela de verdade.

Marcos Michael

Turista fotografa o Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro

Turista fotografa o Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro


No dia 25, os dois grupos se cruzaram. ‘Patricinhas’ e ‘mauricinhos’ esgueiravam-se apressados pelos cantos da ladeira para chegar ao refúgio da embaixada do asfalto no fim da ladeira. Lá dentro, roupas bem transadas e cabelos louros, como em qualquer casa noturna da zona sul ou da Barra da Tijuca. Na rua com calçamento de pedra, o barato era se espremer e sacudir com o funk que saía do porta-malas de um táxi velho. Para refrescar, spray de espuma em quem passava. Sem receber muita atenção, uma mulher, moradora do morro, cortou a massa com o rosto sangrando, como quem acaba de ser agredida.

Dentro da quadra a cerveja custa cinco reais, mesmo valor da garrafa d’água. As figuras de conhecidos sambistas pintadas em uma parede lateral tornavam-se um jogo de adivinhação para os recém-chegados. Em comum com o lado de fora, apenas o calor. Não há ar-condicionado na quadra e a ventilação é precária. Com quase mil pessoas, o suor reforça a lembrança: transpire, você está na favela.

A festa tem feito sucesso. As músicas brasileiras tocadas pelas bandas convidadas passeiam por ritmos diferentes, mas quase sempre acabam no samba, seguindo a linha do próprio evento, chamado “Sambinha do Santa Marta”. No sábado passado, o grupo Fica Comigo comandou o palco com pagodes que fizeram sucesso dos anos 90 e os que sobreviveram até a era dos morros pacificados. Nos intervalos, o DJ toca funk, em uma simulação das festas das favelas. Outros estilos, eventualmente, têm sua chance, como o hip hop e, num descuido do DJ, até os ciganos do Gipsy Kings.

O evento começou no dia 19 de março de 2011, com horário programado das 17h à 1h. O objetivo é oferecer uma programação ‘pós-praia’ – mas é melhor não ir de biquíni ou sunga. Os organizadores são conhecidos da noite carioca. Acostumados a comandar festas em boates da zona sul, levar o mesmo público para uma noite no morro requereu o uso de algumas adaptações. “Quando fizemos a primeira festa, muita gente ficou ressabiada. Insistimos, oferecemos ingressos de cortesia. E acabou sendo um sucesso”, conta Bruno Malta, um dos responsáveis pelo evento.

Para os moradores da favela, são reservados 10% dos convites. É uma espécie de cota que permite a entrada gratuita. A dificuldade sentida por quem está acostumado a promover festas no asfalto é o acesso à quadra. A entrada de caminhões não é simples. E eles são necessários para levar o som, os banheiros químicos – não, os de alvenaria não dão conta – e tudo o que se refere à montagem do bar. “É um evento médio, sem grande bilheteria. Mas também sem grande custo”, explica Malta. Os ingressos começam a ser vendidos por 30 reais e, com a diferença de poucas semanas, chegam a triplicar de valor.


“O evento durante o dia dá muito certo. Antigamente, só havia festa desse tipo no Rio aos domingos. Quando eu lanço no Facebook, a repercussão de eventos de dia é muito maior do que os da noite”, diz o organizador. Nessas festas, homens podem entrar de bermuda e as mulheres com roupas mais informais.

“O pessoal quer sentir a experiência e dizer: ‘Estou na favela’”, resume Malta. Apesar de estar no morro, o contato com quem ali vive não entra em questão. Nem os funcionários do bar moram no Dona Marta. No dia 25, na subida da ladeira que dá acesso à festa, os ‘bacanas’ mostraram que integração não é um objetivo e, muito menos, um motivador para ir à favela. Na entrada da quadra o comentário era de estranheza: “O que está havendo neste morro hoje? Isso nunca aconteceu”. A frase vinha não de um morador, mas de um visitante, espantado com a festa dos donos da casa no caminho para a balada. A tropa da elite não quer se misturar.

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