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A tormenta de espadas chega a Westeros

Terceiro livro de 'As Crônicas de Gelo e Fogo' é a encarnação mais intensa, sombria e perversa dos Sete Reinos criados por George R. R. Martin

Marco Túlio Pires
Calhamaço: A Tormenta de Espadas é o maior livro lançado até agora dentro de As Crônicas de Gelo e Fogo: 884 páginas

Calhamaço: A Tormenta de Espadas é o maior livro lançado até agora dentro de As Crônicas de Gelo e Fogo: 884 páginas (iStockphoto/VEJA)

O leitor pode aproveitar A Tormenta de Espadas com um gostinho especial. O livro retrata a última demonstração do vigor inconsequente de Martin, sem o planejamento redundante e preciosista que tomou conta dos volumes seguintes e atrasou demasiadamente seus lançamentos

A espera acabou. A editora Leya lança nesta quinta-feira em livrarias de todo o Brasil A Tormenta de Espadas, o terceiro livro da série As Crônicas de Gelo e Fogo, do autor americano George R. R. Martin. O livro já chega com pompa: vendeu quase todo o estoque antes mesmo de chegar às livrarias. Mas será que os fãs serão servidos com o mesmo nível de qualidade dos dois livros anteriores? Será que a história vai conseguir se manter depois da morte de tantos personagens importantes? Não tenha dúvidas. Das três partes já lançadas até agora, A Tormenta de Espadas é a melhor: a mais intensa, sombria e perversa manifestação do imaginário de Martin. Prepare-se para uma longa viagem: o livro é o maior publicado até hoje, com 884 páginas. O manuscrito original tinha mais de 1.500. Se você ainda não leu o segundo livro, avance com cuidado nos próximos parágrafos.

A história em A Tormenta de Espadas se inicia pouco antes do fim de A Fúria dos Reis. Os Sete Reinos de Westeros ainda travam a Guerra dos Cinco Reis. Com a morte de Renly Baratheon, um dos pretendentes ao Trono de Ferro, restam Robb Stark, Balon Greyjoy, Joffrey Baratheon e Stannis Baratheon. O único irmão sobrevivente do falecido rei Robert foi derrotado na tentativa de tomar Porto Real pela nova aliança formada entre as casas de Lannister e de Tyrell. Enquanto isso, um grande exército de selvagens marcha rumo à Muralha sob o comando de Mance Rayder, com apenas uma minúscula força da Patrulha da Noite no caminho para fazer resistência. Em Essos, do outro lado do Mar Estreito, Daenerys Targaryen tenta voltar a Pentos, na esperança de reunir um grande exército para reclamar o Trono de Ferro.

Clique aqui para baixar o primeiro capítulo do terceiro livro

A Tormenta de Espadas é o último livro da "primeira fase" de lançamentos da série, que ocorreu entre 1996 e 2000. É o período em que o autor publicou os três primeiros volumes "de uma vez". Como Martin era relativamente pouco conhecido nessa época, os lançamentos ocorreram em um ritmo constante, a cada dois anos. É como se o autor não estivesse preocupado com o sucesso ou crítica. A história segue seu rumo de maneira natural e ousada. O quarto livro, em contraste, demorou cinco anos para ser publicado, um a menos que o quinto, lançado em 2011 em inglês. O próprio Martin admite que a história foi ficando complexa demais. Além disso, as expectativas tanto da crítica quanto dos leitores exigiram que o autor encarnasse um arrastado perfeccionismo, atrasando as datas de publicação.

Editora Leya

Capa do livro Tormenta de Espadas, da série As Crônicas de Gelo e Fogo

Capa do livro A Tormenta de Espadas, da série As Crônicas de Gelo e Fogo 

É por isso que o leitor pode aproveitar A Tormenta de Espadas com um gostinho especial. O livro retrata a última demonstração do vigor inconsequente de Martin, sem o planejamento redundante e preciosista que tomou conta dos volumes seguintes e atrasou demasiadamente seus lançamentos. A história desenrola de maneira brutal a turbulenta saga dos Targaryen, Starks e Lannisters. Se o autor reforçou nos dois primeiros livros que é capaz de eliminar personagens importantes que não souberam tomar decisões acertadas, o terceiro livro sacramenta o argumento. Absolutamente ninguém está a salvo. O seu personagem preferido pode ser o próximo a perder a cabeça.

A Tormenta de Espadas também traz capítulos sob o ponto de vista de personagens que nunca haviam recebido esse destaque antes. O leitor vai entrar, por exemplo, na cabeça do vilão Jaime Lannister e entender como funciona o maquinário perverso que faz funcionar o incestuoso irmão da rainha. Será uma oportunidade única para enxergar o fuzuê político dos Sete Reinos sob a ótica de um personagem que, até o momento, acreditava-se agir pelo impulso maldoso, pelo simples prazer de prejudicar as pessoas. Não se surpreenda se a impressão que você construiu sobre alguns personagens der uma guinada radical. Martin deixa claro em cada letra de sua obra que os habitantes do imenso continente fantástico, além de imperfeitos, são movidos por motivações genuinamente humanas. Jaime Lannister também é um ser humano, acredite.

A história também é agraciada com novos personagens que estavam agindo nos bastidores dos dois primeiros livros. O melhor exemplo é o inteligentíssimo estrategista Tywin Lannister, senhor da casa de Lannister e pai da rainha. Tywin foi a mão do rei antes da Rebelião de Robert. Agora, com Porto Real segura, o lorde assume as rédeas da guerra para garantir o reinado do neto bastardo, Joffrey.

Como prometido desde o prólogo de A Guerra dos Tronos, os aspectos fantásticos no mundo dos Sete Reinos vão ficando cada vez mais fortes. Se você se acostumou com a realidade viceral das crônicas, lembre-se que existem mortos vivos, dragões e humanos que encarnam em animais. O jogo político é tão envolvente que é fácil esquecer que se trata de uma série de fantasia. O epílogo de A Tormenta de Espadas reforça essa ideia, fazendo uma revelação que vai deixar qualquer um de cabelo em pé. Os leitores vão contar os dias para ler a sequência da saga.

Em 2001, A Tormenta de Espadas foi nomeado para o Hugo Award, umas das premiações mais prestigiadas dos gêneros ficção científica e fantasia. Não ganhou. Foi derrotado pelo superhit Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto livro do bruxo aguado. Contudo, isso não diminui em nada o brilhantismo do terceiro volume. Martin sabia disso. Quando soube que perdeu o prêmio para a autora britânica J. K. Rowling, disse em tom de galhofa: “Morra de inveja, Rowling. Você pode ter bilhões de dólares e o meu Hugo, mas você não tem os leitores que eu tenho”. Francamente, uma brincadeira nunca teve um fundo tão verdadeiro.

Confira o mapa interativo dos sete reinos de Westeros:

Imagem do infográfico sobre a saga 'A Guerra dos Tronos'

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