Brasil
De Santa Catarina
O monstro de terra
Por Duda Teixeira
(Fotos: Sérgio Vignes)
O monstro de terra
Na área rural da cidade de Pomerode, a “Alemanha Brasileira”, os deslizamentos de terra destruíram 23 casas e desalojaram 505 pessoas. Um dos mais espantosos deixou um rastro de destruição de cerca de 1 quilômetro. No bairro Morro da Turquia, uma avalanche de terra encobriu completamente uma casa, avançou centenas de metros e atingiu mais duas habitações. Por sorte, não houve vítimas. O local virou ponto turístico. Muitos habitantes da cidade vão até o local para ver o que chamam de “monstro de terra”. No domingo, ainda choveu na cidade.
Resgate emocional

O psicólogo Neomar Cezar tem passado os últimos dias conversando com vítimas da enchente que estão em abrigos de Blumenau e cidades próximas. Sem se identificar, ele se aproxima das pessoas e inicia uma conversa. Seu método é fazer com que seus interlocutores valorizem aquilo que não foi perdido - familiares ou bens materiais. “Se a pessoa só olha para trás, para o que se foi, dificilmente conseguirá reconstruir a vida”, explica.
No início de cada conversa, Cezar geralmente escuta histórias de muita dor, com uma longas listas de coisas destruídas e de pessoas desaparecidas. Quando é informado de que algo sobreviveu à tragédia, ele começa a fazer perguntas. Ficou uma geladeira? Dá para voltar a usar? De que cor é? Cabe bastante coisa? A mesma estratégia vale para pessoas. O irmão que sobreviveu trabalha com o quê? Vai encontrá-lo nos próximos dias? Do que ele gosta? Nesse momento o tom da conversa muda e a pessoa começa a perceber que ainda há pelo que viver, pelo que lutar, um ponto para o recomeço de suas vidas. “Muitos ainda não se deram conta de que sobreviveram. Não perceberam que há coisas que permaneceram e continuarão no futuro”, diz Cezar.
Na opinião do psicólogo, o trabalho é mais bem-sucedido com as pessoas que estão acostumadas com enchentes – caso da maioria dos moradores de Blumenau. Mais complicada é a situação dos que nunca vivenciaram uma tragédia. “Moradores de Luiz Alves relataram que ouviram um estrondo e correram para o morro. Quando chegaram lá, viram as árvores caindo na direção deles. Estavam completamente perdidos. Nunca passaram por algo assim, não sabiam o que fazer”, diz. Cezar e duas colegas de profissão fundaram o grupo “Do Luto há vida”. Os três trabalham atualmente como voluntários em Blumenau.
A volta para casa

A cidade de Itajaí teve 90% do seu território inundado pela água no domingo, 23. Nos dois dias que se seguiram, a população faminta protagonizou cenas trágicas, ao saquear supermercados em busca de comida. Hoje, já com as ruas secas, as famílias começaram a voltar lentamente para suas casas. Sem qualquer pedido ou ordem oficial, depositaram colchões, mesas, sofás, cadeiras, armários de cozinha e bichos de pelúcia na calçada. Todas as coisas que foram encharcadas pela água barrenta estão agora na rua, à espera de que alguém as recolha. Itajaí está polvilhada por essas pilhas de entulhos.
“Não dava para ficar com isso em casa porque ia esfarelar tudo”, diz o caminhoneiro Mário Fernandes, 36 anos e pai de quatro filhos. A água chegou a dois metros de altura na sua casa, que fica no Jardim Esperança. Ao ver o nível subir, Mário levou eletrodomésticos e roupas para o andar de cima, onde mora sua sogra Edite. Os sofás, armários e móveis que ficaram embaixo foram perdidos. O andar térreo da casa, onde viviam cinco pessoas, hoje está praticamente vazio. Não há camas ou outros móveis. Salvaram-se apenas uma geladeira, um fogão, três bicicletas e uma moto.
Mário vai diariamente com sua filha Priscila e a sogra para um posto de distribuição de alimentos funcionando provisoriamente em um prédio do corpo de bombeiros. Há três filas: uma para receber colchões, uma para roupas e outra para alimentos. É preciso chegar cedo, seis horas da manhã, para conseguir sair com comida na hora do almoço. Para ganhar um colchão, um dos itens mais procurados, deve-se preencher um cadastro e esperar.
Há nove postos de distribuição como esse em Itajaí. Apesar das longas filas que se formam na calçada, a expectativa dos organizadores é que toda a população seja atendida. Caminhões com mantimentos chegam de todo o país. Apenas no posto do Jardim Esperança, havia 70 pessoas ajudando a descarregar, separar e entregar as coisas. “Na terça-feira, éramos apenas cinco. Muita gente pediu para ajudar”, diz Silvio Bastos Alves, assessor da secretaria de habitação que foi convocado para coordenar a distribuição no centro.
Nas ruas de terra dos bairros mais pobres de Itajaí, voluntários dirigindo suas próprias caminhonetes distribuem bolachas e garrafas de água diretamente para as famílias mais necessitadas.
Existe lugar seguro?

"Antes as pessoas falavam para não construir em cima do morro, porque era perigoso. Agora achamos que embaixo também não é seguro", diz Arcino Lohse, aposentado de 56 anos. Arcino mora com a esposa Marli em uma casa perto da entrada da cidade há 33 anos. Na madrugada de domingo, parte do morro que fica atrás de sua casa desabou, soterrando a casa de seu sogro e de sua sogra. O idoso morreu, enquanto sua mulher foi tirada do local mais tarde com ajuda de motosserra. Hoje está hospitalizada.
O impressionante nesse caso é a distância que a terra conseguiu chegar, e com força. Além de soterrar completamente a casa dos sogros de Arcino, a avalanche continuou por mais 100 metros, atravessou um lago e atingiu um sobrado amarelo, que aparece na foto. O cômodo que ficava colado a casa desapareceu. Uma mulher que estava dentro dele foi arremessada para o outro lado da estrada e ficou presa nos eucaliptos. Na sexta-feira, uma chuva fraca continuava a castigar a cidade.

Medo de trovão

A cidade de Pomerode já sofreu com a inundação. Agora, o principal problema não é mais as cheias, e sim os constantes desabamentos de morros. Como chove sem cessar desde setembro, a terra sofre erosões e fica marcada por rachaduras, que depois se transformam em desmoronamentos. “Nosso principal medo são as trovoadas. Quando o estrondo é grande, a terra fica instável e vem tudo abaixo”, diz Julian Link, funcionário da prefeitura de Pomerode.
Na área rural da cidade, no bairro de Ribeirão Souto, há meia-dúzia de pontos em que o morro se transformou em uma avalanche de terra. A prefeitura já perdeu a conta do número de áreas em risco. Nas fotos abaixo, familiares acompanham escavadeira em busca do corpo de um casal soterrado por uma avalanche de terra. Um carro ficou completamente destruído.

Salvo pelo telefone
O motorista do automóvel da foto abaixo estacionou o carro à beira da estrada e caminhou para um telefone próximo. O morro desabou em seguida, empurrando o asfalto em direção ao rio, um afluente do Itajaí-Açu. Operários agora cavam ainda mais o morro na tentativa de arrumar um desvio e liberar a via. Na região do município de Gaspar, de cada dois morros que se vê da estrada, um teve desabamento.
Um caminhão para os cadáveres
No município de Gaspar, um caminhão frigorífico foi enviado para receber os cadáveres das vítimas das enchentes. Estacionado em frente à Casa Mortuária, foi utilizado apenas três vezes, para receber corpos que chegaram durante a noite. "Imaginava-se que chegariam centenas de corpos, mas felizmente o desastre foi bem menor que isso", diz o legista Ivanildo Alves Pereira, que trabalha no Instituto Médico Legal de Florianópolis e foi escalado para ajudar na localização das vítimas em Gaspar. Todos os nove corpos apresentavam a mesma causa de morte: asfixia por soterramento.
Solidariedade 'salva' cidade
A cidade de Luiz Alves, devastada pela enchente do final de semana, só pôde ser acessada por carros na noite de quarta-feira. Até então, os incontáveis deslizamentos de barrancos na estrada faziam com que o único meio de acesso fosse o helicóptero.

Um dia depois da liberação das pistas, um comboio de dez carros do governo estadual entrou no município com alimentos. Pelas ruas da cidade, bombeiros paulistas pediam informações sobre onde era a prefeitura.
Para uma cidade que permaneceu 72 horas quase totalmente isolada e que há 54 dias sofre com uma chuva constante, Luiz Alves está surpreendentemente em ordem. Não houve saques ou assaltos. Tal fato é explicado pela incrível solidariedade da população. A maior parte das pessoas que morava nas áreas próximas aos afluentes do rio Itajaí-Açu mudou-se para casa de parentes. Outras se instalaram em clubes e igrejas e são atendidas por voluntários.

Um grupo de pilotos de motos e de quadriciclos, aqui chamados de "trilheiros" tem prestado ajuda aos desabrigados desde segunda-feira. Levam alimentos, água, remédios e dão carona para enfermeiras até os bairros mais distantes na área rural. São os Lobos do Mato, como orgulhosamente se denominam. "Não paramos um minuto sequer desde que começaram os desabamentos", diz Gislei Onofre, que trabalha com importação e exportação e pediu dispensa do trabalho para ajudar no socorro às vítimas.
Luiz Alves teve cinco mortos, todos soterrados por morros. Na quinta-feira à noite, ainda chovia na cidade.








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