21/01/2010 - 15:38
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São Paulo, 456 anos

Cerrado e florestas cobriam a área da metrópole

Branca Nunes
Araucárias em frente à Casa Sertanista do Caxingui

Araucárias em frente à Casa Sertanista do Caxingui (Ricardo Cardim)

Como o próprio nome avisa, nem só de Mata Atlântica era composta a vegetação dos Campos de Piratininga. Quando o jesuíta José de Anchieta chegou àquelas paragens, no século XVI, encontrou também várzeas, cerrado e araucárias, além de abundantes florestas tropicais que se estendiam pelo litoral e interior do estado. Há (exatos) 456 anos, a área onde se assentou a cidade de São Paulo era considerada um ecótono, palavra que batiza o local de encontro de diferentes tipos de flora.

As constatações emergem da pesquisa do ambientalista Ricardo Cardim, fundador da Associação dos Amigos das Árvores de São Paulo, e serão incorporadas ao livro que promete preencher uma lacuna histórica da cidade: desvendar como era a vegetação original da capital paulista. "O único registro sobre o tema é uma publicação de autoria de Alfred Usteri, datada de 1911, que ainda não foi traduzida do alemão", observa Marco Nalon, responsável pelo Inventário Florestal do Estado de São Paulo.

A escassez bibliográfica induziu Cardim a revirar as atas da Câmara da cidade e as teses de pós-graduação que existem sobre o assunto. O trecho de um documento de 1594 determina "que ninguém corte pinheiros sem licença da Câmara com pena de quinhentos reis" e evidencia a preocupação com o desmatamento das araucárias já no século XVI. Outro, de 1667, sobre as várzeas, informa que "entre o ribeiro Anhangabaú e o caminho que vai para o Goare (atual Luz) corre um brejo que não é de utilidade alguma por estar sempre cheio de água". Mais recentemente, em 1950, em sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo, o botânico Aylthon Brandão Joly escreveu: "Mais de um terço da flora campestre da região do Butantã se encontra também nos campos cerrados de Lagoa Santa (Minas Gerais)".

Montando esse quebra-cabeças, Cardim esboçou o mapa reproduzido nesta edição comemorativa dos 456 anos da fundação da metrópole. "Não é um desenho 100% preciso, porque há uma carência gigantesca de informações", esclarece. "Mas, pelas minhas pesquisas, é o mais próximo que alguém já chegou da cobertura original da cidade". Nomes de bairros como Pinheiros, Campos Elíseos, Campo Limpo e Capão Redondo também forneceram pistas para que o mistério fosse parcialmente desvendado.

"Aqui se encontravam o cerrado do Centro-Oeste, a mata de araucária do Sul, a floresta úmida de encosta da serra do Mar e a floresta mais seca do interior", enumera o ambientalista. "Todas essas vegetações habitavam em conjunto essa pequena área".
 

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