Brasil
Política
PMDB usa força e pressiona o governo
Se o PMDB desaparecesse por decreto da noite para o dia, a corrupção e o fisiologismo, irmãos siameses, continuariam a permear a atividade política no Brasil. Vale a pena ler a definição da Wikipédia: "Fisiologismo é um tipo de relação de poder político em que as ações políticas e decisões são tomadas em troca de favores, favorecimentos e outros benefícios a interesses individuais. É um fenômeno que ocorre freqüentemente em parlamentos, mas também no poder executivo, estreitamente associado à corrupção política. Os partidos políticos podem ser considerados fisiologistas quando apoiam qualquer governo independente da coerência entre as ideologias ou planos programáticos."
Se alguém sabe de algum partido político brasileiro que, mesmo não apoiando qualquer governo, não faz "troca de favores" em nenhuma circunstância, que escreva seu próprio verbete na Wikipédia. Ele pode ficar na letra "P", de pureza ou "U", de utopia. Mas se alguém conhece algum partido que faz isso tudo com mais desenvoltura, constância, eficiência e na maior cara de pau, que escreva também seu verbete.
O PMDB encarna o paroxismo do fisiologismo. Há um limite na política real que é aceitável: o partido usar sua força para eleger grandes bancadas, pressionar o governo e conseguir cargos públicos. Isso poderia até explicar a onipresença do PMDB no poder Mas o PMDB vai além do aceitável. Afirma o cientista político Rubens Figueiredo: "O PMDB usa essa força para promover a corrupção, o compadrio, favorecer apaniguados, contratar empresas amigas e beneficiar parentes. Isso resvala na marginalidade."
O MDB foi encarnação do bem no combate à ditadura. "Ganhou um P e virou a encarnação do mal na democracia." Apesar disso (pois seria cinicamente impensável escrever "por causa disso") o partido é alvo de cobiça. Está no governo Lula assim como esteve em todos os governos nos últimos 20 anos. Se nenhuma turbulência ocorrer, já se prepara para participar também do futuro governo a ser eleito em 2010. Por que? Por que, pelas cinco características a serem expostas aqui, é quase impossível chegar ao Planalto sem o concurso do PMDB.
1) Maleabilidade - Herança dos tempos heróicos, quando se chamava MDB e serviu de Arca de Noé para todo o espectro de opositores da ditadura militar, o PMDB é um partido sem identidade ideológica, sem espinha dorsal programática, o que facilita as conversas na linha "hay gobierno, estoy dentro."
2) Acefalia - O PMDB não tem um líder histórico ou um cacique incontrastável que dá rumo e aprova coligações. Sua estrutura é formada de células regionais e facções com ampla autonomia para tratar dos interesses mais imediatos de cada grupo.
3) Adaptabilidade - Se o Brasil amanhecesse comunista, o PMDB acordaria o partido dos "comissários do povo." Nada abala a convicção dos peemedebistas de que cedo ou tarde o partido no governo e o presidente da República, seja qual forem, vão precisar de seus préstimos. Daí, então, basta negociar o preço e fazer as mais tenebrosas transações parecerem "alta política" e pegar a chave do cofre apenas mais uma "missão de servir ao país" confiada a algum correligionário.
4) Atraso - Em todas as democracias representativas o avanço se dá quando o nível de educação e de conforto material permite aos eleitores se interessar por questões não diretamente ligadas a sua sobrevivência imediata. Ou seja, o quando o eleitor toma decisões baseadas em conceitos antes abstratos como "o interesse nacional" ou "ética". Da mesma forma que a natureza abomina o vácuo, o PMDB não se interessa pelo eleitor que escapou do lumpezinato e não mais se entrega a qualquer partido que lhe ofereça uma recompensa material básica em troca de seu voto. Como uma imensa porção da população brasileira ainda depende desse tipo de recompensa, o PMDB tem um futuro risonho no curto e médio prazos.
5) Resiliência - As sub-estruturas regionais e as facções do partido só atuam em conjunto, com grande eficiência, quando a sobrevivência material do grupo e sua maneira de servir-se do estado é ameaçada por alguma reforma política modernizante e mais ampla ou por um presidente ousado e destemido que decide acabar com a festa do dinheiro público.
Leia a reportagem completa em VEJA desta semana (na íntegra somente para assinantes).








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