Governo

Orlando Silva: "Saio com o sentimento do dever cumprido"

Ministro é o sexto auxiliar da presidente Dilma Rousseff a deixar o primeiro escalão em dez meses de governo

Luciana Marques e Carolina Freitas
Charge de Orlando Silva

Charge de Orlando Silva (Rob)

Orlando Silva deixou nesta quarta-feira o cargo de ministro do Esporte do governo Dilma Rousseff. Ele é o sexto ministro de Dilma Rousseff a deixar a equipe desde o início do mandato da presidente, em janeiro – e o quinto a cair por envolvimento em um esquema de corrupção. O anúncio oficial foi feito à noite pelo próprio Orlando Silva após reunião dele com a presidente Dilma e com o presidente do PCdoB, Renato Rabelo, no Palácio do Planalto. 
 
A exoneração "a pedido" sairá nesta quinta-feira no Diário Oficial da União. Por enquanto, o ministério ficará a cargo de um interino, também filiado ao partido de Orlando Silva, o secretário-executivo da pasta, Waldemar Manoel Silva de Souza.
 
"Fato nenhum houve que possa comprometer a minha honra e minha conduta ética", afirmou o agora ex-ministro durante coletiva. Orlando Silva voltou a dizer que não há provas contra ele e tachou as denúncias feitas pelo policial militar João Dias como um "ataque baixo" e uma "agressão vil", mas admitiu o acirramento da crise política por causa das denúncias. "Decidimos que a melhor solução seria sair do governo para defender a minha honra", disse, reafirmando o apoio ao governo Dilma apesar de seu desligamento do cargo. "Saio com o sentimento do dever cumprido".
 
Renato Rabelo saiu em defesa do ex-ministro. "Nós defendemos desde o primeiro momento nosso ministro porque ele é honesto, sincero e um jovem com grande capacidade", disse . O presidente do PCdoB não quis adiantar o nome que deve ocupar a vaga de Orlando Silva definitivamente. "Cabe à presidente da República manter, tirar e substituir ministro", afirmou. "O que posso adiantar que ela vai resolver isso logo".
 
Ao deixar o governo, Orlando Silva perderá o foro privilegiado. Com isso, o inquérito contra ele deverá ser apurado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), e não pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
 
Reunião - A decisão de tirar Orlando Silva do governo já estava tomada desde a manhã desta quarta. Conforme noticiou a coluna Radar on-line, Orlando Silva era considerado desde cedo pelos colegas de partido e pelo governo um "cabra marcado para morrer". Às 18 horas o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, confirmou que a demissão era inevitável. 
 
Carvalho recebeu, por volta das 10 horas, Orlando Silva e líderes do PCdoB para um conversa no Palácio do Planalto. Lá já ficou decidida a demissão do ministro, envolvido em um esquema de corrupção revelado por VEJA. Os comunistas reuniram-se então na Câmara para tratar da sucessão de Silva.
 

Marcello Casal Jr./ABr

Waldemar Manoel Silva de Souza

O interino Waldemar de Souza

Interino - Waldemar Souza integra a direção estadual do PCdoB no Rio de Janeiro e foi o braço direito de Orlando Silva no ministério. Seguindo ordens do chefe, Souza constituiu uma Comissão de Sindicância em 24 de outubro para investigar as revelações de VEJA. O escândalo envolvendo Orlando Silva chegou a respingar no secretário-executivo. O policial militar João Dias Ferreira, que denunciou o esquema de corrupção na pasta, disse ter, entre as provas das irregularidades, o áudio de uma reunião de abril de 2008 que teve a presença de Souza e de outros três integrantes da cúpula do ministério. 

A assinatura de Souza também apareceu num convênio altamente suspeito com o Sindicato das Associações de Futebol (Sindafebol). Em dezembro de 2010, o governo federal repassou, de uma só vez e sem licitação, 6,2 milhões de reais para que o sindicato fizesse o cadastramento das torcidas organizadas dentro dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014. O projeto jamais saiu do papel.

Cronologia - A queda de Orlando Silva começou a se desenhar quando VEJA revelou, na edição do dia 19 de outubro, que o ministro era o mentor de irregularidades na pasta e que recebeu propina na garagem do próprio ministério. Silva passou a semana seguinte negando as acusações e chamando o delator do esquema de “bandido” sem credibilidade. Foi à Câmara e ao Senado prestar depoimento. “Querem tirar ministro no grito”, reclamou na quinta-feira.
 
No dia seguinte, Silva foi recebido pela presidente Dilma e entregou a ela um calhamaço de documentos em que tentava se defender das acusações. Foi mantido no cargo - pelo menos até esta quarta-feira. No mesmo dia, o procurador-geral da República, Roberto Gurguel, enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de investigação sobre o caso. Na terça-feira, a solicitação foi aceita e o Supremo abriu um inquérito para apurar os desvios - fato considerado pelo Planalto como a estopim para a queda do ministro.  
 
A situação de Orlando Silva já havia se complicado depois que VEJA desta semana mostrou detalhes sobre como um assessor do ministro Orlando Silva orientou o policial militar João Dias Ferreira a enganar a fiscalização do próprio ministério. João Dias foi o delator do esquema de corrupção instalado no ministério.
 
O ministro ainda compareceu ao Senado na terça-feira. Pretendia falar sobre a Lei Geral da Copa, mas enfrentou protestos da oposição e ouviu um pedido direto de Onyx Lorenzoni (DEM-RS): "Pede para sair, ministro. O senhor vai fazer um bem para o país."
 

Cristiano Mariz

João Dias, delator do esquema de corrupção no Esporte

João Dias, delator do esquema de corrupção

Gota d'água - As revelações e a abertura do inquérito no Supremo foram a gota d’água em uma relação já difícil entre Dilma e Orlando Silva, mais um ministro herdado por ela de Luiz Inácio Lula da Silva. Há tempos Dilma estava insatisfeita com o trabalho de Silva e tentava tirar dele o comando da organização da Copa do Mundo de 2014. Na visão da presidente, o ministro era próximo demais da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Quando o caso de corrupção veio à tona, Dilma imediatamente resolveu centralizar as questões relativas à Copa. Quem decide sobre o evento agora é a própria presidente e a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. 
 
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Corrupção - Reportagens publicadas em VEJA mostram que o partido de Silva, o PCdoB, organizou uma estrutura dentro da pasta para desviar dinheiro público usando ONGs amigas como fachada. As verbas deveriam ser usadas para incentivar crianças carentes a praticar esportes, mas acabavam engordando o bolso dos comunistas. O esquema funcionava da seguinte forma: as ONGs pagavam uma taxa de 20% do valor do contrato ao partido, que fechava o convênio com elas e chegava a indicar fornecedores de notas frias de despesas fictícias para embasar o repasse. 
 
De acordo com o policial militar João Dias Ferreira, delator do esquema, os convênios previam o atendimento a  5.000 crianças, mas, quando muito, atendiam 500. Muitas vezes, não atendiam sequer uma. Entidades dirigidas por João Dias participaram do esquema e ele chegou a ser preso em 2010 pela polícia de Brasília. Segundo o delator, o dinheiro desviado foi usado pelo PCdoB para pagar despesas da campanha presidencial de 2006. 
 
Biografia - Orlando Silva de Jesus Júnior tem 40 anos, nasceu em Salvador (BA) e formou-se em Direito e Ciências Sociais. Ele chegou ao comando do Ministério do Esporte em março de 2006, durante o governo Lula, após passar por outros três cargos na própria pasta, de secretário nacional de Esporte, secretário nacional de Esporte Educacional e secretário-executivo do Ministério.
 
Antes disso, atuou como líder estudantil – foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), de 1995 a 1997, e da União da Juventude Socialista (UJS), de 1998 a 2001. Também foi representante da Federação Mundial das Juventudes Democráticas (FMJD).
 
Em 2008, seu nome foi envolvido no escândalo dos cartões corporativos do governo Lula. Utilizou o benefício para consumo particular em restaurantes sem estar cumprindo agenda oficial. Após as denúncias, alegou ter se enganado e devolveu o dinheiro.
 
Quedas em série - Até agora, foram demitidos do governo Dilma, por envolvimento com corrupção, os ministros Antonio Palocci (Casa Civil), Alfredo Nascimento (Transportes), Wagner Rossi (Agricultura) e Pedro Novais (Turismo). Nelson Jobim, então titular da Defesa, saiu por criticar publicamente o governo.
 

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