05/09/2010 - 09:21
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Chacina no México

O sonho americano ficou para trás

Casos como o dos jovens brasileiros mortos por traficantes no México ao tentar entrar ilegalmente nos EUA são minoria no Vale do Rio Doce

Adriana Caitano, de Governador Valadares
A dona de casa Arléia Maria Cristina com as filhas Natália e Nataline: o marido foi para os EUA há cinco anos e não tem dinheiro para voltar

A dona de casa Arléia Maria Cristina com as filhas Natália e Nataline: o marido foi para os EUA há cinco anos e não tem dinheiro para voltar (Manoel Marques )

Delegado da PF Cristiano Campidelli: “É um preço alto demais para se pagar por um sonho que muitas vezes se torna um pesadelo. Essas pessoas entregam suas vidas nas mãos de criminosos para quem as vidas são só mercadorias”

A cidade mineira de Governador Valadares, a cerca de 320 quilômetros da capital Belo Horizonte, é conhecida há mais de 50 anos como um dos principais pontos de saída de brasileiros rumo aos Estados Unidos. Mas o sonho americano não tem mais atraído tantos moradores da região do Vale do Rio Doce. Com inúmeros exemplos de pessoas que passam dificuldades no país estrangeiro por causa da crise econômica, é consenso na cidade que arriscar a vida para atravessar a fronteira não vale mais a pena. Jovens com o ideal de ganhar em dólares, como Juliard Aires Fernandes e Hermínio Cardoso dos Santos, mortos por traficantes quando tentavam entrar ilegalmente na América do Norte, já são minoria na região.

O comentário de que a moda de ir para os EUA passou é quase unânime na cidade. O taxista Emilson Silva é um dos poucos em Governador Valadares que não tentaram a vida em solo americano. Como também trabalha para agências de viagens, tem percebido de perto uma mudança no fluxo de viagens. "Nos últimos dois anos, tem mais gente voltando dos Estados Unidos do que indo e todo mundo chega reclamando que não conseguiu nada do que queria, que não vale a pena abandonar a família para passar dificuldade lá", relata.

A socióloga Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce, é especialista no fenômeno da emigração de Governador Valadares e região. Constatou, em uma de suas pesquisas, feita em 2009, que apenas 30% dos moradores que voltaram dos Estados Unidos nos últimos anos conseguiram melhorar de vida após o retorno. Segundo ela, 80% retornam sem esperança no futuro e lamentando não ter conseguido realizar o sonho de “fazer a América”.

Edivaldo Carvalhais de Souza, prefeito de Sardoá, a 66 quilômetros de Governador Valadares, afirma que a cidade, da qual 20% dos moradores estão nos Estados Unidos, convive com diversos problemas por causa da emigração. “Quem volta chega deprimido, viciado em álcool e drogas, abandona a família, fica ocioso ou não consegue se readaptar”, conta.

Abandono - Sardoá, onde Juliard e Hermínio estudaram, sofre ainda com outro fenômeno: o de homens que deixam a família para trás e não conseguem emprego nos Estados Unidos nem dinheiro para voltar. De acordo com o prefeito, 12 famílias nessas circunstâncias são sustentadas por verbas municipais. É o caso da dona de casa Arléia Maria Cristina, de 47 anos. O marido viajou há cinco anos, deixando-a com as duas filhas, Natália, 11 anos, e Nataline, 9, em busca de melhores condições nas terras americanas. “Vendemos nossa casa na roça para ele ir e tivemos que sair da outra porque ele não tinha mais dinheiro para pagar. Quando ele consegue algum bico, manda uns 300 reais”, relata.

Por causa de problemas de saúde, Arléia não consegue trabalhar e mora em uma casa de três cômodos da prefeitura, que também paga as contas de água e luz da família. Para comer, elas dependem da caridade de instituições sociais e vizinhos. “Já me disseram para colocá-lo na Justiça, mas sei que não é culpa dele, não tenho mais ninguém nessa vida”,lamenta. Quando perguntadas se falam com o pai pelo telefone, as meninas choram. “Ele fala que está vindo, mas nunca vem”, reclama Natália.

Problemas financeiros - Os efeitos da crise econômica que afetaram os sonhos de quem procurava bons salários na “América” refletiram-se também nas finanças de Governador Valadares e região. De acordo com a socióloga Sueli Siqueira, isso pode ser constatado pela redução no número de empregos nos Estados Unidos – muitos tinham até três - e pelo valor da hora de trabalho lá, que caiu de 20 para 9 dólares em algumas profissões.

O mercado imobiliário, que já foi muito beneficiado pelas remessas de dólares dos moradores da região que iam para fora do país, já não depende mais deles. “No final dos anos 90, de cada 10 imóveis vendidos na cidade, quatro era para emigrantes, em 2008 caiu para apenas um”, ressalta Sueli, autora do livro "Sonhos, Sucesso e Frustrações na Emigração de Retorno". A pesquisadora lembra que, mesmo quando voltam com dinheiro, os valadarenses acabam perdendo todo o dinheiro que juntaram. "Isso porque não adquiriram conhecimento para tornarem-se empreendedores”. A prefeitura de Governador Valadares chegou a criar um programa para orientar quem volta à cidade a gerenciar melhor seus recursos.

As prefeituras da região também têm investido no ensino superior e em cursos profissionalizantes, incentivado a agricultura familiar e tentado atrair indústrias no intuito de desenvolver as cidades e manter seus moradores por lá. Ainda assim, segundo a pesquisa de Sueli Siqueira, 28% de quem voltou dos Estados Unidos por causa da frustração de não alcançar seus objetivos pretendem fazer uma nova tentativa na Europa. O sonho europeu ainda não chegou a ser uma febre, mas tem aumentado entre os mineiros. “O destino pode mudar, mas os problemas continuarão a existir”, alerta a socióloga.

Riscos da travessia - Mas ainda há quem não acredite no sonho americano e prefira correr o risco. Segundo o delegado da Polícia Federal (PF) Cristiano Campidelli, a delegacia emite cerca de 12.000 passaportes por mês. Ele comenta que é a unidade com o maior número de pedidos de Minas Gerais, perdendo apenas para a superintendência estadual.

As pessoas que pedem o passaporte têm um perfil comum: são trabalhadores simples, muitos da zona rural. “Dá para ver que são pessoas que vão tentar a vida lá fora por um prazo maior e dificilmente vão conseguir um visto, mas a PF não pode deixar de emitir o passaporte”, diz Campidelli. Como o novo modelo de passaporte brasileiro impede adulterações, muita gente falsifica documentos de identidade para conseguir um visto ou tenta entrar sem passaporte mesmo. “Conforme o estado vai reprimindo mais, as pessoas vão buscando rotas alternativas, como a perigosa travessia pelas fronteiras facilitada por criminosos”.

Campidelli explica que não há um tipo penal específico que incrimine o tráfico de pessoas para fins migratórios, somente para quem recruta trabalhadores mediante fraude ou para prostituição. “Por isso, só podemos pegar as pessoas que facilitam essas viagens ilegais se cometerem outros crimes, como falsificação de documentos e vistos, que têm penas muito brandas”, lamenta. Segundo o delegado, há atualmente 50 inquéritos na PF de pessoas sendo investigadas ou indiciadas na região – boa parte delas já esteve nos EUA.

Quem ainda tenta vias ilegais para chegar à América negocia com um agenciador de viagens, chamado de “cônsul”. Os que facilitam a travessia nas fronteiras são chamados de “coiotes”. Muitos dependem de agiotas para conseguir o dinheiro para custear o sonho perigoso. “Há casos de extorsão e de pessoas que perderam carro, casa, moto, fazenda”, relata o delegado. “É um preço alto demais para se pagar por um sonho que muitas vezes se torna um pesadelo. Essas pessoas entregam suas vidas nas mãos de criminosos para quem as vidas são só mercadorias”.

Clique abaixo e veja como é feita a travessia

 

governador valadares

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