Crime organizado
Combate ao tráfico no Rio ganha discurso de guerra
Autoridades adotam linguagem bélica para falar do conflito na zona norte
Carolina Freitas
Helênio de Oliveira, professor da Uerj: "A população perdoa qualquer hipérbole, pois há fatos verídicos. A guerra significa: estamos aqui para matar ou morrer”
Na ocupação da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão - há décadas verdadeiros fronts da criminalidade -, o Rio de Janeiro declarou guerra ao crime organizado. Com tanques blindados, fardas camufladas e tropas em comboio, mas, acima de tudo, com uma fala afinada das autoridades. Favela virou “território”; tiroteio, “batalha”; policial, “guerreiro”. Por trás de cada palavra, a necessidade de legitimar a ação policial e dar noção de grandeza aos fatos. A imprensa e a sociedade aceitaram e assimilaram o discurso, como provam cartas de agradecimento dos moradores aos “heróis” da polícia, divulgadas pelos meios de comunicação.
Apesar de eventuais exageros, especialistas em análise do discurso veem fundamento nas falas. “A grandeza dos fatos reflete no discurso. Não se trata de retórica vazia”, afirma o professor do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Helênio de Oliveira. “A população perdoa qualquer hipérbole, pois há fatos verídicos. A guerra significa: estamos aqui para matar ou morrer.”
Para a doutora em Língua Portuguesa Aparecida Regina Borges, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a narrativa sobre os conflitos no Rio revela-se uma grande metáfora de guerra. Em uma linguagem comum a conflitos internacionais, o governo fluminense tenta justificar sua linha de ação.
“A mensagem que as autoridades passam o tempo todo é de um estado de guerra, em que as ações não são de ataque, mas de revide a um ataque sofrido anteriormente. O noticiário reproduz o discurso das autoridades, no mesmo tom de heroísmo e vitória”, afirma a professora. “Além de dar relevo aos fatos, o discurso legitima o trabalho da polícia, como se eles dissessem o tempo todo: ‘estamos fazendo isso porque a população pediu’.”
Reação - A sociedade tem dado respostas positivas ao discurso oficial. No dia em que as forças policiais tomaram a Vila Cruzeiro a primeira reação dos moradores da região foi estender, de forma voluntária, lençois brancos nas janelas. “O significado disso é ‘estamos com vocês, pela paz’”, analisa Helênio de Oliveira. A palavra e a cor branca foram usadas também nos dias seguintes para manifestar aprovação ao trabalho do estado.
No sábado, quando policiais e soldados avançavam pelo Complexo do Alemão, uma moradora entregou a uma repórter da TV Globo um bilhete, lido no Jornal Nacional. “Aos nosso guerreiros, nossos heróis, obrigada. Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, dizia o papel. Para Aparecida Regina, os escritos resumem um sentimento. “É o endeusamento dos policiais, em concordância com a fala oficial. Simboliza o aval dos moradores.”
As manifestações dos moradores respondem a uma convocação feita de forma explicita, já no primeiro dia de conflitos, pelo comandante do Bope. “Está ficando cada vez mais claro quais são os lados. O lado do bem e o lado do mal. A população sempre vai escolher o lado do bem”, disse o tenente-coronel Paulo Henrique Moraes. Os acontecimentos passam a ser vistos de uma forma maniqueísta, ou você concorda com o bem ou com o mal, sem meio termo.
Imagens – A “guerra do Rio”, televisionada e transmitida em tempo real para todo o país, ofereceu aos espectadores cenas para marcar época. Ao chegarem ao alto do Morro do Alemão, no último domingo, policiais fincaram lá a bandeira do Brasil e do estado do Rio de Janeiro. Houve quem relacionasse a conquista à chegada do homem a Lua – note-se a magnitude da comparação.
A imagem de pais que entregaram seus filhos à polícia reforçou o discurso do apoio da sociedade à operação. Um traficante desceu o morro segurado por um braço pelo pai e, pelo outro, por um policial. “A autoridade paterna e do estado se fizeram presentes onde antes a única autoridade era a dos bandidos”, afirma Helênio de Oliveira, da Uerj.
A prisão de um dos chefes do tráfico, Zeu, ofereceu outra cena para a cronologia da guerra. Um sorridente policial exibia à imprensa o preso, um dos assassinos do jornalista Tim Lopes. “O traficante era o troféu dele. Com o sorriso o policial parecia dizer que se tudo desse errado, a operação valia só por ter capturado aquele foragido”, analisa Aparecida Regina, da PUC-SP.





Comentários
Lou Brito
Acredito Na proposta dos governos em Combater a criminalidade no Brasil, o que me deixa em duvida é o real interesse dos políticos, sabemos que a Lei da ficha limpa ainda não foi capaz de efetuar a total limpeza no parlamento brasileiro e por essas e outras fico com a pulga atras da orelha será que os que fazem as leis quer(..)
14.11.2011
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tiago assunção soares
eu, acho que bandido deve ser tratod como bandido,já estava demorando para á policia, tomar ás providencias,os governantes devem olhar com bons olhos para á segunça nacional, já pensou se isso que aconteceu no rio, vira moda no brasil, nós todos estamos perdidos, para isso os poderosos da república brasileira, tem que deixar(..)
07.12.2010
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Biriba
O que vemos hoje no Brasil, é talves a mais elevada taxa de Incoerência e Toleranciana, nos ultimos 8 anos, na Administração Pública Federal. O Povo Brasileiro passa hoje a ter o Verdadeiro retrato do Caos. Se não dermos um Basta? Nosso amanhã será Triste.
05.12.2010