Rio de Janeiro
No Rio, o desafio é não repetir Salvador
Assembleia Legislativa aprova projeto de reajuste proposto pelo governo do estado, mas grevistas consideram insuficiente. Grupo pede libertação do cabo Daciolo, preso na noite de quarta-feira quando chegava de salvador. Temor é de recrudescimento do protesto da tarde desta quinta-feira
Cabo do Corpo de Bombeiros Benevenuto Daciolo, um dos líderes do movimento grevista da corporação em 2011 (Eurico Dantas/Agência O Globo)
“O pedido pela soltura e anistia do Daciolo será mais um pré-requisito para acabarmos com a greve. Daciolo é especial para o movimento, mas o que vale são as ideias que ele deixou”, afirma o representantes dos praças da PM, Wagner Luiz
O esvaziamento da greve em Salvador na manhã desta quinta-feira enfraquece a tentativa de nacionalização das reivindicações dos policiais e bombeiros. Como se esperava, os movimentos da vez devem ocorrer no Rio de Janeiro. Para governo do estado e líderes grevistas, não interessa repetir a situação de descontrole e as trapalhadas de parte a parte da capital baiana. O temor, pelo lado dos próprios policiais, é de que a prisão do cabo Benevoluto Daciolo, líder das reivindicações dos bombeiros, seja usada pelas alas mais radicais para transformar a assembleia das 18h, na Cinelândia, em um protesto fora de controle. A consequência provável disso é um racha, com perdas para todos.
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Na manhã desta quinta-feira, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou, em sessão extraordinária, o projeto de lei do Executivo que altera as regras para o reajuste salarial de policiais civis, militares, bombeiros e agentes penitenciários. A proposta, encaminhada em 1 de fevereiro, estabelece que o reajuste que seria concedido em outubro de 2013 será antecipado para fevereiro do mesmo ano - o que significará um aumento de 26%. E, em fevereiro de 2014, haverá nova reposição salarial equivalente ao dobro da inflação acumulada. A votação durou 15 minutos, e teve placar de 59 votos favoráveis e um contra.
A avaliação dos líderes grevistas, no entanto, é de que o que o estado concede é pouco. E, desde a noite de quarta-feira, com a prisão do cabo bombeiro, os ânimos parecem ter se acirrado. “Pelo lado da Polícia Civil, fizemos de tudo para manter o movimento dentro da legalidade. Mas entendemos que a prisão de Daciolo aumenta a participação e, infelizmente, a revolta. Não esperávamos essa repressão, que tenta colocar os grevistas na condição de bandidos. A greve dificilmente será evitada”, avalia o comissário Fernando Bandeira, líder dos policiais civis.
Daciolo foi preso na noite de quarta-feira, quando desembarcava no Aeroporto Internacional do Galeão/Tom Jobim, vindo da Bahia, onde acompanhava as negociações dos policiais em Salvador. Contra ele, a acusação é de “incitamento e aliciamento a motim” – um crime militar. O cabo foi levado para o Complexo Penitenciário de Bangu e é mantido em uma unidade destinada a criminosos de alta periculosidade. A alegação do secretário de Defesa Civil do Rio, coronel Sérgio Simões, é de que a manutenção do cabo nessas condições visa a evitar uma possível ação de resgate em quartéis, para onde normalmente são levados militares acusados de desvios.
A prisão criou mais um impasse. E confirma o temor do líder da Polícia Civil. Representante dos praças da Polícia Militar do Rio, o policial Wagner Luiz diz que a libertação de Daciolo passou a integrar a pauta de reivindicações. “O pedido pela soltura e anistia do Daciolo será mais um pré-requisito para acabarmos com a greve. Daciolo é especial para o movimento, mas o que vale são as ideias que ele deixou”, afirma, como quem tenta transformar em mártir o bombeiro que, em 2011, viveu situação parecida.
Daciolo liderou a invasão ao Quartel Central dos Bombeiros, no centro do Rio, e, a partir do momento em que foi detido, sua libertação e anistia passou a figurar na pauta principal de reivindicações do grupo. “Quanto mais manifestantes forem presos, mais os adeptos à greve não vão querer o fim da paralisação. Quanto mais repressão, menos diálogo”, diz Wagner Luiz.






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