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Moro fala que corrupção é "suprapartidária" e "tende a aumentar se não for enfrentada"

Juiz da Lava Jato também se disse "impressionado" com mensaleiro condenado no petrolão

Por: João Pedroso de Campos - Atualizado em

O juiz federal Sérgio Moro, da 3ª Vara Criminal de Curitiba, durante sessão em São Paulo (SP), nesta terça-feira (29)
O juiz federal Sérgio Moro, no Ministério Público Federal em SP, nesta terça-feira (29)(Nelson Almeida/AFP)

Em São Paulo para participar de um simpósio sobre o combate à corrupção nas operações Lava Jato, no Brasil, e Mãos Limpas, na Itália, na sede do Ministério Público Federal da 3ª Região, o juiz federal Sérgio Moro, que conduz os processos da Lava Jato em primeira instância em Curitiba, fez paralelos entre a operação brasileira, que completou dois anos há duas semanas, e as ações que desvelaram um dos maiores casos de corrupção da história da Itália, na década de 1990.

Rebatendo as críticas feitas à Operação Mãos Limpas, de que ela permitiu a ascensão de Silvio Berlusconi ao poder, Moro observa que há "exagero" nesse tipo de ataque. "Berlusconi) é um oportunista que assumiu o poder de forma muito hábil. Dizer que uma coisa é causa da outra me parece um exagero. Invoca-se isso alegando que seria melhor que a Mãos Limpas não tivesse acontecido. Será que a Itália estaria melhor?", indagou o juiz federal, para quem a "democracia italiana não foi forte o suficiente para conter essa reação política".

Classificando casos de corrupção endêmica vistos nos casos brasileiro e italiano como "desafio às instituições" e "suprapartidários", Moro afirmou que "a Justiça sozinha não consegue resolver o problema" e vê a necessidade de que empresas, parlamentares e sobretudo a sociedade se mobilizem contra a corrupção. "(Corrupção endêmica) se estabelece como uma regra de comportamento. Tende a aumentar se não for enfrentada", disse o juiz federal.

Por ser juiz titular da Lava Jato, Moro não se manifestou a respeito de casos em investigação pela operação. O magistrado se disse "impressionado", no entanto, com o caso de um dos condenados no petrolão que também fora condenado no mensalão.

Em uma referência velada ao ex-deputado federal Pedro Corrêa, condenado a 7 anos e 2 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e a mais 20 anos e 7 meses de reclusão na Lava Jato, Moro afirmou que "assusta em particular que durante o julgamento pelo plenário do STF ele concomitantemente recebia dinheiro desviado do esquema de corrupção da Petrobras. É difícil entender esse tipo de fenômeno". Pedro Corrêa fechou acordo de delação premiada com a força tarefa da Lava Jato. Segundo VEJA revelou em outubro de 2015, Corrêa disse aos investigadores que Lula e a presidente Dilma não apenas sabiam do esquema de corrupção na Petrobras como agiram pessoalmente para mantê-lo em funcionamento.

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Além de Moro, também participaram do simpósio os procuradores brasileiros Rodrigo Chemim, do Paraná, Paulo Roberto Galvão, integrante da força-tarefa da Operação Lava Jato, e o italiano Piercamilo Davigo, um dos responsáveis pelas investigações da Operação Mãos Limpas.

Os investigadores brasileiros alertaram que, assim como ocorreu na Itália, a sociedade deve se preparar para prováveis reações do Legislativo às investigações à medida em que elas se aproximam de parlamentares poderosos. Chemim citou a movimentação de Eduardo Cunha na presidência da Câmara para alterar o Código Penal brasileiro e o projeto de autoria do deputado federal Wadih Damous (PT-RJ) que pretende restringir a acusados em liberdade a possibilidade de firmar acordos de delação premiada.

Galvão observou que "a reação contra a Mãos Limpas veio cerca de dois anos depois de sua deflagração". Neste mês, a Lava Jato completa dois anos. Ele destacou que em 32 dos 43 acordos de delação da operação, os colaboradores estavam fora da prisão. "O que move as pessoas a colaborarem são as provas e a lisura dos procedimentos adotados. O risco é muito baixo de a operação ser anulada", disse o procurador.

Para Piercamilo Davigo, que relatou alguns casos de delação premiada na Mãos Limpas, "uma pessoa não é presa para obrigá-la a falar, mas porque é um corruptor. Mas se ela para de fazer parte daquele grupo, ela pode sair, essa é a questão".

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