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Rio de Janeiro

Milícias rondam a campanha eleitoral no Rio

Coordenador de campanha do ex-chefe de gabinete do prefeito foi assessor de miliciano. Eduardo Paes e Marcelo Freixo já tiveram o nome arranhado pela presença de suspeitos de ligação com quadrilhas em seus partidos

Cecília Ritto, do Rio de Janeiro
Cristiano Girão: ex-vereador está preso desde 2009 e é acusado de comandar uma milícia na região de Gardênia Azul, em Jacarepaguá

Cristiano Girão: ex-vereador está preso desde 2009 e é acusado de comandar uma milícia na região de Gardênia Azul, em Jacarepaguá (Paulo Araújo/AG.O Dia - 09/09/2008)

Há não muito tempo, havia em parte da população e até das autoridades no Rio de Janeiro a percepção equivocada de que as milícias eram um problema “menor” que o tráfico. Ou até que poderiam ser uma reação legítima contra as quadrilhas de traficantes. A rapidez com que esses grupos cresceram e a brutalidade das ações, no entanto, trataram de eliminar visões ingênuas ou romanceadas da forma como os ‘paramilitares’ atuam nas áreas mais pobres do Rio. O que se percebe, nos períodos eleitorais, é que a penetração dos milicianos nas instituições é um fato consumado. E que, independentemente do consentimento de legendas e candidatos, criminosos e suspeitos estão espalhados pelas máquinas partidárias.

VEJA desta semana mostrou a conexão entre um ex-assessor do miliciano Cristiano Girão e o candidato Luiz Antônio Guaraná – aliado do prefeito Eduardo Paes, de quem já foi chefe de gabinete. O assessor é Anderson da Silva Moreira, também conhecido como “Zoião”. Foi braço direito de Girão – hoje preso, mas segundo VEJA apurou, ainda no comando da milícia do bairro Gardênia Azul – e assumiu o cargo de coordenador de Campanha de Guaraná nessa localidade. Por coincidência, é a propaganda de Guaraná – e Paes – que domina Gardênia.

Uma carta de 2011, encontrada pela Polícia no centro de assistência social mantido por Girão, mostra que a presidente da associação de moradores do local, Neuza Maria Correa Barreiros, tinha que prestar contas ao miliciano, mesmo estando preso. Ela relata a Girão ter sido procurada pelo subprefeito de Jacarepaguá, Tiago Mohamed, aliado de Paes, para tratar de política. Na carta, obtida por VEJA, Neuza diz: “O Tiago, subprefeito, falou que o prefeito quer uma agenda comigo. Já sentiu o que vai ser, né? Pedir para apoiar alguém dele, lógico”. Neuza disse à revista que se encontrou apenas com assessores de Guaraná.

Os destaques de VEJA desta semana

Paes disse que deu um “puxão de orelha” em Guaraná. E não há como provar que o candidato contratou Zoião com intenções perversas, como é a formação de um curral eleitoral em um bairro ou favela. Mas é estranho que, diante de tantos indícios, um candidato que foi chefe de gabinete do prefeito, com informações à disposição, tenha cometido tamanho deslize.

O prefeito candidato à reeleição vem sendo confrontado pelo segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, Marcelo Freixo (PSOL), por ter se reunido com milicianos em 2009, por ocasião de uma reunião sobre o modelo de licitação das linhas de vans na cidade. Paes admitiu que já esteve com Girão, mas nega que, na dita reunião, tenha tratado do formato de concessão – criticado por Freixo.

As milícias apareceram como tema desta campanha quando o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) pediu, mais uma vez, reforços para áreas em que considera a eleição em perigo. Além de cidades da Baixada Fluminense e municípios que vão receber grandes somas de royalties e investimentos federais – como Itaboraí, sede do Comperj, um projeto de 22 bilhões de reais da Petrobras –, estão no mapa de pontos com segurança reforçada bairros da zona oeste da capital. Campo Grande, nessa região, é um reduto do maior e mais famoso grupo de milicianos, a “Liga da Justiça”, cujos chefes estão atualmente presos: o ex-vereador Jerominho (ex-PMDB) e o ex-deputado estadual Natalino (ex-DEM).

Freixo, que alavancou sua carreira política a partir da presidência da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), também sofreu arranhões. No mês passado, veio à tona o que, para alguém com o currículo de Freixo, é um incômodo e tanto. O candidato a vereador recém-filiado ao PSOL Rosenberg Alves, o Berg Nordestino, consta como um dos citados pelo relatório da CPI das Milícias. Ele não foi indiciado, e até o momento nada se provou contra ele. Mas Freixo considera que Berg deve ser expulso por uma questão política: Berg já homenageou o ex-vereador Luís André Ferreira da Silva, o Deco, atualmente preso por homicídio. Deco já fez ameaças de morte a Freixo, no período de combate às milícias.

Crime – Quando surgiram no Rio, as milícias eram vistas como uma espécie de “segurança comunitária”, um “antídoto” das favelas e áreas pobres para evitar o avanço do poder dos traficantes. Esse era, no entanto, o ‘cartão de visita’ dos grupos que disputavam o controle territorial de áreas desassistidas. E rapidamente a milícia mostrava sua verdadeira face: uma forma perversa de controlar tudo o que é capaz de render dinheiro, como venda de gás, água, transporte clandestino, roubo de sinal de TV a cabo e, claro, o “pedágio de candidatos”, negociando apoio para permitir que candidatos façam campanha.

Aos poucos, o termo “milícia” passou a ser aplicado para quase todas as formas de se apropriar ou explorar, ilegalmente, funções de segurança pública ou de controle de território com uso da força. E nem as áreas nobres da cidade estão livres desse tipo de investida – às vezes com consentimento dos moradores. A Polícia Militar investiga o que pode ser uma nova milícia atuando na rua Aperana – um recanto de paz no início do Alto Leblon, bairro mais caro do Rio. Por causa da proximidade com a favela do Vidigal, atualmente ocupada pela polícia, moradores da Aperana estariam recorrendo à segurança privada, oferecida por policiais militares. A prática, em tese, é problemática, mas não configura milícia, porque são os próprios moradores os interessados em pagar pela segurança privada.

Eleições- Até a eleição de 2008, a milícia tinha um braço político muito mais visível e público do que o tráfico. “Tudo indica que existia naquele momento um projeto político por trás disso: autoridades defendiam as milícias, os policiais milicianos eram nomeados em funções de confiança. Era um projeto político que incluía várias pessoas do alto escalão da secretaria de segurança da época”, afirma o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise de Violência da UERJ.

“Alguns traficantes faziam acordos com alguns candidatos, mas era algo mais pontual. Já a milícia tinha toda uma estruturação para colocar seus chefes no legislativo. O comportamento político da milícia até aquela época era mais ambicioso do que o tráfico, até o prefeito dizia que era ela era um mal menor”, afirma Cano.

Desde as últimas duas eleições, para as câmaras municipal e estadual do Rio, vários milicianos foram presos, como o ex-vereador Deco e os irmãos Jerominho, ex-vereador, e Natalino, ex-deputado estadual. Desta vez, os nomes mais conhecidos não estão na linha de frente das eleições. E a atuação deles, um tanto mais discreta. Nem por isso o perigo é menor. Ao site de VEJA, em julho, o presidente do TRE-RJ, Luiz Zveiter, disse: “É o bandido institucionalizado. Aquele que deveria representar o Estado do lado do cidadão, mas está do lado do bolso”.

Chegaram denúncias ao tribunal de que algumas áreas de milícia estavam impedindo a livre circulação de candidatos que não fossem os apoiados pelo grupo paramilitar. As eleições deste ano comprovam que, mesmo com os chefões presos, a população ainda paga a fatura do discurso das autoridades que, no passado recente, legitimavam os grupos paramilitares.

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