Governo

Dilma: 'Reforma agrária não é só distribuir terra'

Presidente empossou nesta quarta-feira novo ministro do Desenvolvimento Agrário. Antecessor saiu em meio a críticas por baixo número de assentamentos

Luciana Marques
Presidente Dilma Rousseff durante cerimônia de posse do ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, no Palácio do Planalto

Presidente Dilma Rousseff durante cerimônia de posse do ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, no Palácio do Planalto (Roberto Stuckert Filho/PR)

A presidente Dilma Rousseff empossou nesta quarta-feira o novo ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas. O antecessor, Afonso Florence, deixou o cargo em meio a críticas de movimentos de campesinos por ter assentado o número mais baixo de famílias dos últimos dezesseis anos: 22.000, no ano passado. Florence voltará agora a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Ele e Vargas integram a mesma corrente do PT, a Democracia Socialista (DS) - uma das mais radicais do partido.
 
Dilma e o novo ministro aproveitaram a oportunidade para renovar as promessas de reforma agrária, mas também para fazer um esclarecimento. “Reforma agrária não é só distribuição de terra, mas garantia das condições de desenvolvimento para as populações que acessem essas terras”, disse a presidente. “De nada adianta distribuição de terra com permanência das populações rurais na extrema pobreza.” A presidente agradeceu e elogiou o trabalho de Florence, que, na fala dela, contribuiu para a continuidade da paz no campo.
 
O novo ministro prometeu ampliar políticas para a agricultura familiar, para contribuir com o crescimento da economia. “O Ministério do Desenvolvimento Agrário é o ministério do desenvolvimento econômico”, disse. “Queremos impulsionar ganhos de produtividade, de forma a reduzir preços dos alimentos, contribuindo para queda da inflação.” Vargas também defendeu o diálogo com movimentos dos trabalhadores rurais: “Vou fortalecer a agricultura familiar, ampliando e aprofundando o diálogo com movimentos sociais do campo.” 
 
Desempenho - Apesar do baixo número de assentamentos em sua gestão, Florence disse que todas as metas da pasta foram atingidas. E só citou dados positivos em seu discurso de despedida: “Executamos aproximadamente 773 milhões de reais buscando avançar com a política de reforma agrária”, disse.  “Retomamos crédito, assistência técnica, constituímos política pública para agricultura familiar.” 
 
O assentamento de apenas 22.000 famílias no ano passado pelo programa de reforma agrária fez com que o governo da presidente Dilma Rousseff batesse um recorde negativo – o que colaborou para a queda de Florence. Nos últimos dezesseis anos, foi o menor número de famílias beneficiadas.
 
Os novos líderes do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), e na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), também compareceram à cerimônia. Assim como o novo ministro, receberam cumprimentos de alguns convidados por suas nomeações. 
 
Biografia - Pepe Vargas estava no segundo mandato como deputado federal pelo Rio Grande do Sul quando foi chamado para assumir o Desenvolvimento Agrário. Ele se elegeu prefeito de Caxias do Sul (RS) por duas vezes, em 1996 e 2000. Vargas iniciou a carreira política em movimentos estudantis e atuou em sindicatos das áreas de metalurgia, têxtil e petroquímica. Ele é filiado ao PT desde 1981. 
 
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