Brasil
Economia
Desemprego deve saltar para 9,1%
Por Giovana Pastore
Desde que a crise financeira mundial revelou sua face mais agressiva, no terceiro trimestre de 2008, um fantasma voltou a perturbar o sono dos brasileiros: o desemprego. Até agora, a situação ainda não se mostrou grave: até novembro, a taxa de pessoas sem trabalho se manteve estável, em torno de 7,5%. Mas o quadro deve piorar em 2009, especialmente depois do Carnaval: o índice de desocupados deve saltar para 9,1%, segundo estimativas do economista Frederico Turolla, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e sócio da consultoria Pezco.
"Até o começo de 2009, a taxa de desemprego não deve refletir o que acontece na economia. O mercado de trabalho tradicionalmente demora a sentir os efeitos das crises. Em 1997, no colapso asiático, por exemplo, o impacto no emprego só foi sentido no ano seguinte", explicou Turolla, em entrevista a VEJA.com. Outra razão para a taxa de desemprego ainda não ter registrado elevação é o fato de as empresas brasileiras já terem lançando mão de medidas alternativas às demissões, como férias coletivas, aposentadoria antecipada e planos de demissão voluntária.
Para o economista Otto Nogami, professor do Ibmec São Paulo, as festas de dezembro "mascararam" os efeitos da crise no país, encobrindo os reflexos da turbulência sobre o emprego. "No final do ano, a economia estava aquecida, o que pode ter compensado, em parte, os efeitos da crise. Em janeiro, a queda na atividade econômica já é rotina, de modo que as empresas estão preparadas para a baixa na produção", diz. José Pastore, economista da Universidade de São Paulo (USP), acrescenta que, no período de festas, muitas empresas contratam funcionários temporários, o que também ajuda a encobrir o quadro do emprego.
Demissões - Importantes empresas brasileiras já deixaram de lado medidas paliativas e efetuaram demissões. No início de dezembro, a mineradora Vale, a maior empresa privada do país, fechou quatro unidades de extração de minérios em Minas Gerais e mandou embora 1.300 funcionários. De agora em diante, as áreas da economia que dependem intensamente de crédito devem ser fortemente atingidas. "O setor automobilístico é alvo de grande preocupação: ali, deve acontecer uma onda de demissões", afirma Nogami, do Ibmec. A construção civil e o setor financeiro também devem passar por momentos difíceis.
"Não espero um movimento dramático no comércio varejista", ressalva Turolla, da ESPM. Segundo ele, em momentos de recessão, a população tende a reservar o dinheiro para artigos básicos, como alimentos e roupas. "A retração deve acontecer na indústria", completou. Mais cético, Pastore lembra que, em dezembro, "houve uma queda abrupta na demanda e o consumidor perdeu a confiança para comprar". Em outras palavras, o comércio varejista pode ser atingido.
Reforma trabalhista - Na tentativa de evitar o avanço da crise sobre os empregos, o governo lançou mão, em dezembro, de um pacote de desoneração. As medidas, que pretendem liberar 8,4 bilhões de reais, reduziram o imposto de renda das pessoas físicas (IRPF), o imposto sobre produtos industrializados (IPI) e o imposto sobre operações financeiras (IOF), que incide sobre as compras a prazo e o uso do cheque especial.
O resultado das medidas, porém, é incerto. Por isso, Turolla defende que o governo mude o alvo de sua artilharia, trabalhando para reduzir os encargos sociais que incidem sobre a folha de pagamento - o que, consequentemente, incentivaria a contratação pelas empresas privadas.
"A legislação brasileira é antiemprego. E não apenas ela. Todo o processo de contratar e descontratar no Brasil é muito caro", afirma. Pastore, da USP, lembra que empregar no Brasil é uma atividade excessivamente onerosa para as companhias: nos EUA, os encargos trabalhistas custam ao empregador o equivalente a 9% do salário do funcionário; por aqui, a cifra chega a 103%.








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