20/04/2010 - 23:38
  • compartilharCOMPARTILHAR
  • imprimirIMPRIMIR
 

Radar on-line

A comédia de erros de Belo Monte

Lauro Jardim

Há duas semanas, Lula bravateou que faria "Belo Monte de qualquer maneira". Pois bem, eis uma promessa que seu governo está cumprindo à risca. Sob quaisquer pontos de vista, o leilão de terça-feira fracassou. Há uma penca de dúvidas sobre as consequências da construção da usina hidrelétrica para o meio ambiente. Mas foi na parte da viabilização econômico-financeira do projeto que o governo sofreu sua maior derrota. Ele não conseguiu, como esperava, seduzir a iniciativa privada. Com isso, é a mão forte das estatais que fará Belo Monte "de qualquer maneira".

No mundo ideal do governo Lula, um edital seria lançado e, num estalar de dedos, uns três consórcios se formariam. No dia do leilão, brigariam lance a lance para construir a terceira maior usina hidrelétrica do mundo e operá-la. O primeiro sinal de que as coisas não iam bem foi dado no dia 7: Odebrecht e Camargo Corrêa, que lideravam um dos dois consórcios que pareciam interessados, deram o fora. Disseram com todas as letras que, nas condições oferecidas pelo edital, Belo Monte seria uma pródiga produtora de prejuízos. Não era palavra de quem não sabe fazer contas: a Camargo tem em seu currículo quatro das cinco maiores hidrelétricas do Brasil. O governo achou que era blefe de dois grandes grupos interessados em obter facilidades. Não era.

O governo correu, então, para formar outros consórcios. Um deles trazia na linha de frente dois pesos-pesados: Andrade Gutierrez e Vale. A participação da Andrade Gutierrez deveu-se a uma boa dose de insistência. A da Vale, foi quase uma imposição. O consórcio concorrente - que era o azarão e acabou levando Belo Monte - formou-se à base de vitaminas governamentais. A primeira vitamina foi o crédito do BNDES. A segunda, a "decisão" da estatal Chesf de bancar 49,98% do investimento. As construtoras Queiroz Galvão e J. Malucelli toparam ficar com uma fatia de 20% do consórcio.

Parecia tudo certo para o dia 20. Bastaria vencer a guerra jurídica e derrubar as liminares que impediam o leilão. Mas nos bastidores a casa estava ruindo. O consórcio liderado pela Andrade/Vale calculava, recalculava, mas as contas não fechavam - algo que Camargo e Odebrecht já haviam descoberto. Andrade e Vale sairam de mansinho. Já que havia outro grupo no páreo, o.k., que esse levasse Belo Monte. O que não se sabia ainda é que Queiroz Galvão e J. Malucelli também se apavoraram ao antever prejuízos de enormes proporções. As construtoras puxaram o freio e pularam do carro. Deixaram a Chesf com o abacaxi nas mãos. Conclusão: para fechar a equação, a estatal Eletronorte entrará na roda, ao lado de fundos de pensão estatais - esses sempre prontos, desde as privatizações do governo FHC, a dar uma mãozinha.

Parte desse imbroglio pode ser atribuído sem temor de injustiças a Dilma Rousseff. Toda essa concorrência foi gestada na Casa Civil que ela comandava até três semanas atrás (o ex- ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, atuou como figurante nessa comédia de erros). Em defesa de Dilma, dirão que o Brasil precisa de energia para não parar. Afinal, o país deve crescer entre 5% e 7% neste ano - e as previsões são de igual calibre para 2011. Pura verdade. Mas isso não significa que o Brasil precisava de uma nova e poderosa estatal. Nem do vexame que se viu ontem.
 

Comentários


comentar

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais(e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para aprovação de comentários no site de VEJA
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados