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Bandido preso pagou 5.000 reais para receber amante dentro do Fórum de Bangu

Tentativa de resgate do traficante “Piolho” deixou mortos um menino de 8 anos e um policial, em outubro, no Rio. Polícia Civil investiga se mulher levaria arma para a fuga

Leslie Leitão, do Rio de Janeiro
Menino de 8 anos, foi morto por uma bala perdida durante confronto com a polícia em uma tentativa de resgate de presos em Bangu, no Rio de Janeiro

Menino de 8 anos, foi morto por uma bala perdida durante confronto com a polícia em uma tentativa de resgate de presos em Bangu, no Rio de Janeiro (Alvinho Duarte/Fotoarena/VEJA)

Pela voz do criminoso, a Polícia Civil do Rio teve acesso aos detalhes da tentativa de resgate desastrada que terminou com uma criança de 8 anos e um policial militar mortos, no último dia 31 de outubro. O relato do detento Alexandre Bandeira de Melo, preso por tráfico, comprova o desprezo que as facções criminosas têm pela Justiça – e mostra como as instituições estão vulneráveis às ações do crime organizado. Em um depoimento prestado dois dias depois da ação que tentou resgatá-lo, Bandeira de Melo, conhecido como “Piolho”, assumiu ter “comprado” por 5.000 reais o direito de ter um encontro com sua amante dentro do Fórum de Bangu. O dinheiro, diz o detento, foi entregue à advogada Adriana Godoy, que repassaria a quantia aos policiais da carceragem do fórum.

Como um encontro amoroso se conecta com a tentativa de fuga? Simples: Piolho não contou, mas a polícia já sabe que a amante levaria uma pistola para que o bandido escapasse do fórum. Do lado de fora, bandidos recrutados por ele complementariam o plano.

A história apresentada por Piolho é uma aula sobre a cascata de erros invisível para o cidadão comum. Condenado a 29 anos e seis meses de prisão, o bandido não é assistido pela advogada a quem repassou o dinheiro. Adriana Godoy defende, no entanto, outro traficante que cumpre pena na mesma unidade de Piolho, Luiz Armando Lopes Amadeu Vieira, conhecido como “Dallas”. Como Piolho queria estar no Fórum de Bangu para ser regatado, pediu a Dallas e Adriana para ser arrolado como testemunha.

A advogada, agora, está sendo investigada e terá de explicar qual participação e até que ponto teria colaborado para o plano de resgate do traficante. Piolho disse à polícia não saber se já houve esse tipo de “encontro amoroso” no fórum, mas afirmou ter sabido que “há facilitação para tal prática”.

Piolho percebeu que o plano não deu certo quando ouviu, de dentro do prédio, os estampidos de tiros na rua. Em seu depoimento, ele contou que concebeu a fuga depois de, em duas ocasiões, quando esteve no local, ter identificado a fragilidade na segurança daquela carceragem, vigiada apenas por dois policiais em frente à porte e outros dois no interior do cômodo. O plano idealizado pelo bandido durante três meses incluía, além da arma entregue pela amante, a participação de dez bandidos armados com fuzis e pistolas. O grupo, segundo registrou em seu relato, renderia os policiais na entrada do fórum para buscar Piolho na carceragem.

O responsável pela organização do plano do lado de fora da cadeia seria o bandido que Piolho identifica como “Pará”, mas que a polícia acredita ser o traficante Jean, que atualmente comanda o Morro do Dezoito, em Quintino, e que retomou, recentemente o Morro do Urubu, em Pilares, ambos na Zona Norte. Piolho, Pará e Dallas são criminosos da facção Amigos dos Amigos (ADA), que tem como líder máximo Celso Luiz Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém. A quadrilha trava uma guerra com bandidos do Comando Vermelho pelos morros mais rentáveis para a venda de drogas, reduzidos em parte pelo programa de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que, apesar de não acabarem com o tráfico, obrigam os bandidos a serem mais discretos e afugentam consumidores. Um detalhe: Piolho tem a preocupação de inocentar Celsinho, e afirmar que o chefe maior da quadrilha nada sabia a respeito de seu plano.

Presídios do Rio terão salas de videoconferência para interrogar detentos

Desdobramentos – O plano orquestrado por Piolho resultou no tiroteio que parou o bairro e comoveu o país, deixando morto um menino Kayo da Silva Costa, 8 anos, que passava pelo local para ir a uma escolinha de futebol. Também foi morto na ação o policial militar Alexandre Rodrigues de Oliveira, de 40 anos. Outro PM e uma mulher que passavam pela rua foram baleados.

Piolho aproveitou-se de um direito constitucional: o de estar presente nas audiências em que é citado. Ele, no entanto, admite no depoimento que só foi arrolado como testemunha porque combinou isso, forjando uma necessidade inexistente. O episódio no Fórum de Bangu opôs duas obrigações do Estado: garantir o direito de defesa e o de zelar pela segurança dos cidadãos.

Apesar da grita de advogados e defensores públicos, o Tribunal de Justiça do Rio aprovou uma resolução que restringe a presença de réus presos nos fóruns do estado. A resolução determina que  criminosos à disposição da Justiça só serão transportados para participar de audiências – e não mais para serem citados, notificados ou intimados, como ocorria. A medida entrará em vigor no dia 7 de janeiro de 2014. Para que os detentos continuem tendo seus direitos garantidos, o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, terá cinco salas de videoconferência para interrogatórios.

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