Brasil
Entrevista: Ricardo Humberto Rocha
Aplicação em renda fixa é porto seguro em momento de crise
Por André Pontes
Desde o início da crise financeira, com a queda das bolsas, muito se ouviu falar que o investimento em renda fixa era a melhor opção. Você sabe como funciona essa modalidade de investimento? Como se aplica corretamente nela? Para mostrar como funcionam esses fundos, VEJA.com conversou com Ricardo Humberto Rocha, professor de finanças da Faculdade Ibmec de São Paulo. Doutor em mercados financeiros pela Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), Rocha também é co-autor dos livros Análise de Investimento e Como Esticar seu Dinheiro. Para ele, a renda fixa é uma boa opção para quase todo mundo.
O que significa fundo de investimento?
O fundo é um investimento na forma de condomínio. Os cotistas são os condôminos que adquirem os serviços de um administrador profissional, que, por sua vez, vai gerir o investimento. São compradas cotas. Elas então são alocadas em ativos de renda fixa. Caberá ao gestor do fundo escolher qual ativo de renda fixa ele vai adquirir.
Como funcionam as cotas?
As cotas representam investimentos feitos com títulos públicos ou privados. Quando o investidor vai diretamente no Tesouro, compra uma Letra do Tesouro Nacional, por exemplo. Já quando compra cota do fundo de renda fixa, é o administrador que vai adquirir aquela LTN. Ele pode comprar ativos com taxa de juros pré-fixada ou pós-fixada, de acordo com a escolha do cotista.
Qual é a diferença entre título pré-fixado e pós-fixado?
No titulo pré, o retorno que o cotista vai receber já está determinado até o final. Por exemplo, se existe a possibilidade do Banco Central reduzir as taxas de juros, os investidores preferem fixar esse retorno antes da queda. Quando você investe no pós-fixado, você saberá o quanto vai receber apenas no final da aplicação. Se a economia está num momento de maior volatilidade, risco e incerteza, o melhor é optar por ativos pós-fixados, pois esses títulos têm seu rendimento determinado pela soma da variação da inflação mais a taxa de juros. Se a inflação subir, por exemplo, a taxa bruta acompanha.
Preciso ter conta aberta com o banco que eu investir?
Não necessariamente. Isso depende muito da política de cada banco.
Quem você aconselha a investir na renda fixa?
Todo mundo que tiver condições. Mas é importante verificar qual é a taxa de administração do fundo. Se ela for muito alta, principalmente no caso de pequenas aplicações, pode ser que a soma da taxa mais o imposto de renda chegue quase no mesmo rendimento da poupança. O limite seria 2% ao ano, mas o ideal mesmo seria você ter dinheiro em um fundo que não cobrasse mais que 1% ao ano.
Como é calculada a taxa de administração?
Ela é calculada sobre o patrimônio do fundo. Vamos supor que você tem um fundo com um patrimônio de 1.000 reais e uma taxa de administração de 2%. Você teria que pegar esses 2% e dividir por 252, número referente aos dias úteis do ano. O resultado da divisão é diariamente deduzido do patrimônio do fundo. Isso implica, portanto, que durante um ano a pessoa pagará 20 reais, que será um somatório do que pagou todo o ano.
Qual é o tempo ideal para deixar o dinheiro investido na renda fixa?
O prazo mínimo é de 30 dias. Essa, aliás, é uma das vantagens do fundo de investimento. A partir do trigésimo dia, o investidor pode resgatar o dinheiro integralmente ou parcialmente. Mas existe sempre uma estratégia. Vamos supor que a pessoa comprou uma cota de fundo de renda fixa pré-fixada e a taxa de juros caiu. Daí ele tem que avaliar se o que a cota vai dar de retorno diariamente continua atrativa. Por isso é interessante o investidor acompanhar a variação das suas cotas todos os dias.
Preciso aplicar o dinheiro com uma certa periodicidade?
Não, é possível fazer apenas uma aplicação. A pessoa também pode fazer uma aplicação inicial e outras aplicações à medida que seu fluxo de caixa permita. Ou, por exemplo, se uma pessoa vendeu um imóvel e vai comprar outro, pode pegar o dinheiro e aplicar num fundo enquanto não define a nova compra. Ela não precisa aplicar novos valores, mas se quiser pode. E isso vai rendendo juros em cima de juros, todos os dias.
Há riscos no investimento?
Todo investimento tem risco. Uma dica é fazer a leitura do prospecto do fundo, que é muito didático. Basicamente há dois riscos. Se o título que está na carteira do fundo é um titulo do governo, o risco que ele tem é do juro subir. Quem tinha cotas de um fundo que comprou títulos do governo a 12% ao ano e o juro foi para 14% vai perder essa diferença.
Qual é o perfil das pessoas que investem em renda fixa?
É um produto muito popular. Tem desde os fundos de varejo até fundos mais sofisticado, ou seja, tanto para gente que só pode poupar pouco como para investidores de um segmento de alta renda. Mesmo o investidor mais agressivo tem pelo menos 70% dos seus recursos em renda fixa. Dificilmente tem alguém com mais de 30% em renda variável. É muito raro.
Em meio à crise financeira, você aconselha investir na renda fixa?
Em momentos de crise, renda fixa é um porto mais seguro. Não é um porto totalmente seguro, mas é um porto mais seguro. Com certeza é mais que renda variável.
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