Brasil
São Paulo, 456 anos
A desigualdade verde da metrópole
O contraste entre os bairros arborizados e a imensidão cinza (Douglas Cometti)
A Organização das Nações Unidas (ONU) considera que são adequadamente arborizadas as cidade que oferecem 12 metros quadrados de área verde a cada um de seus habitantes. São Paulo tem 40. São 2.785 praças e 2,5 milhões de árvores. Um quinto do território paulistano é formado por matas. Os parques e áreas municipais protegidas somam mais de 24 milhões de metros quadrados.
Parece mentira. Não é. Mas os dados acima, fornecidos pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, não tornam mais bucólica a paisagem contemplada pelos 11 milhões de paulistanos que se concentram numa área de 1.500 quilômetros quadrados, cortada por 17.000 quilômetros de vias asfaltadas e de onde brotam 27.000 edifícios.
Apesar do considerável volume de áreas verdes, elas estão concentradas principalmente nos limites da cidade, bem longe dos grandes aglomerados urbanos. Outro fator relevante é a desigualdade ambiental, quase tão cruel quanto os abismos sociais que corroem as entranhas da capital. No Morumbi, por exemplo, bairro nobre da zona oeste, há 239 metros quadros de área verde por habitante. No Brás e em Santa Cecília, regiões centrais, zero.
"Esses são números para políticos usarem em discursos", argumenta o ambientalista Ricardo Cardim, referindo-se aos dados oficiais (que, justiça seja feita, a Secretaria nunca apresenta como prova de qualidade ambiental). "Uma cidade não pode ser considerada verde sem que existam parques perto da casa de todos os habitantes e calçadas arborizadas, formando corredores verdes pela cidade."
É essa a proposta da arquiteta Cássia Regina Mariano, autora do livro Preservação e Paisagismo em São Paulo: "Se houvesse a arborização expressiva de todas as grandes avenidas da cidade, teríamos um salto gigantesco em qualidade de vida, que incluiria diminuição da temperatura, melhora da poluição atmosférica e até mesmo redução do número de inundações, uma vez que aumentaria a permeabilidade do solo." Na opinião da arquiteta, isso seria mais eficiente do que suavizar o cinza da capital com ilhas verdes em locais isoladas.
"Outro fato interessante é que, até numa cidade como São Paulo, a natureza é capaz de se regenerar rapidamente mesmo sem a ajuda humana", observa Cardim. O ambientalista cita como exemplo disso os aposentos dos antigos colégios da Vila Maria Zélia, na zona Leste, a ponte velha do Jaguaré sobre o Rio Pinheiros, um estacionamento na Avenida Consolação e um prédio na Rua do Carmo. Abandonados há poucas décadas, esses locais já abrigam miniaturas de florestas sobre o concreto (assista ao vídeo abaixo).
Fundador da Associação dos Amigos das Árvores de São Paulo, Cardim só lamenta que a maioria das plantas que brotam espontaneamente nesses lugares não é de espécies nativas. "A principal cidade do Brasil, país que tem a maior biodiversidade do planeta, foi colonizada por uma vegetação estrangeira", conta. "Hoje, a árvore mais comum no município é a tibuana, que veio da Bolívia, e menos de 20% da vegetação que encontramos nas ruas é própria dessa região". Na metrópole que deve sua história à diversidade cultural trazida pelos imigrantes, essa característica não deixa de ser a cara São Paulo. Veja também o mapa da flora paulistana, nos séculos XVI e XXI.








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